publicado na Tribuna da Imprensa
Este não caminha mais. Já era. De resto não há mais o que se possa falar do defunto. É apenas mais um amontoado de carnes pútridas a esperar a reciclagem definitiva. Desencarnou de fato. Ossos e estorvos para os que ficam. Alguns até choraram o seu nome, lembranças, dívidas. Não criou os filhos, os netos. Não plantou árvores nem escreveu livros. Não amou mulheres nem homens. Não viu o seu time campeão, tampouco sua nação virou a promessa da sua infância.
Sobre a infância há menos fatos que as impressões. Correu no mato, subiu em árvores, soltou balões (sem saber o quão nocivos à sociedade esses o são), brigou na rua até sangrar o nariz, jogou bola, soltou pipas (ou papagaios), comeu fruta no pé, sujou lençóis das vizinhas, amou primas e vizinhas nos córregos em que pescava e caçava rãs.
Sua infância? Não é mais a de ninguém. Envelheceu antes de registrá-la.
Deu-se por si, adulto, apto para criar família, emprego burocrático. Não quis. Achou que era gente, que poderia se reinventar, ser diferente, deixar o mundo das ruas não calçadas para a metrópole, para a capital. Veio ter desventuras no Rio de Janeiro. Morava em Copacabana (como todos os outros), na Almirante Gonçalves, perto do Bip Bip. Cortava cabelo no Gino’s. Brigava mensalmente com o Russo. “Porra Russo. Máquina dois no lado e atrás. Deixa o cabelo crescer no topo.” “Vai ficar feio. Confia em mim” “Faz o que digo, Russo.” “Tá bom.” E o Russo não fazia. Contava as mesmas histórias sempre, perguntava se ele era médico, deixava uma revista de mulher pelada no colo e cortava do mesmo jeito que fazia há vinte anos.
Russo não foi no enterro.
Morava só e para preservar essa solidão não amava ninguém. Para os prazeres bastava o jornal, um telefonema e alguns reais na mesa para a menina. Ou os rapazes. Ninguém sabia em qual time ele jogava. Não fazia diferença: ele chegava no trabalho – escrivão, tabelião, caixa, sub-gerente, gerente, aposentado – antes das oito e saía depois das nove. Regulado como um relógio, tinha hora de acordar, comer, mijar, cagar, trepar, entediar-se, arremeter-se aos sonhos. Que não os tinha.
Ele não sonhava.
Caminhava pelo calçadão num feriado mal colocado no meio da semana. Almoçou no Alcazar e pairava ocioso entre os bancos da praça da Almirante, vendo os aposentados jogando Buraco e Tranca. Teve a primeira pontada ali mesmo. Tentou pedir ajuda, estender a mão para o próximo, mas não tinha o hábito. Tombou ali mesmo.
Dali pro Copa D’Or. Do hospital para o Caju.
Velório com meia dúzia de gatos pingados. Meio aliviados em fugir do trabalho, meio constrangidos em estarem ali, velando por um perfeito desconhecido. Um deles sugeriu ir a um boteco comprar uma cachaça em homenagem ao defunto. Os seis foram. Voltaram três horas depois, embriagados, molestando os vivos – as vivas, a bem da verdade – e os mortos do cemitério.
Chegaram a tempo de verem a última pá de cimento lacrar a lápide vertical de quinta categoria. O coveiro perguntou quem era o presunto. Dois sabiam o nome inteiro dele. Quatro o apelido: “Bigode”. Bigode era Yoshua Nasherem.
A lápide estava em branco.
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Muito triste…
Sad, but true.
E quem não tem medo de acabar assim?
nossa… adorei! (apesar d triste) adorei!