April 20, 2007 4

A distância da diferença

By in textos, tribuna

publicado na Tribuna da Imprensa

“Você vem hoje?”

O convite nasceu como se tivesse vontade própria. Era óbvio o meu interesse na menina, mas estávamos naquela fase ridícula de disfarçarmos as intenções. Ainda assim, dado o meu papel predeterminado de alfa da relação, o convite teria de partir de mim. Sempre. Saco.

“Me liga quando você chegar no bar. Acho que consigo ir sim.”

Era a quarta vez que eu a chamava. Quarta depois de três desistências em cima da hora. As desculpas variavam do almoço inesperado com a mãe ao abacaxi que teria que, inevitavelmente, ser descascado à meia-noite, impedindo-a de partir ao meu encontro. Algo me dizia que o cerca-lourenço não estava funcionando a contento.

Parti incauto para o evento e mandei um torpedo para a criatura em questão ao chegar ao boteco. Lá, diversos se encontravam em estado de embriaguez adiantado e logo me dediquei a acompanhá-los no tradicional esporte bretão de encher socialmente a cara com chope de primeiríssima qualidade. Dado o advento do primeiro prato de carboidratos à mesa, o celular vibra com uma mensagem de texto.

“Não vou.”

O resto da mensagem pouco importava e, para ser sincero, já era esperado. Quando se chega às raias dos quarenta anos, sabe-se que o não das meninas pré-balzaquianas é mais freqüente que o seu sim. Levanto a questão na mesa e sou repreendido imediatamente pela ala feminina. Diversas amigas dentre vinte e muitos e trinta e poucos discordam do meu questionamento. Outras apenas calaram-se e me lembraram de aventuras (e desventuras) anteriores que comprometiam a minha isenção de julgamento. Súbito, uma voz da razão.

“Se fosse mentira, o tio Sukita não existiria.”

Fato! Sabemos que as propagandas não são exatamente fontes de inovação cultural e, muito pelo contrário, tendem a reforçar opiniões, gostos e preconceitos já estabelecidos para poder agregar ou contrapor elementos dos produtos a serem vendidos. E se uma propaganda mostra um quarentão cantando uma menina de vinte e poucos como um , há de ter algo de senso comum aí. Ou estarei completamente errado?

Mas me pego perguntando novamente: quinze anos fazem tanta diferença assim? Não no sentido de maturidade e vivência, mas no sentido de distância etária aceitável. Será que um quarentão que sai com uma menina de vinte e cinco anos é realmente ridículo? Será que ele está realmente querendo encontrar uma vitalidade que sente que começa a se esvair de dentro de si ou apenas foram as contingências da vida que os colocaram nessa situação?

Pessoalmente, sempre achei as mulheres com mais de trinta bem mais interessantes que as novinhas. Conteúdo é tudo quando se trata de relacionamento. Há de ter troca sempre entre as partes. E elas tendem a ter um pique mais próximo do que estamos acostumados a levar: , jantar, , cama. Boates e só até as duas por conta do na segunda ou dos que acordam cedo. Eu acho ótimo e certo isso tudo. Ou sou eu que tenho 150 anos morando dentro de mim? E Balzac, o que ele tem a dizer disso tudo?

Independente do das pessoas, a noite termina e quinze anos de distância parecem pesar mais que nunca.


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4 Responses to “A distância da diferença”

  1. B. says:

    Não acho que conteúdo tenha a ver com a idade. Tem muita gente com 50 sem conteúdo e vice versa. Mas a questão da diferença de idade… Acho que um cara mais velho que procura uma mulher novinha e sem conteúdo ou que gosta de “dançar até as 6 da manhã” realmente está atrás da sua juventude, da sua vitalidade como vc questionou. Mas não dá para generalizar.

  2. lulu says:

    o fato é que ouvir um hoje não. um não vou. é sempre ruim. e doído.

    Outro dia um cara de 50 anos despediu-se de mim, de trinta, com um boa sorte.
    Foi ruim.
    As distâncias são sempre distâncias, e idades têm pouco a ver com elas.

  3. Marcos says:

    Quinze anos podem se comparar à diferença entre uma pós-graduação e o ensino fundamental. Faz uma tremenda diferença, acredite. Eu sei de ambos.

  4. menina says:

    são dez anos, não quinze.
    e o segundo convite não partiu de você, macho alfa.
    mané
    :)

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