November 1, 2005 0

Sweet little sixteen

By in textos

- pós The

Saíram do abraçados, como se fossem dois namorados. Deram vexame durante a exibição da fita, quando pararam para tomar um café, antes de entrar no carro, dentro do carro, nos sinais, até mesmo quando ela estacionou para deixá-lo em .

“Sobe?” Diz ele ao se prepara para saltar do carro. “Não posso.” Ela responde sem muita convicção. “Porquê?” “Você sabe.” “Você pode sim. Não quer.” “Não posso. Ele pode chegar a qualquer momento.” “Dane-se ele! Aliás, dane-se tudo! Você sabe que ele tá comendo meio mundo agora! E a outra metade comeu pela manhã! E você não o ama mais!” “Para com isso! Aqui no meio da rua! E se um vizinho passa por aqui?” “Melhor! Assim você tem de assumir tudo logo de uma vez e paramos com essa palhaçada. Porra! Faz cinco anos que saímos quase todo fim de . O cara viaja na quinta, sobe pra Petrópolis, Teresópolis, Patópolis, sei lá, e te deixa aqui para eu tomar conta.” “Pára! Você sabe que não é assim! Eu te amo, mas eu o amo também!” “Ama? Como se ama um cara com quem você não transa faz dois anos e meio?” “Porra. Vamos ter essa conversa aqui, no meio da rua?” “Não. Podemos subir e ter essa conversa lá em cima, se quiser. E eu sei que você quer.”

Subiram tensos os lances de escada até o terceiro andar. Era uma apartamento antigo em Botafogo. Daqueles com varanda ampla e salas enormes e cozinhas monumentais. Tinha apenas o inconveniente de não ter elevador mas, melhor, o condomínio ficava mais em conta. Ele tinha alugado-o numa distração do proprietário. Era um esquema de aluguel para conhecidos de conhecidos e ele quase que conhecia alguém que estava deixando o apê. Deu uma de João-sem-braço e se ofereceu como candidato à vaga. Sorte que foram com a cara dele e conseguiu alugar sem que pensassem duas vezes ou pedissem suas referências. Estava lá há três anos e não pretendia se mudar tão cedo dali.

Abriram a porta do apê. Ela se sentia em casa, mas essa era uma sensação que lhe incomodava tremendamente. Estava tudo errado. Ela era casada, tinha três filhos lindos e saudáveis. O marido sempre lhe fora carinhoso e atencioso. Até ela o conhecer de verdade. Antes de descobrir que ele pulava mais a cerca que carneiro rebelde. Daí para ela encontrar um amante foi um passo fácil. No início se sentia suja, mas aprendeu a gostar da sujeira, de se emporcalhar com o corpo do outro, a se sentir desejada, cortejada, a fazer com que gozassem com o seu gozo e a tomar o suor do outro como quem toma um copo de alma alheia. Comia os amantes como quem faz desejum em hotel. Dava na pinta. Deixava dicas. E ele parecia gostar disso. Devia gostar mesmo, o puto. Não lhe amava. Não sabia lhe dar valor. Não mais lhe beijava em público, tampouco lhe roçava as mãos nas ancas ou nas coxas quando se aproximava por trás. A sua nuca já lhe era território virgem novamente. Aliás, virgem nada. Ele que se fiava por mapas velhos enquanto outros aventureiros abriam bandeiras por ali. Ela era a fêmea-alfa agora. E ele apenas o provedor dos filhos.

“São cinco anos que estamos juntos e você nunca mais falou em largar aquele cara. Você já não o ama! E sei que não sou o teu primeiro amante. Você mesma disse isso para mim.”

Ele falava como quem implora e isso era o quem mais a irritava. De início era bonitinho ter um macho que falava fino quando ela mostrava a que veio, quando se mostrava dona da situação e colocava-os no seu lugar, de consolo que beija e anda. Esse nem era especialmente bonito, forte ou viril. Como dizia, era exatamente isso que ela achava interessante de início. E ele era do tipo medroso, um lucky bastard na escala evolutiva. Fugiu do leão ao invés de enfrentá-lo e sobreviveu para dar cria. Gerou toda uma linhagem de covardes, cagões que não honravam as bolas por conta dessa cepa ruim, desprovida de brios e amor-próprio.

Com ela não era diferente. Se dissesse para ele passear de mãos dadas em pleno Centro Comercial de Copacabana ele se derretia como criança no doze de outubro. Se ela mandasse ele não olhar na cara dela enquanto andavam pelo Fashion Mall, ele se portava como empregadinho subjugado. Talvez por isso tenha durado tanto. Cinco anos nessa mesma merda e ele só começou a reclamar agora. Deve ter mulher nova nessa história.

“Eu tô vendo uma outra pessoa. Estou saindo com a Ângela.” “Com quem? Aquela criança? Hahahahahahahaahaha!” “Não fala assim dela. Ela me ama!” “Ama porra nenhuma. É uma mal-comida que tá doida para amarrar o primeiro mané.” “Porra! Ela quer ficar comigo. Será que você não sacou que tô de saco cheio dessa vida de piroca de gaveta? Quero acordar do seu lado uma vez na vida. Ou melhor, quero acordar do lado de qualquer mulher que me queira.” “Mas, bicho, a Ângela? Ela é pagodeira. E vai em micareta. Não tem nada a ver contigo!” “Foda-se! Ela quer dormir comigo, me apresentar aos dela e eu a apresentarei aos meus.” “Que , cara? Os coleguinhas de vinte anos dela? PORRA, você é dezesseis anos mais velho que ela.” “Pois é. Dezenove anos e na flor da idade e me quer.”

Isso era o que mais lhe incomodava. Por mais que dividissem os prazeres e as confissões mútuas, ela nunca queria saber de sua vida offline e ele era barrado ao tentar saber mais da dela. A sua defesa era tão adaptada ao seu modo de agir que ele nem mais tentava forçar uma situação. Não mais se convidava para eventos ou tentava descobrir onde ela iria e com quem. Aceitara que seria chamado quando fosse conveniente e pronto. De início, isso bastava. Ela era linda, poderosa e se portava como uma deusa do . Uma devota de Istar que se erguia gigante nos seus quase metro e meio. Um olhar bastava para trazer da inação o mais desanimado dos seres. Mas Ângela não ficava atrás e ela sabia disso. Sabia que dali pra frente ela não seria mais quem guiaria a relação. Ela teria os seus homens e ele as suas fêmeas. “Mais e melhores que você.” Pensou baixinho no verso do .

“Você não vai aturá-la mais de dois meses.” “Que seja! Mas serão dois meses sensacionais.” “Cara. Você não dirige e ela só pensa em carro, cachorro e samba.” “Eu ensinarei coisas novas a ela. Mostrarei o que a vida tem de bom.” “Vai ensinar o quê? As novas vertentes do Inglês? As composições atonais do Arrigo Barnabé? Filosofia Moderna? A teoria do Inifinitesimal de Hegel?” “Leibnitz. É do Leibnitz. Definição do limite. ‘Deus está no limite.’” “Ha! Duvido até que ela leia qualquer coisa que você dê a ela.” “Na boa? Prefiro viver um amor furtado que isso que temos hoje. Não dá mais.” Ela levantou-se, pegou a bolsa, dirigiu-se à porta. “Babaca.”

Desceu calmamente a escada. Entrou no carro. Mal conseguiu colocar a chave na ignição de tanto que as mãos tremiam.

“PORRA! Não posso chorar por esse babaca.”

Lentamente o céu se solidarizou com a dor da segunda rejeição de sua vida.


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