publicado na Tribuna da Imprensa
“Andar à toa ajuda a compreender o outro de uma forma melhor. Assim, nos expomos às diversas paisagens humanas sem censura prévia. Deixamos que o acaso julgue quem devemos encontrar nas ruas: amigos, conhecidos, criaturas inconvenientes, paixões arrebatadoras. É assim que o profissional de pesquisa de marketing tem de se comportar quando tem de prospectar novos produtos para o seu portifólio. O caminhar a esmo é a chave para as novas descobertas.”
Mal terminou de ouvir isso e já sabia que tinha perdido dinheiro. Pagara dois mil reais para assistir a dez palestras com “profissionais de renome” no Hotel Sheraton e já nos primeiros vinte minutos sentiu que dera a descarga em duzentos mangos.
“Que besta! Caminhar a esmo o escambau! Esse cara tá querendo é me fo…” olhou para o lado e completou para si a frase. Deu mais cinco minutos e fingiu que precisava ir ao banheiro. No caminho deu uma boa olhada nos colegas que suportavam o mesmo martírio. Não sabia se sentia pena dos que tinham noção do dinheiro jogado fora ou se desesperava pelos incautos que achavam realmente interessante e pertinente a palestra. Por via das dúvidas iria tomar registro desses para evitá-los futuramente.
Do lado de fora do salão, um deserto humano. Algumas promotoras cadastravam os desinfelizes retardatários, outras arrumavam a mesa de café, ciscando as migalhas de pão que caiam das bandejas. Para a pausa do “coffee break” como gostava de falar ironicamente. A ironia aí é que poucos entendiam a redundância desnecessária.
De relance, sacou a loira exuberante que conferia a programação da sala ao lado. Olhou, olhou e entrou na sala dois. Ele dirigiu-se à moça da recepção e com o sorriso mais canalha que consegui tirar do bolso, trocou a sua inscrição.
“Então, doutor Alan, estarei trocando a sua inscrição da palestra Novos Caminhos Para o Marketing Moderno para o Workshop de Sistemas Lúdicos Funcionais e o Mercado Digital. O senhor pode estar me confirmando a transferência?”
Alan olhou para a morena de olhos verdes e o seu delicioso sotaque do interior de São Paulo. Conteve o ímpeto de corrigi-la no gerundismo e confirmou. Já tinha perdido duzentos contos com aquela palestra inútil, pelo menos ia tentar algo na outra.
Entenda-se por tentar algo como tentar um intercurso com a loira que adentrara na sala dois.
Mal teve tempo de pegar o crachá quando as portas se abriram não resistindo ao estouro da manada para o café. Ele não se deu conta do tempo que a mocinha perdeu tentando entrar novamente os seus dados no sistema de inscrições.
Pegou um suco de laranja e um croissant. Automaticamente pediu uma vódica ao garçom e emendou um sorriso amarelo ao receber a negativa sibilada entre os dentes. Desviou-se de seis chatos que, como sempre, estavam em revoada e alojou-se próximo do monumento que, além de linda, cheirava a dinheiro farto dado o corpo moldado a sessões sub-reptícias de musculação e aeróbica e coberto por um Armani para lá de caro. Prestou atenção na voz da moça e encantou-se pelo sotaque francês. Soltou uma piada corporativa qualquer e ganhou a atenção dos olhos azuis. Em vinte minutos já arfavam no banheiro do hotel.
“Dois mil reais.” Pensou enquanto reservava o quarto de hotel para o fim de semana. “E na conta da empresa.”
Sorriu como um tubarão.
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