publicado em LIVinRooom
Sabia o que lhe esperava quando aceitou ir àquela festa.
Sabia que não tinha a menor chance de Elisa não dar a pinta ali. Pior. De não encontrá-la.
Ela era amicíssima dos noivos – tinha namorado o noivo tempos atrás – e conhecia todos que iriam. Afinal de contas, Elisa era um tipo de celebridade naqueles círculos esquisitos que se formam em cidades pequenas como o Rio de Janeiro. Onde dezessete pessoas monopolizam os nós sociais.
Zanzou a semana inteira tentando arrumar uma gripe ou um braço quebrado. Não rolou. Pior. Alan ainda botou pilha para que fossem os dois juntos. Alan torcia para que eles se encontrassem de uma vez por todas num evento social e que as neuras mútuas deixassem de existir. Cláudio concordou mas estava relutante. Sabia que tudo parecia simples, mas tinha o lance de Ana na semana retrasada e outras encucações.
Por fim, consentiu.
O dia até que se apresentou bonito. Céu de brigadeiro e tudo mais. O horizonte da Enseada de Botafogo era pano de fundo perfeito para o evento. Drinques abundavam. Salgadinhos e doces sensacionais. Bolo com bonecos de playmobil enfeitando o topo. Decoração simples, discreta e elegante. Boa escolha na trilha de fundo. Pessoas bonitas para todos os lados. Conversas divertidas e fúteis, na medida do figurino.
Noivo e noiva estavam saídos de sonhos. Entram sob trilha do Beach Boys. Fudeu. A idéia para aquela música tinha sido dele e sabia que era a preferida de Elisa. Olhou pelos cantos procurando o sniper que o abateria naquele momento. Nada. Não seria tão fácil assim. O padre chama a atenção de todos, reza, abençoa, canta música e parte. Estão casados.
No meio da balbúrdia dos cumprimentos, arumou uma quina estratégica perto do banheiro e se encostou, escondido, num ponto cego da festa. A sua paranóia lúdica finalmente serveria para alguma coisa. Alan procurou o amigo inutilmente. Sabia que o cara tava ali, mas achá-lo estava realmente complicado.
Deixou quieto. Na pior das hipóteses, o arrastaria para casa num táxi que seria inevitavelmente batizado com o vômito de ambos.
Abandonando a zona de conforto, Cláudio deslizava entre os diversos grupos de amigos, disfarçando aqui e acolá. Achou um cantinho perto da varanda e se debruçou, paquerando o vento fresco e os carros que estacionavam nos jardins da mansão. O muzak estava agradável: The Beatles, Raveonettes e Young Gods rolavam soltos na vitrola intercalados com os indefectíveis Ray Coniff e Jorge Benjor. O coquetel de frutas descia macio, refrescando sem embriagar.
O álcool e os amigos íntimos seriam evitados hoje de qualquer maneira. Sabia que algum dos confidentes faria pergunta capiciosa, inevitável, ou que as possíveis doses de uísque soltariam a língua que, repetia para si mesmo, deveria ficar presa.
Já tinha filmado Elisa numa outra mesa. Ela também o vira e sorriu dissimulada. Ele não conseguiu disfarçar o nó da garganta. Fugiu para a cozinha, desviando dos garçons. Sentou num barril de chope fechado e namorou o copo de água semi-vazio.
Elisa entrou na cozinha e leva um susto.
“Tá perdido aí?” “…” “O povo tá dançando na pista, você não quer ir?”
Ele a encarou.
Respirou fundo e discursou por vinte minutos do amor que sentia, da doença que lhe tirava o ânimo, da culpa no coração, da frustração dos atos errados, da impossibilidade de se fazer o certo, da tendência em destruir tudo aquilo que era bonito, dos filhos que não teriam, da casa que projetara anos atrás e só conseguia ver montada para si e ela, juntos. E, principalmente, da vontade que tinha de voltar no tempo e refazer tudo. Pediu para que ela apenas escutasse. Ela atendeu aos pedidos e deu o braço a ele.
Saíram à francesa.
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