August 27, 2010 0

livros e máscaras

By zander catta preta in fotos
livros e máscaras

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August 23, 2010 0

Rotina

By zander catta preta in textos

Acorda cedo, antes do sol. Atravessa o vão dos sonhos e pisa na realidade morna-fria. Antes de chegar no banho morno-quente, já se despe da noite passada. Deixa as águas lavarem o que restou dos amantes. Sai, renovada, outra mulher, outra pessoa. Toma para si o nome do batom que vermelhava na pia. É mulher, não-menina.

Volta tarde, bem depois da prima estrela. Atravessa o beco do idílio e se arremessa no copo do consolo. Acaricia a possibilidade da solidão, mas se lembra dos possíveis outros. Opta por ambos. Atira-se para o nada, o perdido, o baticum repetido das mãos sem nome, das bocas sem propostas, das coxas (ah! as coxas!) rijas, das partes – pudicas ou não! – (ah! o pudico poder).

Adormece sem saber como, sem querer, num eterno não-acordar.

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July 23, 2010 1

meu primeiro livro

By zander catta preta in textos

Não me lembro do meu primeiro livro. Nem do primeiro gibi. Lembro-me, porém, da cartilha da escola – O Mundo de Talita – e dos coelhos A, E, I, O e U. Lembro dos cadernos e da menina Egle – Egle? era isso mesmo? – que era loira dos olhos azuis. Lembro do Marça, o japonês de brigar e cair no lago da escola e de ficar na biblioteca municipal do Méier, ali na Rua Engenheiro Julião Castelo.

Meu Pé de Laranja Lima - José Mauro de Vasconcelos

Meu Pé de Laranja Lima - José Mauro de Vasconcelos

Lembro do Meu Pé de Laranja Lima, do José Mauro de Vasconcelos. Lembro de ser novela e filme antes de ser livro. Lembro de um tempo de Cantiflas, de Trapalhões e Mazaropi no cinema. Lembro de ser barrado no cinema ao tentar assistir o King Kong. A versão dos anos 1970 e não a dos 1930, que esteja bem claro.



Lembro de ficar cercado por revistas Kripta, Mickey, Pato Donald, Recruta Zero e Gibi. E do Mundo Animal. E de Fatos e Fotos – O Homem na Lua. E Animais pré-históricos. E dos álbuns de figurinhas Ciência, Animais pré-históricos, Mundo animal e Galeria Disney. E da figurinha do Mancha Negra, que nunca tive.

Lembro de vila com amendoeiras e sombra farta e calor idem. Lembro de pipas que iam ficando mais e mais desfocadas à medida que eu envelhecia. Lembro de balões, de festa junina na rua, de jogar marimba, pião, bola de gude e futebol e de ser ruim em tudo isso junto. Lembro de brincar com amigos imaginários que moravam dentro da engrenagem do ventilador de chão. De lutas eternas entre os playmobil, de super-heróis e de um sorriso farto que se misturava com os meus cabelos muitos à época.

Kid Zander

Kid Zander

Sinto falta do tempo que tinha para perder, do meu flanar sem responsabilidade, do cochilo quando ficava quente e da sensação que teria muito, mas muito tempo pela frente.

post-resposta a meme enviado por Lucia Freitas, do Ladybug Brasil. Quem for de bom core, de saudades quentes e verdes, que nos siga!

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July 1, 2010 0

Egberto

By zander catta preta in textos

Egberto nunca curtiu esse lance de caraoquê. Sempre achou que era coisa de gente chata que bebe, não sabe cantar e se empolgava em pagar mico. Depois que assistiu ao “500 dias com ela” até se empolgou um tico para ver se encontrava a “sua” Zoey Deschanel na vida, mas desencanou. Zoey só tem uma – dizia, acomodado – e é muita areia para mim.

