publicado na Tribuna da Imprensa
Ela subia a escada rolante distraída, conversando com Carol. Ele notou o corte moicano, a pintura pesada do rosto, os piercings labial e nasal e a tatuagem no meio do externo que estava exposto pelo corselete de pano enquanto descia. Ela não se constrangeu com o olhar fixo dele e encarou-o entremeios da conversa com a amiga que, mal disfarçadamente conferia os atributos do rapaz. Aliás, nada de rapaz, rapazola ou moço. Era um típico adultescente que já beirava os quarenta dentro da roupagem de roqueiro modernoso.
Antes das escadas sumirem por dentro do mecanismo, ele se adianta, sai da área de vaza e fica à direita, ainda encarando a menina. Nada diz. Ela sai do shopping enlaçada com a amiga e dispara um último olhar divertido para o rapaz. Guardou-o para referência.
Ele encontrou o colega de trabalho pouco depois de perder o foco no balançar das cadeiras da sua goth chick de estimação.
“Que olhar perdido é esse, Jaime? Apaixonou pela loirinha?” “Nem. A outra.” “Você sempre gostou de mulheres estranhas, né?” “Estranha nada. Diferentes. Exóticas. Inéditas.” “Porra nenhuma! Toda mulher é igual, cara, só muda a casca.” “Verdade. Só que umas são mais iguais que as outras. Dessas eu fujo.” “Você tem cada uma, vamos que o chefe já deve estar puto porque resolvemos almoçar na hora certa, para variar. Pode isso? O cara acha que três da tarde é que é horário de almoço.” “É porque ele chega às onze. Cara, lembrei que deixei o cartão do vale-rango no restaurante. Te encontro lá no escritório.”
Deu o perdido no Gláucio para procurar a menina na praça aberta. Ela fumava um cigarro com a direita. A outra falava com a esquerda. Pareciam que estavam equilibrando os sorvetes de rua com as palavras.
“Oi. Sei que é escroto te abordar assim, no meio do papo com sua amiga e que vocês devem estar dando um tempo para voltar pro trabalho, mas não poderia me perdoar se eu não falasse contigo.” “…” “Bom. Para não atrapalhar mais, meu nome é Jaime e meus email e telefone estão aqui nesse cartão. Não sei se você curte, mas tem o show do Sisters no sábado.”
“Tô sabendo.” Loira Carol respondeu, dando um mole básico visto o desinteresse da amiga. “Eu já comprei os ingressos e tudo o mais. Essa aí é que está fazendo doce.” “…” “Vá sim. Vai ser legal ver vocês duas lá.” Obviamente pensou diversas variações sexuais dada a nova situação, mas voltou a focar na primeira. “Desculpe, você não me disse o seu nome.” “…” “É Amanda. Amanda Mathilde.” “…” “Bom, Ana e…” “Carol. CarolÁine, segundo a mãe dela.”
‘Puta merda!’ – pensou. A face quase traindo os pensamentos indecentes.
“Bom. Tenho de ir. Espero as duas no show sábado.” Correu pro esporro no escritório e a semana se arrastou como cágado manco.
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