Já tinha quase dois meses que os três amigos não se encontravam. Gordo estava atolado de trabalho e problemas até o pescoço. Mudança para o apart-hotel. Procurando um novo para alugar. Dividido entre a mudança para o Rio e largar definitivamente os projetos que conduziu ou continuar em Sampa e ficar longe da família e dos amigos. Principalmente dos amigos. Desde que fora para lá, não conseguira qualquer companhia fixa para as atividades boêmias às quais estava acostumado “em casa”. Digamos que a combinação casamento com mulher espetacularmente sexy, uma certa tendência a ser ríspido em demasia com os colegas de trabalho e uma forte propensão ao isolamento social não permitiam que ele criasse os vínculos normais para encher a cara regular e socialmente.
Findo o casamento e terminado o contrato de cinco anos de consultoria em Sampa, que poderia ser renovado num estalar de dedos, ele se deparou com o dilema da volta para casa ou ficar rico. Optou pela primeira já que tinha amealhado uma boa quantidade de numerário para viver, com alguma moderação, sem trabalhar o resto da vida. E poderia fazer um bico aqui e ali para completar alguma extravagância eventual. Afinal de contas, sempre se precisa de um advogado especializado em direito tributário. Principalmente um com sobrenome de ex-presidente e com trânsito no Banco Central.
Grande estava atolado com os projetos. Rio Cidade. Pan-Americano. Dois hotéis na Barra da Tijuca. Nenhum deles entrou. Tava tudo certo, orçamento direitinho, equipe afiada, pedigree de projetos anteriores, putas pagas para as pessoas certas. Nada poderia dar errado. Mas deu. Resumo da ópera? Tava já queimando as reservas e ainda era junho. Pior, sem perspectivas de entrar trabalho grande até outubro. Resolveu sentar na merda e ver o que faria. Não estava a fim de dispensar a galera, mas também não escondeu o jogo. Passava as tardes promovendo campeonatos de Counter Strike no escritório para tentar levantar a moral da turma e cometeu um ou outro excesso orçamentário ao bancar um curso de CAD para um funcionário. Afinal de contas a equipe era enxuta e boa. E sempre estavam ali nas roubadas.
De cabeça quente, resolveu vender o apê de quatro quartos na Atlântica, com vista para a Aires Saldanha. O famoso Sessenta e Nove do Grande. “Sessenta e Nove, Grande? Não entendi!” “Tu é Burro mesmo! É um meia-nove clássico, cara! A posição é excelente, mas a vista é um cú!”
Num papo com Gordo, este se interessou em alugar, não compar, o apê. O que seria bom para os dois. Gordo sempre gostara da proximidade do apê com a Help por motivos de conveniência sexual e Grande ia ficar tranqüilo que o morador iria manter a tradição de orgias pela madrugada que o Sessenta e Nove tinha.
Então foi assim. Gordo chegou no Galeão, pegou um tê-xis e largou as malas na sala do apê. Exatamente isso. Já tinha a cópia das chaves fazia uns dez anos. Aliás todos os três tinham as chaves do apartamento. E da portaria. E nas épocas áureas tinham até dos carros uns dos outros. Nunca se sabia quem poderia precisar de uma ajuda emergencial. Fosse pelo álcool consumido, das drogas experimentadas, das namoradas- casos- encrencas- pretês- que- resolviam- surtar- quando- pegavam- o- outro- pelado- com- umas- e- outras e etecetera.
Esperou Grande chegar com um uísque que tinha trazido num “adiantamento” da mudança. Se bem que, de mudança mesmo, tinha pouca coisa para trazer de Sampa. As roupas, os livros, os CDs viriam no caminhão. Os móveis, vendera por lá mesmo. Tapetes, cortinas, copos, talheres. Não precisaria de nada disso. Sabia que o apê estava mobiliado por três gerações de herdeiros de Copacabanenses típicos. Ricos, amorais e extremamente poseurs. Só grande fugia à expectativa da família. Rico? Sim, de fato, mas não aumentara a fortuna, ao contrário, gastara boa parte na empresa que estava em dificuldades. Imoral? Pós-moderno seria mais adequado. Poseur? É. Não tinha como negar o sangue da família de pleibóis.
