Já não aguentava mais os limites impostos pela sua própria baia de trabalho. Sentia-se cada vez mais tolhido pela rotina que macerava os seus reflexos e a sua percepção. De início, era até confortável saber que o dia seria iniciado com uma atividade repetitiva, previsível e programada. Seis meses depois e muita junk food consumida, sabia que tinha cometido um erro fatal.
Tentou mudar a rotina uma vez. Coisinha à toa. Decidiu trocar a ordem dos processos e colorir uma ou duas planilhas, coisa que tinha aprendido numa das sessões de adestramento corporativo. Algo como marcar de vermelho o que era importante, amarelo o que tinha de ter atenção e de verde o que não tinha problema. Claro que não deu certo! Fora fortemente censurado pelo feitor que guardava cada criatura em sua própria baia. Dez chibatadas, humilhação e execração em público e, horror dos horrores, caçados os privilégios de administrador do seu próprio computador. Ou seja, sem messenger, jogos ou blogs. Estava definitivamente isolado do mundo ulterior.
Depois tentou mudar a arrumação da baia. Novamente algo que lera em alguma revista de sobrevivência empresarial. Arrumou uma muda de planta, alguns bonecos divertidos com alguma referência a desenhos animados, uma foto de uma menina bonita que nunca conhecera. O castigo, impensável até então, fora aceito como um bálsamo. Ao menos algo que o tirava da rotina de apertar botões ao acender de luzes. Luz vermelha, botão direito, biscoito. Luz azul, botão do meio, sanduíche de carne e queijo. Luz branca, logon no sistema e verificação da lucrabilidade dos produtos sob seu auspício, salário no fim do mês.
Resolvera que, se não era possível mudar o ambiente à sua volta, mudaria a si mesmo. Pouco a pouco. Imperceptivelmente.
Primeiro as garras. Afiaria-as delicadamente com a régua de corte que era dura o suficiente para isso. Antes que estivessem como navalhas, soltaria as asas por debaixo do colete. Nada que chamasse muito a atenção. Poderia até justificar como tentando se ajustar à mesa/cadeira/teclado/correntes. Algo sobre usabilidade e ergonomia, lera uma vez. Com as asas já livres e as garras afiadas, tiraria as bolas de metal dos pés e treinaria a pegada com as patas traseiras. Agarraria-se na cadeira e faria discretos movimentos para recobrar a força perdida. Por fim, as presas.
Estranhamente, ninguém notara a mudança. Já caminhava com desenvoltura na baia, arriscava pequenos vôos e arranhara metodicamente a divisória, na área perto das tomadas. Mesmo causando estragos ao mobiliário dada a dureza natural das suas unhas, fora discreto o suficiente. Até demais.
Tornava-se cada vez mais ousado até arriscara sair do seu canto para tomar um terceiro café no dia. Afora uma olhada torta do feitor, chegara incólume à cafeteira e bebera diversas doses seguidas, sem se preocupar com o tempo que levava. Arriscou pequenos pulinhos enquanto voltava e mostrou timidamente as presas para o chefe. Sentiu que ganhava espaço dentro da sua própria área. O rei da selva correra para a savana!
Ainda assim, todas as suas obrigações eram cumpridas dentro dos prazos definidos, nos modelos definidos, nos lay-outs predeterminados. Não estava satisfeito.
Certo dia, assumiu o couro duro e peludo que escondia debaixo das roupas-padrão e desfilou com as garras a postos, asas armadas em desafio e com os caninos a emoldurar os uivos que dava ao caminhar entre os corredores. Já era uma besta-fera pela e em modo de força completa. Suas caldeiras animais já estavam lotadas de combustível e ele partiu para o confronto direto.
O feitor sequer teve chance de reagir. Sua jugular foi destroçada ao primeiro golpe esquerdo de garras, intestinos revirados pelo recortar das patas traseiras que se fincavam em seu abdômen enquanto ele cravava as presas sedentas pelo néctar que se escondia no sangue corporativo abóbora. O mesmo sangue que lhe fora tirado por meses a fio.
O setor inteiro lhe prestava atenção e reconhecia que tinham um novo e terrível senhor.
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