Certa feita, já alcoolizado, foi chamado para um boteco suspeito na Liberdade. Ingênuo, foi e caiu na arapuca. Sentou-se no lugar mais inacessível da mesa dos amigos e rezou aos deuses e espíritos alcoólicos que não o chamassem para o palco. Foi em vão. Chegou trôpego no palco e escolheu uma música ao acaso. Estava tão alterado que não via o público, ouvia o que acontecia ao seu redor e sequer tinha noção onde estava. Quando voltou a si, estava sentado de volta à mesa com olhares estupefatos voltados para sua expressão lacônica.

O amigo comentou. Nunca soube que você cantava Elis tão bem. Parecia até ela.
Aquilo ficou zanzando na sua cabeça até a semana seguinte. Ele não se lembrava de ter escolhido “Disparada” dela (do Jair Rodrigues, na verdade) e tampouco gostava daquela mocréia cocainômana suicida. Pelo contrário, era avesso à MPB de uma forma geral. Na verdade, era avesso à música num conceito mais amplo e irrestrito.

Não gostava de musicais, rádios, trilhas sonoras, o escambau. Bando de vagabundos que não tinha nada melhor para fazer, nada mais produtivo, pensava.

Movido pela curiosidade, voltou lá. Vou na terça porque é mais vazio e não corro risco de pagar mico. Se ferrou de novo. Se não estava lotado como no fim de semana, tinha uma turma barulhenta comemorando o aniversário de um deles. Sentou ao balcão e pediu um guaraná. Quando deu por si, estava descendo do palco sob aplausos e bises. Se tocou que estava com purpurina nos braços e no rosto. Nunca vi alguém interpretar a Clara Nunes tão bem, cara. Tu devia ir num show de calouros desses aí.

Clara Nunes? Que diabos…

Não se lembrava copiosamente de nada. Teve uma idéia. Deu mais uma semana e chamou o Marcão para voltar lá, ele é culpado disso tudo só podia ser, e colocou uma câmera fotográfica dessas que também filma vídeos na mão do sacana. Se eu subir no palco, você filma tudo. Fechado! Posso colocar no YouTube? Pode até enfiar no rabo depois que eu vir.

De novo, teto preto e palco. Marcão, boquiaberto, deu a câmera já desligada para ele. Se tu fosse preto não seria mais parecido com o Mussum. Cantou As Mariposa e emendou com Tragédia no Fundo do Mar. Virou para trás como num reflexo e só deu tempo de ver o grande, fabuloso e poderoso Antônio Carlos ir sumindo até sobrar apenas o seu sorriso. Ouviu no pé do ouvido. Cacildis, tu é muito manézis. Tocou a “fita” e não acreditou no que via.

Era um astro.

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June 21, 2010 1

O que a vida nos trouxer

By zander catta preta in textos

Sábado assisti a Whatever Works do Woody Allen. Novamente, um filme excelente. Novamente me identifiquei com o protagonista. Novamente vi que faço tudo errado. De novo.

Mas queria falar de algo que notei no filme: a “mensagem” que me fica é a óbvia dica para aproveitar todo o alento que o mundo nos dá. A vida é curta, vil e torpe e não dá a menor bola para nós, tolos, que acreditamos que há um sentido maior no mundo. Nem que seja 42.

E enquanto flanamos buscando sentido e rumo para as coisas, nos contentamos com o pouco de afago das poucas coisas que carregamos conosco. Passamos a ser carentes desse afeto que só outros companheiros, viajantes por esse nada irrelevante que chamamos de história, podem nos dar.

Acontece que algumas pessoas interpretam os gestos de carinho como uma violência, uma agressão. E não estão erradas.

O gesto de carinho nada mais é que a tentativa (bem-sucedida ou não) de invadir o sacrossanto espaço alheio, de agredir o próximo com a sua débil, ridícula e patética cena de querer bem. Um hostile takeover da atenção, desejo e afeto nem sempre merecidos. É, sobretudo, o primeiro e ultimo grasnar dos carentes.

