Faz tempo que não sento numa praça de brinquedos. Talvez porque não haja mais praças de brinquedos do mesmo tempo que existia quando eu era um dos que ali brincava. Sinto uma falta dessa velhice que me foi negada, a de contemplar lentamente as crianças que crescem rápido. Cada ir e vir do balanço, um ano, dez centímetros, uma puberdade, casamento, filhos, banco da praça.
Sinto falta das rolinhas e dos bem-te-vis cantando nas amendoeiras lá no Méier. Das disputas de marimba e de bola de gude. Nunca fui bom, mas gostava de ver a meninada jogando pião, uma piorra, empinando pipa ou andando de carrinhos de rolimã. Infância suburbana tem dessas coisas, de ficar na rua contando casos de fantasma na quaresma, de correr atrás de sacos de cosme e damião. De cantar ponto em centro de umbanda em terreno baldio. De não se preocupar com os assaltos, mas com os homens que somem com quem falava muito de governo e política. Disso não sinto falta.
Eu queria ser um velho bem velho, bem de cabelos brancos e barba rala. Que faz mágicas para os meninos e ensina-os a acender fogo com lupas de aumento. Que conta histórias já desatualizadas e que finge que sabe mais porque é velho.
Eu queria é ter o aval da idade para não ser mais contrariado ou para apenas descansar sob a sombra da amendoeira que mora nas minhas lembranças.
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Que bonito esse texto. Um pouco triste, mas tudo que eu acho bonito tem um certa tristeza oculta.