“Eu lhe avisei, quantas vezes eu lhe avisei que a vida de verdade era difícil, mas você Carolina, teimava em ser escrita num conto de fadas. Tinha sempre que ter esses cílios longos piscando como se sorrissem, tinha sempre que ser uma borboleta fagueira num roseiral. Com você não havia problema nunca, você tem nome de coisa que se come com sorvete e chocolate, você sempre teve esse gostinho de quero mais.
Ah, como eu tentei lhe prevenir que a vida não é sempre uma polca, quantas vezes tentei lhe explicar que ela é bolero outras tantas tango, mas você só escutava o que queria e como queria, Carolina. E dançava fora do ritmo sem parecer patética. E cantava muito desafinado sem agredir a audição de ninguém. Você era a mentira mais bonita que havia nesse mundo! A sua imagem não distorcia jamais em nenhum espelho.
Não sei quando foi que lhe veio a idéia de me escutar, Carolina. Não sei quando foi que você teve a estúpida idéia de escutar esse homem amargo que eu sou. Me diga em que momento os seus olhos ficaram azuis, quando foi que seu frescor amornou. Conte-me em que dia da semana você percebeu que as coisas dão errado, que as embalagens nunca abrem no picote. Carolina, quando você decidiu transformar toda aquela sua luz nessa penumbra, quando você se enganou que para ser minha teria que ser como eu. A sua displicência era minha bebida e a minha comida. Morreremos ambos de fome e de sede. Eu lhe avisei, quantas vezes eu lhe avisei que a vida de verdade era impossível, Carolina! E quantas vezes eu pedi, eu implorei, eu supliquei que você nunca acreditasse que minha vida era sua vida. Eu sempre quis lhe dizer que era você que estava certa, mas você sempre lembrava de algum poema de Vinícius. Que merda, Carolina, porque você nunca soube ouvir uma frase até o fim?!”