a casa do zander

pensamentos esparsos de uma mente desconexa

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Entrementes

Sou um homem de paixões frustradas.
E a vida ainda ri de mim, como se dissesse: “vai homem, acorda pois ainda há um dia à sua frente.”

E eu vou.

a moça dos pés salientes

Ela pisa no meu coração e eu rastejo.

Ela pisa no meu coração e eu babo.

Ela pisa em mim.

E eu só penso: “a calcinha é de renda”.

as nuvens

nuvens
elas não trazem só a chuva.

shadow casters.

as viagens

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idas e vindas não fazem uma viagem.

memórias sim.

quintas

eu teria bicho se tivesse quintal
e teria quintal se tivesse casa
e teria casa se tivesse pouso
e teria pouso se coração morasse
e teria coração se moça bonita me amasse

é tarde

e eu tenho histórias para escrever
livros para ler
canções para ouvir

mas a vontade é de ficar miúdo no canto
esperando um reencontro
que não deveria tardar

morena

publicado na Tribuna da Imprensa

Eu não tenho muito a te ensinar - só sei que você me faz sorrir.  E isso você também sabe
não sei o caminho para a felicidade - só sei que você tem de estar ali do lado na caminhada
não sei o caminho para a loucura - só sei que você me tira do sério com cada sorriso seu
não sei como fazer, só sei te amar

E o meu amor são vários:
é a menina que enfeita a foto do meu mensageiro instantâneo digital
é a minha filha maravilhosa que me recebe feliz, incondicionalmente
é a cidade que é como minha filha, me ama, me expulsa, me rejeita, me recebe com os braços abertos

o meu amor é plural
é da humanidade
e das meninas morenas de olhos verdes que me encantam na paulista
e das morenas brejeiras sambistas sangue bom que me seduzem na lapa
é dos livros encadernados com carinho nas livrarias e na prateleira de casa
e é das músicas que embalam as noites insones

o meu amor é carnal
é sinestésico, sensorial
é de cada gozo, de cada tremor de prazer
é som, cheiro, toque

o meu amor é infinito
e faltam sete dias para encontrá-lo

me ama?

Idas e vindas



Não sei se vou ou se volto.
Não sei se parto, fico ou retorno.

Mas sempre fica a sensação de que algo ficou para trás

Uma chave, um disco, um livro
Um abraço, um beijo, um adeus

Mas eu parto e retorno.
Retorno e parto

Poemeto

O que lhes digo é a verdade
a mais pura verdade
aquilo que não pode ser negado

Digo-lhes que não existe o “falar o sexo”

Afinal quais palavras podem traduzir
o prazer do roçar dos corpos?

os cheiros?
os gostos?
os gemidos?
os tremores?
os suores?

as acrobacias desastradas?
os vexames ali revelados?
a exposição desavergonhada?
os calores gerados?

o gozo o gozo o gozo

não existe o falar o sexo.

desejo no. 2 — talvez cheiro de azzaro

Quero o teu gosto no meu
teu sumo, sorvendo na boca,
ser o teu rumo, o teu prumo,
o teu norte, a tua sorte,
o teu destino, a tua diária morte.

sou teu gozo
teu eterno.

retorno a ti
encontro a mim
projeto no teu útero
o meu sonho de ser

eterno.

vens a mim
encontra a parede que se abre em caminhos sinuosos e obscuros
nega e reforça os erros passados
desliga o ar de teu peito
me deixa ser em você
e espera o gozo

eterno.

sintomas

a cabeça dói
o pé dói
o ombro dói
o outro também

queria fazer uma riminha
toda bonitinha
e ajeitadinha
para dar pro meu bem

meu bem morreu
‘cabou, partiu, feneceu
deixou em mim um vazio
um grande pedaço de frio

mas não é nada não
sofrer do coração
riminha sem graça, então
pra fechar a canção.

semeadura

…mas é algo que endurece o coracao aos poucos, deixar um amor que só faz sangrar…

deixa o campo morrer em si,
espera as chamas assentarem o resto dos outros,
revolve a terra com as cinzas do que partiu,
deixa a natureza sarar o chão.

planta aí, entre a cinza e o sangue,
entre a carne e a alma,
entre o gozo e o gostar,
no meio daquilo que não se separa,
na mistura homogênea e paradoxal que é o ser humano.

planta aí.

