A morte e as mortes de Rodrigo Leocádio Teixeira

May 28th, 2009 § 1

Pois morreu o Rodrigo Leocádio Teixeira. Morreu uma morte digna de anedota. Morreu na casa de um amigo. Na cama do amigo. E quem estava com Rodrigo Leocádio Teixeira era Ana Maria da Rosa Bittencourt, que não era esposa de Rodrigo Leocádio Teixeira. E o que isso tem a ver com a história? Tudo. Rodrigo Leocádio era casado com Anamaria Bittencourt Teixeira, quase uma homônima de Ana Maria. A piada não lhe passou desapercebida quando foram apresentados ano e meio atrás. Desde o primeiro momento, Rodrigo Leocádio, o Teixeira, queria ver Ana Maria nua, entre lençóis. Ana Maria Bittencourt, Rosinha, também quis algo com Rodrigo Teixeira, mas algo que envolvesse roupas brancas, uma igreja e uma forma de se justificar na sociedade teresopolitana que, de progressiva, nada.

Teixeirinha estava em pleno ato quando morreu. “Canalha!”, comentaram as inúmeras amigas do Dr. Teixeira, inclusive suas colegas de trabalho. “Herói da raça!”, exclamaram os companheiros e sócios de Leozinho no escritório de advocacia tributária que mantinha na Praça Mauá. “Filho da puta que não queria pagar motel!”, desesperou-se Anderson da Cunha, futuro marido de Anamaria Bittencourt Teixeira-Cunha e locatário da alcova.

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May 18th, 2009 § 3

A casa da minha alma é pequena. Nela, cabem umas poucas lembranças, um cálice vazio e um farrapo de vontades gastas pelo tempo. A alma ocupa um canto iluminado pelos sóis de inverno. Tem janela para um quintal de grama verde, onde ela pode se deitar e brincar de desenhar nuvens. Por vezes, cochilar na rede que prende às paredes. É onde ela se lembra de onde veio e para onde irá.

A casa dos meus sonhos é um campo aberto. Não é casa ou teto, mas horizonte infinito, sol a pino e nuvens escarradas no ciano cinzento. A casa dos meus sonhos tem um vazio ensimesmado, um nada indefinido, uma ausência de ser. Ela se insinua, mas inexiste. Como um desenho abandonado. Ninguém mora lá.

A casa dos meus desejos é um pássaro migratório. Mora em calendários, pousa em meses, cria ninhos em semanas, cisca nos dias, come nos feriados vermelhos. Ele existe no ir e vir, sempre em movimento. É filho das horas e das efemérides. Eu o alimento com os segundos que roubo do relógio.

A casa do meu futuro foi erigida em nuvens sem pé de feijão. Ela é feita de desenhos animados e de cores acachapantes. Os amigos do futuro são caricaturas de gente e eu os conheço vidas a fio. Eu acredito em suas histórias que me são enviadas em cartas de tarô. Desenho a casa em mapas astrais e traço seus contornos em trígonos, quadraturas e sextis.

A casa do meu exílio tem verão todo dia e inverno para o sono. Tem uma cama quilométrica e uma rede com paisagem de concreto e luzes. Uma lua safada me visita quando chego do trabalho e me ilude com promessas de carinhos. O exílio não é local de carinho.

A casa do meu trabalho é vizinha da alma. Sólida como chumbo, negra como o medo, fria como o beijo de quem não te ama mais. Não tem portas. Não tem janelas. Não tem saídas. Ela é carregada como um casco, uma corcova de gente. Meus dias se passam ali dentro. Algumas noites também.

A casa da minha mãe tem a mãe da mãe e a filha do filho. Já teve minhas lembranças, meus prazeres e o meu acalanto. Hoje tem conversas e uma longa espera pelo fim. É uma casa de cura, ainda que essa venha de forma inesperada. É onde podemos dormir à tarde e sabemos que alguém nos guarda à porta. Ninguém fica com fome na casa da minha mãe.

A casa da minha esposa tem o meu nome prometido e a promessa de um futuro. É feita de paredes arranhadas e a derradeira tentativa de felicidade. Sair dali é entregar-me àquilo que não quero mais ser. Toda semana parto com a esperança de retorno. Toda semana volto com a esperança de ficar.

A casa das minhas casas tem chaves gigantes, seis cores de duração e uma sombra eterna.

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