September 17, 2003 0

Capítulo 2

By in textos

Ainda tento me recuperar das dores do , que agora me parece distante, inatingível. Mesmo tendo se há seis horas, no calar dos lençóis. Você sabe como é. Nós, pequenos seres que tentam ser humanos, nos acostumamos a tudo, ao que passa a nascer no oeste, à luz da lua que fica maior e mais freqüente que o , invertendo o alto e o baixo e o dentro e o fora. Dormir na sarjeta é freqüente para quem não tem destino ou guarida para a alma e o corpo. Mas esse preâmbulo, esse desperdício de tinta e papel é apenas egotrip do narrador, que se compadece da história dos miseráveis, que se apieda de seus destinos, que inveja a sua altivez e que, no fundo, pouco se importa com o destino de quem não é umbigo.

Horácio era um partido. Não que tivesse perdido o rumo de sua vida, ou que tivesse um emprego infernal ou mesmo que tivesse uma família desgraçada. Trabalhou muito, é certo. Desde pequeno no banco, como contínuo, vendia enciclopédias de noite e cursou a por apostilas. Formou-se, abriu sua empresa, vendeu sua parte, abriu outra empresa, vendeu a empresa, entrou numa outra maior, saiu desta, abriu mais uma empresa, dá palestras e consultoria no Brasil inteiro, nesse ínterim deu aulas, casou-se, teve uma filha, descobriu-se diabético, comprou apartamentos, viajou para o exterior algumas vezes, separou-se, casou-se novamente. Este poderia ser o resumo de uma vida completa, mas é apenas o que a vida faz por conta dos homens, parte-se sua essência em diversos pedaços de horas que são, por sua vez divididos nos diversos pedaços de história que, juntos não dão a menor noção de sua tribo, de sua linhagem.

Para começar ele não seria Horácio, ou Luiz, ou Francisco. Ele não teria um nome até se provar digno de um. Seria qualquer coisa, como Moleque, Tiziu, Nenen, Filhote ou outro nome vexaminoso assim. Assim que chegasse à idade, receberia os ritos de seu pai (que não teria morrido quando tinha apenas 15 anos), trabalharia seis verões e cinco invernos na oficina da família aprendendo seu ofício tradicional, como sobreviver no deserto, de saber quando o búfalo da pradaria vem em manada para ser caçado, qual erva deveria colher para curar o corte na perna, como cerzir o tecido da vela e como fazer a própria rede de pesca e, antes de ser declarado homem, com o nome que homenagearia um antepassado, um animal, ou uma dor de barriga do mais velho de sua tribo, aos vinte anos de idade, aprender a construir a própria com madeira e junco dos rios.

Tendo em si o conhecimento de todo o seu povo, sendo um homem apto a sobreviver em sua terra sem precisar de outros, ele saberia qual o seu papel no mundo, seria um homem inteiro com a consciência do que lhe reservaria a vida até os derradeiros trinta e poucos anos, quando morreria doente, faminto e sem dentes.

Portanto, na condição de partido, ele consome toneladas de revistas, acumula centenas de , dezenas de CDs e DVDs para degustar em sua sala com ar condicionado e espera ativamente a morte nos seus oitenta ou noventa anos bem vividos com todos os seus dentes na boca.

Ana Lúcia partiu-se nos seus vinte anos. Antes disso estudava nas melhores escolas de seu bairro, morou um tempo em minas gerais, com uns tios, por conta de uma história mal contada. Arrumou um emprego, depois outro. Arrumou um namorado, depois outro. Este lhe deu um filho, mas não um nome, e não arrumou mais , ateve-se aos namorados e empregos. Fez uma faculdade, não exerceu a profissão, amou, desamou, encantou-se, desapontou-se, deleitou-se com a vida, embriagou-se com ela, foi atropelada, ficou à beira da morte por duas vezes, aborreceu-se com o filho, orgulhou-se dele. Viveu da melhor forma possível e espera juvenil a idade e o fato que nivela a todos.

Se não fosse partida, teria uma vida plana, nasceria, cresceria, teria as obrigações da fêmea que seria pouco educada, adestrada para a mudez do fundo da sala e para a cozinha. Se fosse de personalidade, comandaria empregadas e talvez conseguisse um marido rico e bom, teria 2,4 filhos, cachorro ou gato, casa de três quartos, seria formada em pedagogia ou em e se resumiria à casa e aos filhos. Teria uma vida tranqüila e esperaria, resumida, a morte do seu marido e a pensão que o marido lhe deixaria. Seria boa mãe. Boa esposa. Boa dona de casa. Boa patroa. Boa mulher. Boa morte. Seria chorada e lembrada pela família (5 filhos, seis netos e doze bisnetos). Os de infância e juventude fariam elogios de suas próprias tumbas, a sua conduta e sua lisura seriam lendários entre todos os habitantes do cemitério Santa Maria de Muriaé.

Após sua partida, o marido sem saber o que fazer, choraria durante doze dias e noites e morreria de desidratação no décimo terceiro . Estava agora partido. (incompleto)


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