December 14, 2006 3

Alfarrábios

By in textos

publicado em LIVinRooom

“Te juro, cara. Não tem mais o que fazer. É caso perdido.” “Não fala assim. Dá tempo ao tempo que as coisas se ajeitam.” “Como assim ajeitar? Não tem mais o que ajeitar não.” “Como não? Tu tá aí com a mãe de todas as dores de corno e não tem o que ajeitar.” “Cara, é como ralar o joelho ou quebrar o braço. Dói para caralho, mas é isso aí. Quebrou. Tem que doer mesmo.” “Vamos para a cachaça então. Assim você afoga as dores no fundo do copo e esquece que essazinha te desprezou.” “Eu topo o copo. Mas ela não me desprezou não cara.” “Como não?” “Não mesmo. Ela só aprendeu a se .”

Esse papo tinha já dois anos de velhice e ainda ecoava na cabeça de Cláudio.

Quando ele conseguia um momento de repetição automática de tarefas, seja no trabalho ou nas coisas de casa, normalmente ele devaneava com milhões de reais advindos de uma mega-sena oportuna ou de uma fantasiosa aplicação mágica que ele faria com um dinheiro inventado em algum sonho.

De uns tempos para cá, o sonho de riqueza instantânea vinha mesclado com reconciliação. Especialmente com as mulhres que magoara no passado.

a , por ironia do destino, ele estava reencontrando as mulheres que tinha amado em maior ou menor escala. Uma a uma. Era um chope marcado para lembrar do passado, um email vadio, um showzinho descompromissado. Ele olhava nos olhos – azuis, verdes, castanhos, cinzas – delas e encontrava diversos amarrados, histórias interrompidas, frustradas.

Os rostos novos não lhe traziam o desejo que sentia. Parecia que apenas contavam uma história antiga, com novos atores: a menina que morava na distante mas que queria mudar pro ; a recém-separada que ainda tinha sonhos românticos; a mãe que não sabia mais o que era ser mulher desde que o marido a deixou; a ex-namorada que estava com saudades de conversar noite afora com ele; a atriz que desistiu do carnal dos homens. A todas elas ele dava a atenção que mereciam, até flertava com o o seu jeito sacana e direto, ora divertindo-as, ora despertando algo que deveria ficar quieto.

Mas o fato era que se sentia derrotado pela vida.

A gota d’água foi a ex-peguete que deu as caras recentemente. “Sabe… eu estava com umas idéias bobas.” “Essas são as melhores! Conta aê!” “Eu tava conversando com o meu pai e disse a ele que era mais provável que eu trocasse as fraldas de um filho, num futuro próximo, que catasse as cuecas de um marido.” “Epa! Produção independente? Ehheheh.” “Mais ou menos isso. O relógio já avisou que eu passei da época de ser mãe, né?” “Que isso! Você tá nova. Trinta e um anos?” “Trinta e seis. Você sempre gentil, né?” Ele deu aquele sorriso safado e cínico que destruiu diversos corações e abriu centenas de pernas. “Pois é. Vou partir para uma produção independente. E a idéia boba é que eu acho que você daria um ótimo pai pro meu filho. Charmoso, inteligente, com boa genética, né? Carinhoso, gosta de crianças.” “Você tá brincando, né?” “Tô não.” “Mas eu não tô preparado para cuidar de uma criança.” “Ninguém está. Mas não se preocupe. Eu só queria a tua paternidade. Obviamente geraríamos da maneira convencional, né?” “Bom… treinar muito me agrada. Mas sei lá… Não sei se quereria ficar longe de meu filho, sabe?” “Eu disse que era uma idéia boba. Não esquente. Era só um devaneio meu.”

Ele se desarmou ali. Não se via deitando com aquela mulher e gerando um filho. Não se via não acompanhando a gravidez passo a passo, vibrando com cada momento do seu futuro filho, assistindo ao parto, vendo o moleque dar os primeiros passos, ensinando os primeiros palavrões, a torcer pelo seu time de futebol, a levá-lo para a , a dar banho, a ser um pai inteiro.

Pior, não se via fazendo isso com uma mulher que não fosse Elisa.

“Deixa que eu pago a conta.” “Nada disso. Não estamos namorando, afinal. A conta vai ser dividida. Que coisa! Machismo de carioca é foda!” “Mas não é machismo.”

Dividiram a conta e caminharam pelo calçadão até o Leme. Deixou-a no hotel e continuou a andar até o Garota do Leme para tomar um suco de manga com maracujá. Encontrou uma outra conhecida com a namorada. Resolveu pedir um chope e ignorou os chamados da amiga que, provavelmente, estava achando a cama do hotel muito grande e fria para dormir só. Preferiu jogar conversa fiada com as duas que o atualizavam do organograma sexual do underground carioca.

Vinte tulipas e seis chamads perdidas depois ele resolve tirar a água do joelho. No caminho viu um casal que o fez recordar que um acreditou em amor e paixão. Que um não era esse cínico-que-anda. O fez lembrar da urgência que tinha de chegar em casa e pegar o ônibus que o levava até Elisa.

Voltou à mesa calado e revisitou as últimas semanas.

“Ela só aprendeu a se amar.” Fora a última frase que disse a Alan antes de ele entrar na maratona de álcool e que cauterizou as feridas que a própria estupidez e língua grande causaram.

“Quando você vai aprender a gostar de si, Cláudio?” “Não sei, Vivien. Não sei mesmo.”


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3 Responses to “Alfarrábios”

  1. vivien says:

    nome bonito o dela!.hahahahh

  2. Tatiana says:

    pessoa, o Eye of Jupíter ainda não tá na ¨diretoria¨, né? Vc ainda não conseguiu? Arruma ai (olhos de sindrome da abstinencia)!

    bjs
    ¨Starbuck¨
    hehe
    obs: viciei o Rom tb, já era

  3. Cláudio says:

    MUITO BOM, Zander… Impossível não me reconhecer em um período passado de minha vida, e não estou falando da coincidência do nome. Felizmente, acho que aprendi a gostar de mim…

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