publicado na Tribuna da Imprensa
Ando pela cidade debulhando sonhos. No flanar entre os prédios, acordo cada um deles como pesadelos em sobressalto e provo a tessitura ofegante das paredes invisíveis ao meu redor. A realidade é estranha aos meus sentidos e, apesar disso, cerca-me, tolhe-me e norteia, apesar do meu não-querer. Não reconheço ali, nessas muralhas erigidas pelo alheio, o amor, carinho, amizade, conforto, alento ou realização dos despertos. Não entendo os seus desejos de sucesso, grana e poder.
Meus sonhos são bem mais simples.
Eu insisto em acreditar em carros voadores e em três horas de trabalho diários que dignificariam o homem do futuro. Queria eu ser esse homem do futuro, ser do mesmo jeito que me foi prometido um dia. Ter uma casa que voasse e férias em Vênus. Robôs que limpariam os quartos e me passariam as roupas e toda essa parafernália infantil. Eu sonhava com essa vida de preguiça e deslumbre com o próprio homem.
Decido, num espasmo de consciência, fazer uma casa só minha. No meio da cidade, entre os espaços do asfalto e do concreto que racha com o calor tropical. A minha cidade que abriga, nutre e castra. A minha cidade que tem o horizonte tapado pelos sonhos empilhados de vidas fragmentadas. A minha cidade que faz suar e chorar.
A minha casa será feita de sal. Do sal que verte das lágrimas dos frustrados, dos desiludidos, dos conscientes, dos desamados. Do sal que é extraído do suor dos competentes, dos esforçados dos jovens que ainda alentem as esperanças da vida e do porvir. Do soro dos que pensam, dos que sonham, dos que ainda gozam a vida que resta entre o ir e vir e o descanso injusto.
De cada quinhão desse sal, forjo tijolos. E cada tijolo tem um nome de amor perdido, de um sonho desfeito ou de projeto malogrado. Cada tijolo é uma alma remoldada e que grita pela vida que poderia ter tido, mas abandonada pela torrente inexorável da vida. Cada tijolo é um grito. E a cidade que guarda a minha cidade de sal berra em uníssono com ela.
Cada tijolo monta a parede da minha casa de sal. Cada parede, um clã que encontra ali a materialização de seu desespero atávico. Cada esquina, cada canto de sala, um lamento do que nunca será, por conta da vontade alheia. Por conta da falta de força de caráter. Por conta da falta de tesão consigo próprio.
Cada demão de tinta nas salas, nos portais, nas janelas e nos vitrais será de sal.
Sal tirado das placentas dos natimortos, sal tirado do vômito dos iludidos, sal extraído dos corpos dos que ficam pelo caminho. E nós passamos – não negue! – sem nos abalar por esses perdedores que só servem para reforçar a nossa pífia e medíocre jornada pessoal.
O que seria da minha casa sem os que caem pelo caminho?
Pois desses, tiro o couro – que vira cortina, coberta, tapete e estofo – e tiro os ossos - que viram alicerce, umbral, rodapé e porta – e tiro os órgãos – que viram móveis, eletrodomésticos e enfeites de luxo que me decoram a parede de sal e bile.
O que seria de minha cidade se cada tijolo de sal não cobrasse o seu quinhão em suor, lágrima ou desamor?
Tags: amor, carros voadores, casa, casa de sal, cidade, desamores, dia, hora, querer, sonhos, sonhos desfeitos, sono, tesão, trabalho, tribuna da imprensa
zanderito, meu fío, que coisa mais linda de doer! sabe, é verdade que não é tão ‘pululante’ (de pular rs) a gente conquistar coisas sabendo o preço que tem. as conqusitas tem um sabor um pouco ácido, pois sabemos o que elas custaram, custam ou virão a custar um dia.
mas por outro lado, construir apesar do sal e com o sal, não nos torna ainda mais brava gente?
amei isso querido.
beijo e ótima quinta pra vc.
É, meu caro, nossa casa é feita de nós mesmos, do sal da terra sempre esperando pelo paraíso e deixando o verdadeiramente urgente para depois…Boas Festas pra ti e um 2008 de projetos, sempre…
beijos
=O)
Feliz Natal, Mr. Z!