October 28, 2007 0

As estrelas

By in textos, tribuna

publicado na Tribuna da Imprensa

Costumo ir ao Rio uma vez ao , ao menos. Uso a “desculpa” que tenho de visitar a minha filha, mas a verdade é que não tenho obrigações nenhumas. Vou porque ali é que mora a minha história, a minha memória e passar tempo com a baixinha – que já se torna uma adolescente – é um prazer, nunca uma obrigação.

Passeávamos à praia, com o se pondo e ela, mirando a estrela d’Alva, me perguntou sobre as .

Tentando ser poético – como isso ajudasse em alguma coisa a minha imagem com ela – disse que as estrelas cadentes são o choro do . Pessoalmente, nunca entendi essa coisa de desejo a ser realizado quando se vê uma delas riscando o negrume da noite, acho mais válido fazer à primeira estrela – “first star I see, I make a wish tonight” – a uma que cai.

Em resposta, ela as comparou a vaga-lumes, só que sem o brilho constante e repetitivo – acho que essa menina vai ser mais uma bióloga – mas não engoliu direito a história de choro e céu. Não sei por que insisto em poetizar com essa criaturazinha cínica e materialista.

“São apenas estrelas que caem” – menti para ela por preguiça de explicar as efemérides dos asteróides e detrito estrelares que se incandescem ao entrar na atmosfera – “são estrelas que ficam tristes do lugar que estão e resolvem se mudar de lugar, como o pai.” Insisti no erro.

“Mas as estrelas têm , pai. E gente que olha por elas. Como podem ficar tristes ali?”

Daí eu desatei a explicar os motivos e razões das pessoas ficarem tristes, a angústia original que move o ser humano, o inconformismo com o presente, a falta de perspectiva, o desejo de mudança, mas a menina – cínica, cínica e objetiva – tinha um bom ponto de argumentação.

Ela virou os olhos com aquela expressão de você-não-entende-nada-papai a qual costuma usar quando eu cometo essas besteiras de tentar ser mais inteligente que ela. Um eu aprendo.

“Papai. O que uma estrela cair é a queda. O resto é o só o choro.”

Deixei a baixinha em casa e me encaminhei para a rodoviária, onde o ônibus da meia-noite me esperava. Embarquei e ao acordar, já em , me veio a imagem de uma estrela cadente no alvorecer. Fiz um desejo inconscientemente e parti para a minha diária.

No decorrer da semana, a história da estrela não saiu da minha cabeça, mas, como sempre, a vida não dá muito tempo pra gente pensar nela mesma. Ela oferece tanta opção, tanta cobrança, tanta vida que somos impelidos a achar que essa cacofonia de eventos que se sucedem em movimentos frenéticos é a vida em si.

Papeava numa mesa de bar com uma amiga, e falávamos de suas angústias. Das diversas histórias que ela havia , dos relacionamentos desfeitos, das pessoas que nunca se encaixam devidamente no que sonhamos ou no que nos tornamos. Dos empregos e trabalhos que, embora venham em profusão para ela, nunca a satisfazem.

Soltei a pérola. “Lindona, o que interessa é só a queda, o movimento. O resto é o choro.” Não sabia bem o porquê da frase de efeito, mas o fato é que surtiu. Ela deu uma risada sonora e eu anotei mentalmente que tinha de dar um presente à baixinha. Não apenas por conta do dia das crianças, mas por ela ser o pequeno gênio emocional que é.


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