Isto posto, o carinho, o gesto de súplica de atenção e afeto, é a mais comovente peça de amor. Nenhum Romeu e Julieta se compara às mãos que se desencontram na mesa, ao beijo não finalizado, à carta de amor ridicularizada, espanada e divulgada a seus algozes. Nenhum romance jamais descreveu a dor que o animal sente ao ver cada gesto de amor indelével cair no oblívio inexorável do desprezo de quem se quer bem.

E aos poucos percebo que estou virando um velho patético, débil, emotivo e ridículo.

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June 18, 2010 0

Diagrama no.6: Arrependimentos

By zander catta preta in fotos dos outros

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June 17, 2010 0

Adeus

By zander catta preta in textos

Já escrevi várias cartas de despedida na minha vida. Despedindo-me de empregos, de pessoas, da vida, de amores. Já me despedi de sonhos, de músicas, de locais, de memórias, de filhos, de mim mesmo. Já dei adeus, até logo, até breve, nos veremos, espero que suma, tchau, saudades eternas, see you soon beibi, queria te ver de novo e de novo, sabendo que nunca mais olharia naqueles olhos que brilhavam já no primeiro momento com a chama do nunca mais.

Já pensei em fechar o blogue, em trocar de emprego, de cidade, de amores, de vida, de nome, de aparência, (de sexo, nunca!), de ideias e ideais. Já cansei de projetos, de filmes, de algumas muitas músicas, de bandas, de cores, de esportes, de jogos, de livros, brinquedos.

Já até me cansei de beijar, mas isso sempre tem alguém que me faz mudar de opinião e me convence do contrário.

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June 17, 2010 0

Laerte, sempre gênio

By zander catta preta in quadrinhos dos outros

“Eu tenho pensamentos homicidas. Quero matar, matar com truculência, com requintes de crueldade. Quero que haja agonia terror e uma compreensão fulgurante – embora tardia – da minha autoria e da gravidade da minha fúria. Que haja o desejo inútil de voltar no tempo para que todo esse horror pudesse ter sido evitado.”

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June 8, 2010 0

TED Talks: The Single Story Danger

By zander catta preta in videos

“A história única cria estereótipos e o problema com estereótipos não é que eles não sejam mentirosos, mas que são incompletos”.

A generalização é a preguiça do pensamento em tentar compreender o outro. Funciona, sabemos, mas é preguiçosa ainda assim.

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June 7, 2010 0

sobre indivíduos, grupos, consciência: um esboço

By zander catta preta in filosóficas, textos

Uma questão que não consigo deixar de lado – e que não sei responder ainda – é onde termina a programação genética e onde começa o cultural, o social. Quando olhamos um cardume de peixes ou um colmeia de abelhas, analisamos o comportamento do todo partindo do pressuposto que o comportamento do indivíduo é totalmente suprimido pelo social como uma característica intrínseca, genética, desses seres. Outros animais sociais também apresentam uma aparente anulação do indivíduo perante o todo, formigas, lemingues, búfalos, zebras, e outros afins.

Nós somos essencialmente animais sociais. Andamos em bando e somos mais, maiores e mais capazes em grupo que individualmente, soltos no mundo. Parte desse “mais, maiores e mais capazes” é gerado pela nossa capacidade de entender padrões, replicá-los e transmiti-los adiante. Outra parte é por termos ainda em nosso código genético um “comportamento de manada” que determina a aceitação de valores morais ubíquos, de regras unívocas, de comportamentos coerentes, independente de cultura, classe ou formação mas, ainda assim, cremos na individualidade que se reflete em nosso comportamento no relacionamento com o não-eu, talvez para facilitar o processo de padronização, de name giving às coisas.

Se levarmos esse conceito no extremo, o indivíduo é uma ilusão, uma projeção da abstração do eu enquanto tenta compreender o que está ao seu redor e se isola do todo para analisar o que há de igual (os “nós”) e o que diferencia (“eu” + “nós”) do “outro”. Se “eu” não me construo como indivíduo, como único, não consigo criar referenciais nem de semelhança, tampouco de diferença para as coisas que precisam ser nomeadas.

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