September 30th, 2009 §
A proposta era escrever trinta textos curtos (um por dia) em setembro. Não diariamente, mas trinta textos que preenchessem o mês. Era para julgar se esse blogue merecia continuar vivo, se eu me importaria ainda com ele, mesmo se tornando uma obrigação.
Ainda não sei. Fato é que voltaremos à atualização (ir)regular desse espaço, com publicações bissextas enquanto eu preparo (espero) o livro
Alguns espíritos têm de ser exorcizados.
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September 30th, 2009 §
Queria saber contar uma história de amor daquelas que marcam gerações e forjam caráteres. Uma que fosse citada daqui a centenas de anos, que fizessem estudo e análise e que dissessem que a forma que o amor é escrito define-se antes e depois dessa história aí, que eu nem bem escrevi.
Acontece que ou se ama, ou se escreve o amor. Não dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Porque ou se é sincero com a vida e retrata-se o querer bem que rege a monotonia cotidiana ou escreve-se o impossível idealizado do amor que move realidades e corta o tecido do universo para fazer manto de si mesmo.
Não acho que esses amores inventados façam bem, daí o meu afã de viver o amor diário, mundano e medíocre que eu tanto prezo, cuido, mantenho e nino.
Tudo que vem em desespero de existência me assusta. Uma pessoa hiper-intensa, uma vocação definitiva, um projeto acachapante, tudo isso me desespera, me tira o fôlego e parece irreal. Gosto das coisas miúdas, da pequenenez constante do amar diário, desse amar que tão pouco escrito, é indesejado.
Mas que é tudo o que resta para quem quer viver para sempre.
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September 29th, 2009 §

tirei daqui.
Outra coisa que não entendo é esse medo bobo de perder alguém antes mesmo de começar alguma coisa com ela. Algumas amigas se queixam que não entram em um relacionamento porque têm medo de se machucar, que podem se ferir muito no processo e preferem abrir mão disso. E quem disse que relacionar-se tem algo a ver com cintos de segurança, air-bags e limites de velocidade? quem quer segurança, que fique comendo pipoca na frente da TV enquanto sonha com os romances pré-fabricados de Hollywood.
A vida, querida, queridas, é feita de cuspe, sangue, porra, suor e dor. Quem quer se apaixonar tem de ter coragem para levar porrada na cara de quem mais ama. Pior, de quem não ama, mas deseja com um tesão de largar a família e morar no mato. Tesão de abrir mão de emprego, comida na mesa e roupa lavada. De querer morar na rua com esse indigente sentimental por quem você – tadinha, tão princesinha – se apaixonou e se entesou.
A vida, minha amiga, é foda.
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September 28th, 2009 §
Eu queria andar sem rumo em Copacabana. Caminhar na areia sem me preocupar com o sol que assa as idéias e olhar as meninas deselegantes fritando as carnes – muitas! muitas carnes! – na areia. Queria tomar uma água de coco e andar de bicicleta. Depois ir até a pedra do Leme e ver as pessoas pescando matreiras enquanto apertam unzinho disfarçadamente. Aproveito para ver os meninos do subúrbio aprendendo a surfar ali nas pedras do Posto Um.
Queria também reencontrar a grama verde e morna que eu me deitava na escola – exatamente em setembro – e ficar vendo os grilos, as formigas e o resto da fauna urbano-escolar levar o seu dia.
Definitivamente, estou melancólico.
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September 27th, 2009 §
Estou numa onda esquisita, de voltar aos tempos de moleque. O que é estranho, pois me lembro muito pouco – cada vez menos – dessa época. Mas a sensação de calor amigo, de vento morno, de amendoeira fazendo sombra, não me abandona.
Estou também lendo o Tábula Rasa, do Steven Pinker (já devo ter dito isso aqui, estou esquecido das coisas) e cada página que viro com descrições de processos neurológicos, cognitivos, de discussões filosóficas caindo ao chão ante algumas descobertas científicas (nem tão recentes, nem tão conhecidas), de individualismos e personalidades sendo reduzidas (no bom sentido) a processos normais, comuns e mundanos.
Se, por um lado, amo a idéia de que não existe nada especial, mas tudo é possivelmente conhecível, cada vez mais quero apenas o colo quente, um estalar maroto de orelhas e o copo de leite com Nescau.
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September 26th, 2009 §
Não consigo mais escrever histórias infantis. Parece que algo da magia das crianças se perdeu para mim no processo de envelhecer ou eu perdi a mão. Não me encanto mais com os contos puros que me faziam lacrimejar antes ou com os personagens bidimensionais pelos quais torcia. Se bem que esses últimos eram (são) mais frequentes nas bobagens adolescentes/adultas que leio ultimamente.
Ainda tenho um livro para terminar, mas as histórias que conto ali são bem adultas, metafóricamente adultas. E, depois de umas revisões, me pergunto: as histórias para crianças seriam – por fim – uma espécie de adultez preguiçosa? uma linguagem tatibitati de algo maior e mais complexo. É assim que tem de ser? mesmo?
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September 25th, 2009 §
Quando disse que não tenho sonhos, equivoquei-me. Tenho alguns sonhos sim, afinal não controlo meu subconsciente e sabemos todos que somos mais instintivos que racionais, mais emocionais que conscientes, mais sinestésicos que literais. Tenho-os, mas os renego como filhos bastardos (e olhe que eu entendo bem o que é ser um bastardo), como esquecidos e abandonados que é o que são na verdade.
