texto publicado em LIVinRooom
Alan não sabia direito como tinha chegado ali, mas o fato é que estava gostando. No grupo, umas quatro pessoas com quem nunca havia bebido antes. Os conhecia de vista de outros lugares. Um dos meninos o cumprimentou e uma delas desviou o olhar. Melhor assim. Não queria lembrar de gafes passadas logo naquele lugar. Queria ter espaço para cometer novos e inéditos vexames.
O som era desprezível, beirando o mau gosto. Dizem que a pessoa que tem um gosto eclético, na verdade não tem gosto algum. Entende-se que a tolerância e a aceitação da diversidade fazem parte da maturidade de qualquer pessoa civilizada. Mas não tomar partido nas pequenas coisas, é falta de caráter. Ele, definitivamente, tinha opinião sobre o que gostava ou não. É certo que, muitas vezes, o seu gosto era conflitante e incoerente, até. Mas sabia que misturar partido alto da década de 70 com trip hop era demais.
Quando começou a tocar Alcione, ele saiu para o lounge. Já era um abuso das suas capacidades de conviver civilizadamente com outrem ficar num local onde pessoas ouviam Alcione e achavam cool isso. Gente, gente! Alcione é qualquer coisa, menos cool. Outra coisa que detestava era essa modinha de lounge. Desde que se entendera como criatura noctívaga, os lugares que freqüentara tinham áreas destinadas a quem não queria mais ficar no ferver da pista de dança ou na balbúrdia dos bares. A isso passou a ser dado o nome indefectível de lounge. Largou-se em cima de uma almofada de vinil do lounge e passou a observar as criaturas que se contorciam em espasmos arrítmicos ditados pelo DJ.
Em determinado momento sentiu necessidade de beber. Talvez fosse a secura do ar condicionado que vencia a batalha da manutenção da temperatura em níveis polares contra os doze gatos pingados que agora dançavam eletricamente um partido alto da Jovelina Pérola Negra remixada com um praticumbum que faria a negra anciã aplicar corretivos físicos em todos ali presentes. Talvez fosse apenas para espantar o tédio e arrumar algum outro motivo para reclamar da vida com a amiga que o convidara para assistir à banda que se apresentaria depois da tortura sonora a que estava sendo submetido. Talvez fosse apenas para ver melhor as pernas da menina que estava sentada numa posição quase estratégica para si. Estratégica não. Ginecológica.
Fato é que cruzou, com o perdão da palavra, a pista de dança e chegou vivo e incólume ao bar. Pediu uma água. A moça entregou sem pestanejar. Sinal que estava, definitivamente, fora do seu ambiente. Onde costumava ir, água era sinal de alguém bêbado no salão ou de consumidor “careta”. Ali, provavelmente, sinal de que a bala tava fazendo o efeito esperado. Ela entregou-lhe a água quente. Ele virou-se para a pista novamente e enxergou a amiga acompanhada de sua dama de honra.
Parou. Respirou fundo. Olhou de novo. A amiga. Confere. A amiga da amiga. Confere. A amiga sorriu para ele e fez sinais efusivos de reencontro. Ok. A amiga da amiga apenas olhou. Sorriu. Súbito, a música não incomodava mais, ele passou a querer tomar um uísque misturado com um energético, o ambiente gelado ficou confortável e ensaiou uns passinhos coordenados.
Tudo porque a moça com um sorriso sabia dançar.
Conversou com a amiga, riram um do outro e foi apresentado à amiga da amiga. Ele, que sempre fora um tagarela, emudeceu. Não sabia onde colocar as mãos, sabia que continuar os passinhos seria engrandecer um desastre já ocorrido. Ficou embasbacado enquanto a outra brincava com o seu nome. Nunca gostara dele, mas vindo da boca dela, até que Horácio não soava tão estranho. Ela parecia brincar com as luzes da casa noturna enquanto deslizava entre as notas e as batidas desconexas do DJ. Para quebrar o gelo e tentar sair do estado de estupor, ele ofereceu água às meninas que, por sua vez, aceitaram.
Ainda por cima, era simpática a moça que dança.
Simpática, bonita, dançando pornograficamente bem à sua frente. Um combo perfeito de volúpia, malícia e oportunidade se desvendava ali, defronte de seus olhos. O caso é que ele sentia que estava armando uma arapuca para si mesmo. Algo no ar, misturado à fumaça de silicone, fazia-o estremecer dos pés à cabeça. Não, não! Era o ar-condicionado! Então era alguma outra coisa que lhe dava a sensação de estar metendo a mão na cumbuca errada. Mas isso não importava mais. O seu sentido de “encrenca portadora de vagina” já apitava e, ciente disso, pôs-se a vasculhar os alfarrábios de sua memória para ver o que, de fato, aquela menina significava.
Existem algumas vantagens em se envelhecer. São bem poucas, mas são preciosas. A primeira é que a opção ao envelhecimento não é tão divertida. A segunda é que a tal da experiência por vezes nos ensina a não ser mais tão incautos quanto o éramos quando imberbes.
Obviamente é um mecanismo falho pretender morrer de velhice extrema, pois aqueles que fazem isso passam o restante da vida azeitando-o até chegar a um nível de segurança razoável. Obviamente, quando está nesse nível, ele torna-se inútil.
No caso preciso, por conta de experiências passadas, o rapaz da história percebeu o que estava acontecendo. A tal da experiência não lhe falhara dessa vez.
Não tinha nada a ver com a criatura em si – Alexandra, era o seu nome – ou com uma nova fase de vida, ou algum processo psicológico que transbordava em alguma reação esdrúxula. Ou ainda um questionamento de sua relação com a amiga – Elisa sempre lhe trazia alguma surpresa a tiracolo.
Era apenas uma musa, dançando à sua frente.
Quando descobriu isso, relaxou. Respirou fundo, curtiu um pouco mais da companhia dos outros que estavam à sua volta e enxergou o sentido da noite em si.
Tags: aleatórios, amar, casa, cidade, dança, dia, música, o olhar, puc, querer, sono
Texto genial,coeso, com uma fluidez maravilhosa. Um olhar incrível pra algo que detesto tanto: “balada”….
Sensacional.
Gostei muito dos seus textos! Muito bons!!
Valeu…