Era uma menina que não devia ter mais de que dezesseis anos. Curvas perfeitas, pele rosa e cabelo ruivo loiro, daquele raro, que só uma ou outra atriz de Hollywood ainda ostenta. Naturalmente loiro-ruivo, pelo jeito, já que o rabo de cavalo deixava à mostra as raízes, o couro cabeludo. Olhos impossivelmente verdes e uma boca criminosamente rosa. Usava uma roupinha casual de quem saiu do curso noturno, pós expediente em loja de varejo. Soutien à mostra, reaçando, emoldurando e vulgarizando na medida exata aquele projeto de afrodite, apontando os seios semi-virginais para a lua. Devia estar cursando administração, comunicação social ou direito, esses cursos que quem não sabe o que irá fazer no futuro cursa. Aliás, devia é ter matado aula. Nem caderno, fichário ou livro na mão. Só um jeito rosa de olhar pro rapaz que fitava o seu rebolado ao descer a estação de metrô.
Era um rapaz nos seus vinte e poucos anos, moreno, comum. Apaixonou-se da menina na mesma hora que a viu. Cercou lourenço de longe, como quem anda de macio na floresta e não quer assustar a corça. Aquela corcinha tão bela, tão tenra e que deveria gemer e berrar e dar na sua cara quando estivesse de calcinhas arriadas e sendo comida como se não houvesse amanhã. Entrou no mesmo vagão e com uma dissimulação digna de criança cagada, sentou-se do lado da presa. Deu uma de Vitor Fasano e bancou o besta, lequeando um livro de bolso de um autor que só ele e mais cinco pessoas na América do Sul conheceriam. Ante a indiferença da moça, sacou os olhos de lascívia e comeu a menina sem abrir a boca.
Ela sorriu. Ele, estupefato, perguntou o nome dela. Ela, disse boa noite, sou Verônica. Ele, disse boa noite, sou Carlos e quero casar com você. Ela riu, gargalhou e disse você é engraçado. Ele dise você é linda e eu quero de fato casar contigo. Duas horas mais tarde ela disse que tinha um namorado e que nunca tinha transado com alguém que conhecera no metrô. Ele disse dificilmente você fará isso de novo.
No dia seguinte, as manchetes do jornais berravam: Canibal Pego com a Boca na Botija.
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