publicado na Tribuna da Imprensa
Uma anedota costumeira entre escritores e jornalistas é sobre o writer’s block.
Dizem que, quando um cronista está com bloqueio, ele costuma buscar esse mesmo tema para cumprir a sua quota semanal. É um velho clichê falar da incapacidade de escrever. E já cansamos de ver Veríssimos e Jabores dissertando sobre “o bloqueio de escritor” da “falta de inspiração” do “processo criativo interrompido” ou, como eu prefiro: o coitus interruptus para cumprir o seu espaço no jornal daquela semana.
Gosto da imagem do coito interrompido porque encaro a atividade de escrever como uma trepada com uma amiga querida. Ou com um encontro com a mulher da minha vida. É um flerte que começa numa manhã ou no meio de um texto de outrem. Daí levo esse flerte para casa, durmo com ele e deixo-o amadurecer em algum nível de consciência. Dias depois vem a cantada derradeira e, para coroar a ação: o coito, digo, o texto. Obviamente, nem preciso dizer que estou passando por um processo desses aí. Não o coito. Infelizmente.
Há semanas, quem acompanha minha coluna ou meu blogue está careca de saber que nada que preste tem saído dessa cabeça distópica. É sempre um “mais do mesmo” que você, caríssimo e raro leitor, encontra aqui.
Pois bem.
Isto posto, resolvi escrever algo diferente. Ou seja, resolvi escrever o que todos escrevem quando estão com essa válvula criativa enferrujada. Escrevo sobre o ofício de escrever
“O ofício de escrever é um sacerdócio”, diria algum escritor pernóstico que se acha tanto e muito só porque tem a habilidade – e a obrigação – de dominar minimamente a língua que fala e consome diariamente. Ao meu ver, o ofício de escrever é tão e somente o ofício da escrita. Assim como alguns têm habilidades e obrigações a se resolver com planilhas eletrônicas, ou com linhas de programas para a internet, a rede mundial dos computadores, outros têm com as letras e palavras da língua portuguesa.
Por um outro lado, há um quê de abnegação na escrita. É um derramar dos saberes e dos fazeres em forma de coerência e estilo que tentam levar a quem lê uma mensagem que já nasce perdida. Não há como se precaver se aquilo que é dito é de fato entendido por quem está do outro lado. Pior, não há como saber se aquilo que se pretendia dizer sequer foi feito com competência. Até que seja tarde demais.
Por exemplo, eu quis escrever sobre bloqueios e sobre a incapacidade de derramarmos sobre o papel – com tinta cada vez mais metafórica – as idéias e os assuntos que pensamos durante o dia. Na verdade quis dizer que a incapacidade de escrever estava diretamente ligada à incapacidade de reter o que nos vêm pela cabeça, porque criamos as mensagens e os textos a todo momento, nós que nos predispomos a dominar esse ofício de alinhar símbolos inteligíveis a quem possa os decifrar.
Por fim, só sei que quarenta linhas foram preenchidas e nelas pincelei sobre sexo, coito interrompido, capacidade criativa e função da mensagem. Sem nada dizer.
Definitivamente, um bloqueio.
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Vou guardar esse cartucho do bloqueio para usar no meu blogue um dia =).