October 12, 2005 0

O sexo é o alento

By in textos

Burro chegou com uma novidade: “Comi gente ontem!”

Os dois olharam com a cara de tédio habitual e, antes de fazerem a pergunta default, ele sacou: “E não paguei por isso!”

Com o interesse dos ativado, ele se derramou em longuíssimas narrativas de como conduzira o flerte por meses a fio, como evitara as tradicionais armadilhas de seduções baratas, como envolvera e seduzira a menina até obter “os favores da linda e querida flor.” “Flor? Porra! Você comeu gente ou um brócolis?” Gordo com sua delicadeza habitual cortou o longo, elogioso e enfadonho relato de Burro.

Ofendido, mas não abalado, Burro revelou: “Eu a chamo de Minha Flor!” Explode uma gargalhada entre copos de chope consumidos no Devassa do Leblon. Grande não se conteve. Com dedo em riste, olhos em lágrimas, tenta falar alguma coisa mas só consegue aumentar os soluços de Gordo que quase desmonta a mesa de tanto se contorcer. “Essa é a coisa mais engraçada, ever!” Conseguiu dizer ao domar os risos e as lágrimas. “Cara, você me deu duas semanas terapia agora! Putaquepariu! Que coisa foda! ‘Minha Flor’ é foda, cara!”

Abalado e ofendido, Burro saca do palmtop as fotos que tirara da menina. Linda, linda! Aliás, lindíssima! Morena, olhos negros e fundos, rosto delicado, corpo de vespa. Acintosamente exibe as dos dois se beijando e pára ante o olhar estupefato dos amigos. “Pois é. Mó gata!”

“Qual o preço? É. Quanto você tá pagando para a menina posar de sua namorada.” Pergunta, impromptu, Grande. “Não estamos namorando. Não quero relacionamento sério.” “Ah! Qualé! Mó gatinha e você não vai amarrar com chave de pica?” “Pois é. Você vai ver. Se a minha teoria estiver certa, vou ficar cercado de mulheres maravilhosas em pouco tempo.”

Dali a dois meses, os amigos mal conseguram ver Burro. Ou ele saiu com Sicrana ou com Beltrana ou com ambas ao mesmo tempo. Ou era uma terceira, quarta. Já tinham perdido a conta. Só sabiam do histórico porque Burro informava-os religiosamente das novas . , dados cadastrais, breve histórico da conquista. Gordo já contava para os seus amigos paulistas o orgulho que tinha do amigo nerd e . Grande se calava e matutava.

Finalmente combinaram de se encontrar no Belmonte para chope e pastel de camarão. Gordo chegara antes e saúda o Burro ao entrar. “Como é que tá essa vida de pica-doce?” “Tá ótima! A merda é que não dá para comer todo mundo. Não dá tempo. Ou como ou trabalho, né?” “E tu vai largar o emprego?” Burro ficou tenso. “Nunca!” “Qual foi cara? Você odiava o emprego…” Soltou Grande, já puxando uma cadeira e pedindo um chope e uma Coca-cola. “Conta aí a teoria que transformou um nerd magrelo, antipático e mal-vestido em um comedor de primeira linha.”Fui promovido a Gerente Sênior de Marketing n’A Empresa.” “Porra cara! Parabéns! Parabéns mesmo, mas o que isso tem a ver com aumentar a densidade de mulher boa ao teu redor.” “Cara, mulher sente o cheiro do poder à distância. Sabe que cara com cargo bom dá segurança e estabilidade.” “É. Quem gosta de pica é veado. Mulher gosta é de dinheiro.” Gordo ri, meio que acabrunhado, dessa afirmativa. “Não vou discordar. Mas qual era o lance da primeira menina?” “…” “Fala negão! Conta aí…” “Prometi uma promoção à ela…” “NÃO ACREDITO! TU É UM FILHO DA PUTA!” Grande realmente ficou preocupado “Pois é. Isso vai dar merda, cara. E se a menina te processar por assédio?” “Ela já tem a promoção. Já tava certo. E foi para Curitiba. Eu só me aproveitei disso.” Gordo explode novamente: “NÃO ACREDITO! TU É UM GRANDISSISSIMO FILHO DA PUTA!” “Nâo nego. Vi a ficha dela aprovada e só precisava de um OK meu. Nunca negaria, claro. Mas ela se insinuou cheia de charme me pedindo a aprovação: ‘Ah, chefinho… eu faria qualquer coisa para ter esse ok.’ Paguei para ver né?” “Tu é um merda mesmo!” Grande ficou puto. “Tu foi é assediado, mané! Gravou a conversa dela ao menos?” Burro apontou pro PDA e tocou um de lá. E não é que o viadinho não tava mentindo? Ouviu-se com clareza a voz da menina se insinuando. “O que importa é que fiquei com fama de comedor e bom partido. Sei que isso não vai durar, mas vou aproveitar.” “E Vênus, cara?” Soltou Gordo sem pensar duas vezes. “Como é que fica?” “Não fica. Ela não me quer. Se pedir para mim, caio de quatro aos pés dela, mas não vou ficar esperando o tempo passar. E tá divertido para caralho!”

Grande olhou meio de rabo de olho, pediu um caldo verde entre um “suco de pica de Hulk”, “sopa de radiação gama” e outras piadas de cunho nerdístico e comeu em silêncio, ouvindo as peripécias sexuais do Burro. Pra si, matutou: “vai dar merda” e pediu a conta. Foram todos para cedo.

Daí a mais duas semanas, foi Burro que chamou os amigos para ir ao Stephanio’s.

“Tô na merda, galera!”

Sempre que o Burro propunha o Stephanio’s, tinha alguma merda para contar. Ou uma dor de corno ou uma desilusão, ou um pé na bunda ou um fora hercúleo. Mas de certo era papo de mulher. Era assim que ele funcionava: Stephanio’s: problema de mulher; Adega da Velha: problema em casa, ; Siri da Barra: problema de trabalho.

Os três se encontraram e de pronto reclamaram entre si da música ao vivo. “Porra! Não sei porque insiste em vir aqui. Samba, cara! Que merda!” “Porra Gordo! O bolinho de bacalhau daqui é simplesmente sensacional.” “Gordo, senta. Burro, abre o bico. Garçom: duas Bohemias e uma Coca-cola. Quatro copos. Uma porção de bolinhos de bacalhau. Não deixa as Bohemias secarem. Fala, Burro. Qual o galho?” “Cansei.” “Como assim? Cansou? Cansou de que?” “Cansei de putaria. De saco cheio de olhar para o lado e não acordar junto daquela mulher. Quero alguém para acordar para sempre. Mais ou menos o que o Garcia Marquez dizia: ‘o é o alento de alguém que ainda não encontrou o amor’. Saca?”

Beberam até amanhecer e até cantarolaram um sambinha ou dois.


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