Grande chegou acompanhado de Burro que entrou já vomitando bullshits. “…e o sistema novo é mais inteligente, evita aquele absurdo: quanto mais dados você joga, maior a sua chance de tirar um botch o que ferra o conceito dos dots. Pô, se o cara tem vinte dots num skill ele tem 3.456 vezes mais chances de tirar vários uns que o cara que rola apenas dois dados.” “Você inventou esse número, né?” “É claro!” “Mas entendi. E a história, o background? Fala Gordo! Nem me ligou, seu puto!” “Os dois viadinhos sempre juntos! Cueca gosta é de cueca, né?” “Não é bem assim, Ilmo.Sr.Dr.O.Gordo! Qual a boa? Puteiro? Termas? Cachaça?” “Vocês vão me chamar de veado, mas eu quero é encher os cornos hoje!” “Falou o ex-dono da casa. E você manda hoje!” “Simba para um boteco que abriu aqui perto, em Copa mesmo. E deve ter umas ‘meninas’ por lá.” “Caraca, Burro, não me admira que você viva fodido de grana. Gasta tudo numas putas de quinta.” “Gordo, o Burro assusta qualquer mulher que não saiba o cargo dele n’A Empresa.” “Executivozinho de merda, você, Burro. Aposto que não tá comendo nem estagiária.” “Vamos para a cachaça que o papo aqui tá brabo.”
Desceram os três para a rua e ganharam a noite.
Cinco e pouco da manhã, sol nascendo, foram até o quiosque em frente ao Meridien, no Leme, para tomar água de coco e tentar entender o que estava acontecendo. O mundo não parava de rodar, o Burro tava calado fazia duas horas. Gordo estava animado e falante. Grande estava otimista para com o futuro. Algo não fazia sentido.
Pararam para ver o Sol nascer. Cena patética. Três homens no fim dos trinta, sentados num banco de cimento do calçadão do Leme. Dois bebendo água de coco – Burro estava vomitando as tripas e tentando se hidratar com água mesmo – e todos com olhar idiota para o espetáculo que se anunciava.
Um tipo atravessou a faixa de areia e foi na direção do mar. Não deu para ver direito o rosto do distinto, mas parecia atrasado pelo jeito que corria. Tava de jeans, tênis e camiseta e não parou para tirar nada ao entrar na água. Com o Sol no horizonte, pouco viram e, nesse pouco, perderam o cara de vista.
Atrás deles, um casal discutia alguma coisa que tinha começado na noite anterior e envolvia, um café, uma promessa de se encontrarem e uma besteira que ele dissera sobre mudar as pessoas com quem se convive.
“Mas relacionar-se é mudança. É entender o outro e ceder onde se é necessário. Da mesma forma que o outro cede para que possam conviver, dividir o espaço das escovas de dentes, trocar o papel higiênico ou o lado da cama que vão dormir.” “Mas não é mudança. É aceitação do outro como ele é.” “Mas mudança não é negação. Quando um dos dois não aceita abrir mão de nada do relacionamento, tipo a pelada de quarta à noite ou o carteado com a rapaziada nos domingos à tarde, ele não está disposto a se relacionar.” “Mas existem limites para esse ceder, a esse mudar. Eu não cedo. Não mudo.” “Te provo que você está enganada.” “Não prova.” “Quando você decidiu me encontrar, disse-me que não iria me ter. Ou melhor, que não dormiríamos juntos.” “Verdade, mas não dormimos.” “E me disse que não amanheceria comigo. Tinha muito a fazer no dia seguinte.” “…” “Diga oi para o Sol, meu amor.”
A morena, que parecia ter uns vinte e três anos, olhou encabulada para ele – uns quarenta por baixo – e deu-lhe um beijo.
Grande olhou para os dois putos ao seu lado e viu que os laços entre eles eram mais fortes que qualquer ferormônio. Eram forjados no álcool, na sarjeta, na humilhação mútua, no sarcasmo e tudo mais que enobrece o ser humano. Tudo aquilo que dá sentido para o acordar no dia seguinte. E que um daria o braço direito pelo outro, se fosse necessário.
Grande levantou-se de sopetão e berrou, bêbado ainda.
“O braço sim! Mas o cú não, seus pederastas!”
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gosto mutcho de los tres amigos. historinhas top top na minha lista (que lista? hahahahaha).