O fato é que não me importo com sonhos, mas com o real. O que é palpável e realizável me é muito mais interessante que o imaginável, que o impossível.
Me espanta a falta de espanto das pessoas com o mundano, o real.
Da mesma forma que não preciso de sonhos, não preciso de deuses, espíritos, anjos, rezas. Entendo o seu porquê, confio em sua prática e na sinceridade de quem pratica. Até estudo com atenção uma ou outra coisa. A forma de pensar, a língua, a mitologia de cada expressão de fé me encanta. Me encanta como realização da vontade, do querer.
Não preciso de sonhos da mesma maneira que não preciso de um Deus. Minha vida é a minha guia. Minha cabeça, minha moral, minha ciência.
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September 24th, 2009 §
A chuva fina nao apagava a alegria da menina. Saiu da boate com cheiro de cigarro até na calcinha e aproveitou o chuveiro natural para tirar a nhaca da noite boêmia com o ácido que caia na cidade. Apagou o último gole da bebida sem nome e sem categoria na goela que clamava por um almoço. Há três dias não colocava nada de saudável no estômago nem na cabeça. Estava no automático.
Mas é assim quando se tem vinte e bem poucos anos. Uma adultez que não condiz com a falta de grana na carteira e a bem pouca responsabilidade no dia seguinte. É estágio ou emprego júnior em alguma empresa, uma faculdade levada nas coxas, um trabalho tranquilo de loja. Tudo que a pós adolescência classe mediana pede. Mil e quinhentos dinheiros – menos impostos e descontos vis – na conta corrente todo mês e o mundo abre as pernas para você.
A menina chapinhava feliz na chuva que caia em Botafogo. Tinha todo o tempo do mundo nos sessenta anos que separavam aquele dia do derradeiro. Em sessenta anos faz-se muita coisa, até as coisas certas, por incrível que pareça.
Chapinhava feliz, com a boca inchada de tanto beijar outras bocas na festa que tinha nome brega e era mais velha que a própria moça. Chapinhava como no filme que tinha a idade de sua mãe e cujas canções ela desafinava ao caminhar para casa. Tinha vinte e poucos anos, a menina, vinte e poucos anos e achava que a vida se resumiria numa sucessão de festas, boates fedidas a cigarro e bocas beijadas. Vinte e poucos anos.
Que pena dessa juventude. Que inveja dessa juventude.
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September 23rd, 2009 §
O velhinho tinha a mania de procrastinar as tarefas. Achava que assim trapaceava a morte. Certa feita, resolveu colocar algumas metas para si. Escolheu setembro porque era um bom mês, segundo a cabala.
Decidiu ler dois livros difíceis, mas trapaceeou na tarefa. O primeiro era um livro de capa preta e letras miúdas e texto fácil, apesar da complexidade da matéria. Ali, ele aprendeu a entender a natureza humana, que de fantástica tem muito pouco. Que diferimos bem pouco dos macacos, das lesmas e das ferramentas programáveis. Que não somos “fantasmas na máquina”, “tábulas rasas” ou “bons selvagens”. Que somos o que somos e só podemos ser os melhores seres humanos possíveis. E nada mais.
Isso o fez pensar um pouco, sobre o que fizera de sua vida, do que quisera para si e dos momentos de felicidade que tivera até então, no alto de sua velhice matusalênica. Lembrou-se das palavras de uma ex-amiga que disse “só você pode ser você e ninguém pode percorrer o seu caminho”. Isso o fez lembrar de que até no inferno você pode ouvir uma verdade. Até os demônios podem ser sinceros. Aliás, só os demônios o são até as últimas consequências.
O outro era um livro vermelho que dizia como as pessoas pensam e porque pensam assim. Mas esse ele deixou para trás na estrada. Era uma outra forma de desafiar a morte.
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September 22nd, 2009 §
Faz tempo que não sento numa praça de brinquedos. Talvez porque não haja mais praças de brinquedos do mesmo tempo que existia quando eu era um dos que ali brincava. Sinto uma falta dessa velhice que me foi negada, a de contemplar lentamente as crianças que crescem rápido. Cada ir e vir do balanço, um ano, dez centímetros, uma puberdade, casamento, filhos, banco da praça.
Sinto falta das rolinhas e dos bem-te-vis cantando nas amendoeiras lá no Méier. Das disputas de marimba e de bola de gude. Nunca fui bom, mas gostava de ver a meninada jogando pião, uma piorra, empinando pipa ou andando de carrinhos de rolimã. Infância suburbana tem dessas coisas, de ficar na rua contando casos de fantasma na quaresma, de correr atrás de sacos de cosme e damião. De cantar ponto em centro de umbanda em terreno baldio. De não se preocupar com os assaltos, mas com os homens que somem com quem falava muito de governo e política. Disso não sinto falta.
Eu queria ser um velho bem velho, bem de cabelos brancos e barba rala. Que faz mágicas para os meninos e ensina-os a acender fogo com lupas de aumento. Que conta histórias já desatualizadas e que finge que sabe mais porque é velho.
Eu queria é ter o aval da idade para não ser mais contrariado ou para apenas descansar sob a sombra da amendoeira que mora nas minhas lembranças.
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