publicado na Tribuna da Imprensa
Cansada, abriu a porta da cozinha e entrou em casa. Deixou as últimas compras em cima da pia, descalçou os sapatos. Deixou os pés nus no chão e caminhou até a copa. Forrou a mesa com o pano de festa, pegou os talheres, espalhou-os simetricamente por toda a circunferência: garfo, espaço pro prato, faca. Voltou até a cozinha. Abriu o freezer, pegou os doces, levando-os até à mesa. Repetiu o processo com os salgadinhos (deixando-os no forno pré aquecido), os canapés e o bolo. Os refrigerantes manteria na geladeira até a festa começar.
O pai estava paxado na cadeira, sem fôlego de tanto assoprar bolas. “Eu disse para comprar uma bomba de encher bolas.” Ele concordou com a cabeça e as bochechas doendo. Mal dava para ver o tapete do quartinho dos fundos, transformado em escritório e alocado para os enfeites da festa. Um palhaço de bolas, um arco-íris e duas caixas de besteiras a serem presenteadas para os convidados.
Não seriam muitos esse ano. Já passara a fase da festa para a família inteira, inclusive os parentes distantes. A fase da festa de todos os amiguinhos da escola também passara e começa agora auqele interlúdio gostoso onde as festas passam a ser com os amiguinhos “de verdade” e com os parentes que se importam de fato. Não teria mais tanta correria desenfreada de moleques sem dono, tampouco a presença de parentes que só sabem filar doces e salgados.
Os presentes dos pais e dos parentes que já se anunciaram ausentes estavam expostos estrategicamente na sala, esperando o aniversariante chegar. Algumas pessoas mais próximas da família também ajudavam a arrumar o ambiente de festa, colando bolas e cartazes na parede. “Essa merda não vai descolar” — pensava o pai — “Vai ser arrancada com tinta e tudo.” Alguém tentava escolher o disco mais insuportável possível para a “trilha sonora” do evento. “Axé não! Pelo amor de tudo que é mais sagrado!” — berrou a mãe lá do fundo — “Põe o disco da Arca de Noé!”
Aos poucos a festa ia ganhou forma. “Pai, vai pegar o bolo!” E ele se levantou, saiu pela porta da sala, chutando uns balões. Meia hora depois volta com o bolo mega-ultra-super-king size-extra. Coloca o bolo sobre a mesa lateral, e os bofes no sofá, onde se larga com a inércia e o cansaço que só um pai tem depois de labutar a manhã inteira (leia-se jogar paciência no computador) e arrumar uma desculpa para sair ao meio-dia.
Tudo pronto, os refrigerantes já no isopor, o pai já com a cerveja e em seu sofá preferido, a mãe e os amigos desocupados da família já posicionados. Só faltava a hora do aniversariante chegar do colégio e se revelar surpreso com os presentes, os enfeites, os acepipes e as lembranças dos entes queridos.
E deu-se a hora da festa.
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