November 24, 2006 1

Alan e Cláudio

By in textos

publicado em LIVinRooom

Dessa vez Alan decidiu que não iria sair. Já estava cansado da farra ininterrupta dos últimos quinze dias e precisava de um pouco de descanso. Mas a necessidade de ver gente ainda não acalmava dentro de si: ele era um monstro social, afinal das contas. Decidiu chamar a turma para assistir a uns filmes em mesmo. Tinha cerveja, refrigerantes, salgadinhos, uma tevê de quarenta e duas polegadas, vários devedês e sofás super aconchegantes na sala.

Ligou para uma galera que refugou frente ao convite. A noite tava quente demais para ficarem trancados vendo filmes antigos ou tomando cerveja com amigo cueca. Tava quase desistindo do programa quando ligou para Claudinho que topou de prima. Ele andava meio borocoxô fazia uma e precisava sair da gosma da pasmaceira casa--casa. Sabia que Alan era um bom anfitrião. Nunca enchia o saco com perguntas desnecessárias tampouco ficava xeretando na vida alheia. Além disso tinha um ótimo gosto para e cinema. Só era amigo de uns três babacas que ele não topava de jeito algum.

Outro que deu uma meia-confirmada foi o Burro. Disse que iria, mas Alan sabia que Grande estava marcando uma despedida do Brasil no bas fond da Prado Júnior. Então, se um dos putos viesse, seria por pouco tempo. Ou ainda, viriam os três e colocariam a casa abaixo. O que era um bom programa no fim das contas. Pena que Cláudio não topava com os três. Fazer o quê? O cara tinha a Elisa na mão desde que ela deixou de ser uma ninfeta promissora e passou a ser uma fêmea furiosa. Uns têm sorte. Outros ficam na rebarba.

Cláudio chegou na marcada. Trouxe doze cervejas já geladas e começamos logo os serviços de consumo de líquidos. Primeiro filme selecionado da lista de DiVx do computador foi LEXXX, uma ficção científica obscura do Canadá. Ambos se amarravam nessas produções trash e ficavam bebendo e zoando os filmes. Faziam isso desde a adolescência. Tava no finalzinho da fita quando Alan atendeu o telefone.

“Olá lindona! Finalmente deu sinal de vida, né?” “…” “Pois é… estamos vendo uns filmes trash aqui e esperando o resto do povo chegar. Se chegar.” “…” “É… tô só eu e Cláudio aqui de bigode esperando…” “Sei. Você tem certeza disso? Talvez os putos cheguem depois da farra na Prado Júnior.” “…” “Não deram certeza de nada. Não mesmo.” “…” “Então tá. Te espero aqui. Traga amigas. E camisinhas.” “…” “Ha ha ha ha! Também te adoro. Beijo.”

Cláudio olhou pro Alan e não precisou perguntar nada.

“É cara. Ela não vem contigo aqui.” “Eu imaginei isso. Achava que ela já tinha passado por cima de tudo.” “Cara, sei que não é da minha conta e você pode…” “Já sei o que você vai perguntar.” “Então.”

Cláudio levantou-se, mexeu no controle do Xbox hackeado que tinha os quatro filmes da série canadense, escolheu um disco cheio de emipetrês e colocou para tocar. Abriu uma cerveja nova. Sentou-se no sofá e fez cara de quem tinha uma longa história para contar.

“Os caras vêm?” “Acho que sim. Grande não tava a fim de ficar na putaria. Embarca amanhã cedo para Sampa e de lá para Buenos Aires. Fica seis meses, se não me engano. Os ourtos é que podem virar a noite lá mesmo.” “Tu tá a fim de encontrar os caras?” “Não mesmo. Gosto de todos, mas preciso de tempo. É muita nerdice concentrada no mesmo lugar.” “Tu sabe porque eu não gosto deles, né?” “Sei que você não gosta do Gordo. Dos outros, tem antipatia por proximidade.” “Isso.” “E isso tem a ver com a Elisa, né?” “Claro.”

Alan foi até a cozinha, pegou uns pedaços de queijo, pão, facas e uma tábua. Trouxe para a sala para comerem algo. A cerveja tava acabando e ele fez sinal que iria trazer mais se acabasse aquela.

“Não vou encher os cornos hoje, cara. Não tô no clima para andar bêbado por Copacabana afora. Vou acabar num puteiro ou brigando desnecessariamente com alguém.” Comeram os pães, o queijo, mataram mais doze cervejas e criticaram filmes de ficção científica canadenses, filmes de fantasia japoneses, a estética de quadrinhos belgas e as coreografias exageradas do Pacto com Lobos. Listaram as próximas aquisições de devedês, cedês e nos próximos meses. Falaram dos trabalhos que estão fazendo em seus respectivos escritórios, comentaram da extinção dos cinemas de rua e da segurança e qualidade das salas em shopping centers.

Deu três e meia da manhã e o telefone de Alan tocou novamente. Era o Burro. Mal se entendia o que ele falava, mas parecia que estavam arrastando umas cinco de profissão para a casa do Alan e precisavam do aval dele para a realização de evento pouco ortodoxo. Alan riu e mandou-o tomar devidamente no cu. Burro riu do outro lado e disse que ia dispensar as meretrizes, mas iria para lá da mesma forma e que Gordo já tinha soçobrado ante os espíritos do álcool e Grande tinha partido para casa horas antes.

Cláudio se levantou no meio da conversa e foi ao banheiro. Na volta, Alan já tinha desligado o telefone.

“Você ainda quer saber da história?” “Na verdade, não. Nunca foi da minha conta. Mas você é meu chapa. Queria ajudar de alguma forma.” “Então faz uma coisa para mim. Fala com aquela mulher que ela é a mãe dos meus filhos. Eu agora tenho certeza disso.”

Se despediram e Alan começou a arrumar a pequena bagunça quando o interfone tocou novamente. Era Elisa.

“Ele já foi, menina. Você chegou tarde.” “O que ele disse?” Ela estava soluçando. Ele tentou convencê-la a subir, mas nada a demovia do intento de continuar no seu posto. “Ele repetiu aquilo que você me disse, menina. Esse cara te ama.”

Elisa despediu-se e fez sinal para um táxi que acabara de despejar cinco mulheres e um nerd na portaria do Alan.


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One Response to “Alan e Cláudio”

  1. Vivien says:

    Universo masculino….vai entender!;0)

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