publicado em LIVinRooom
publicado na Tribuna da Imprensa.
Chicão era um negro arretado: alto, forte, esguio. Sedutor como poucos, sabia achar o caminho para a alma e as pernas das moçoilas desavisadadas de Ipanema, Leblon e adjacências. Arrebatava corações e demais partes da fisiologia feminina de Tijuca, Estácio, Lins, Rio Comprido e cercanias da Praça da Bandeira. Flertava com as meninas boêmias de Botafogo e Flamengo e encantava as radicais da Lapa e Centro da Cidade. Era desejado pelas putas da Avenida Atlântica e tinha um lugar cativo no coração daquela beldade do Leme.
Apesar de transitar por tal repertório ele era, acima de tudo, um romântico.
“Porra Chicão, tu tá na fossa de novo?” “Deixa o cara, Gordo! Tu não pode ver o negão triste que vai logo tirar uma com a cara dele!” “Aí, Grande! Tu não se mete no meu assunto com Big Chico que fico na moita com aquele probleminha que tu sabe…”
Gordo era um dos amigos mais antigos de Chicão. Uma característica engraçada de Gordo é que ele não dizia, quando chegava o momento, que “tinha amigo(s) negro(s)”. Sabe naquela hora que alguém vai fazer um comentário neo-eugênico ou pró-discriminação e fala: “mas isso não quer dizer que sou racista, eu até tenho amigos negros…” Pois é. Gordo não tinha amigos negros ou viados ou chineses. Tinha amigos. O fato de Chico ser negro ou do Burro ser judeu eram meros complementos. Como o pau pequeno do Grande.
Se conheciam de peladas na praia desde os doze anos. Gordo até fazia um esforço para jogar alguma coisa na adolescência, mas descobriu que ser amigo de Chicão garantiria o efeito desejado sem ter o suadouro de correr sob a Lua de quarenta graus. Saca os abutres que ficam acompanhando os grandes caçadores? Era essa a tática que Gordo usava. Como Chico não podia comer todas ao mesmo tempo, ele ficava com as “sobras” do negócio.
Perderam o contato quando foram para a universidade. Gordo foi para a Cândido enquanto Chico foi para Havard com bolsa pelo desempenho na escola Americana. Depois foi fazer o mestrado em Marketing na UCLA com grana que economizara do seu parco salário de cinco dígitos numa das big five de consultoria. Voltou rico de investimentos feitos na bolha das pontocom e vivia de rendas em Euros no país do Real.
“Falaí Chicão. Que foi dessa vez?” “Pô Gordo, tô na merda.” “E como pode isso?” “Porra cara! Eu não aprendo. Tá ali a menina. Na minha frente. Linda, linda, linda.” “Já sei, cara… conheço bem essa história.” “Que história, galera? Sévys, desce um chope para mim. Escuro. Qual é o assunto da vez?” “Sentaí, Burro, e cale a boca. Chicão tá apaixonado e broxou na hora H.” “Não porra! Quando o negão aqui broxa, tem tsunami no outro lado do mundo!” “Péssimo exemplo, Chico.” “Verdade, Grande. Mas não tem a ver com broxada. Nem com pé na bunda.” “Não?”
Os três olharam embasbacados pro cara.
“Cara, tava tudo perfeitinho: amorzinho, carinhozinho, declarações, paixonite, vontade de ficar junto o tempo todo e tal, tesão de um lado e de outro. Tudo muito certinho, sabe? Mas aí foi, comemo-nos uma, duas, três, quatro…” “Porra, caralho! Não precisa humilhar!” “… cale a boca, Gordo! Cinco vezes. Daí banho, a menina se levanta, pega o telefone e pede a conta.”
Ninguém entendia onde o negão queria chegar
“Eu disse: ‘Poxa bem, fica um pouco comigo, dorme aqui, vamos acordar juntinhos’, E ela disse: ‘Lindão, tô só provando uma teoria.’ Caiu o meu queixo enquanto ela pediu um táxi, pagou a conta do motel e ainda me mandou a rima: ‘Paguei o restante do pernoite, Fica bem, viu?’”
“Putaquepariu! Que nego de sorte!!!” “Porra Burro, tu não tá vendo qual é o problema? A mulher usou o Chico para ser o modelo número dois de homem.” “Cara… tu tava com a Elisa?”
Chicão ficou lívido.
“Era a Elisa sim, Grande.” “Filha da puta! Tu é o tipo de homem número dois.” “Como assim, cara.” “Ela diz que a mulher tem de ter quatro tipos de homem na vida. O segundo é o Negão. O cara com o pau de seis metros e duzentos quilos que lhe dá uma sova de pica e mostra para que o Kama Sutra foi escrito. Saca o ‘Deus de Ébano’ da Fórum? Lembra? Pois é. Ela pegou um que, além de boa-pinta, é resolvido e decidiu te fazer de escravo sexual por uma noite.”
Grande chamou o garçom.
“Desce a garrafa de Nêga Fulô pra mesa que vamos ter muito pra xingar essa vagabunda!” “Puta!” “Canalha!” “Safada!” “Pô… eu não comi a Elisa…” “Porra Burro!”
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