Aula de sono

No estado de imenso torpor,
nessa semi-embriaguez, típica dos insones

Os olhos que pesam,
turvando o mundano,
revelando nas entrelinhas do real,
uma súbita clareza,
quase mediúnica.

Desta forma, os mistérios do mundo
se revelam a mim e são esquecidos em seguida.

Hei de reter em memória, a sabedoria do quase dormir.

mormaço

Nada de novo acontece. Continuo no mesmo compasso de espera. Nem projetos, nem a mega-sena, nem a paixão definitiva da minha vida, nem uma aclamação mundial do meu talento.

Talvez porque tenho trabalhado sem foco, não tenho apostado, tenha tido azar com as mulheres (preciso jogar!) e não tenha me dedicado tanto assim às coisas que sinto prazer em fazer.

Atonal

Esfomeio-te-me. Sedeio-te-me.
Neolologizo-te.
Parte de mim. Não parta! Sê.

saudades

a falta do seu peso no meu ombro,
do gosto do seu sexo,
do teu lamento lânguido,
do teu beijo escandaloso,
do teu não condescendente,
matam-me a cada noite

mas morrer não cabe nos meus planos

quero encontro, desejo, amor e prazer.

e, acima de tudo, que o que esteja por vir,
venha para nós dois.

quero dividir agora, não caibo mais em mim mesmo de tanto te querer.

até o querer nos consumir e deixar apenas dois corpos,
nas sedas e cetins.

vínculos

alguns laços nos unem ao mundo,
às pessoas que queremos bem,
às pessoas que amamos,
às pessoas que não queremos.

alguns laços são como grilhões,
rijos,
pesados,
mas que são arrastados com prazer.

outros são como fio de seda,
silfídicos,
argênteos,
que se emaranham no corpo e não se desfazem facilmente.

mas hoje me pego pensando nos
laços que faço na vida

e me vejo trinta anos à frente,
morto
de uma forma estúpida e irreversível.

algus amigos irão (os que sobreviverem)
alguns credores chorarão.
e nçao sei se aquela que foi
a razão do meu viver irá me enterrar.

a laço que teço é tão frágil assim?

o que faz uma filha não enterrar o pai?

encantado do jeito que estou

esse encanto é para a noite inteira.

que ela dure, perdure,
resista ao nascer do sol.

pois não há encanto que dure à luz do dia.

mas,
no alvorescer da razão,
ainda na penumbra do sonho,
moram os desejos,
os delírios,
os destinos,
os desesperos,
os pesadelos,
sonhos e amores não consumados.

onírico

Quando desperto, os sonhos se anunciam no saguão.
É melhor preparar-se para os pesadelos no quarto.

retorno

Sei que faz tempo que não coloco nada meu, mas é que a vida começa a se assentar aos poucos.

Agora tenho mais de mim em mim mesmo que nas coisas que estão em volta.

Começo a me desfazer daquilo que era fardo, me torno mais livre para aquilo que serei.

O meu tentar se traduz em ralização, o todo conspira a favor.

Então eu parto, mas volto. Sempre retorno.

Sobre o autor

Sou Zander Catta Preta.

Tenho quase quarenta anos, carioca, desterrado em São Paulo. Conto as histórias que vivi como se fosse de outrem. E as histórias dos outros como se fossem minhas. Revelo o patético, o humano, o carnal das relações mais inocentes.

Não há inocência.

Sou um sátiro. Fato, não consigo me conter nas minhas próprias palavras, tenho de vivê-las. Ainda que me esquive das armadilhas, de ser capturado pela luxúria e lascívia e deixar ser levado pelas torrentes de prazer.

Eu era alguém até ontem. Desde o nascimento fui diversas pessoas, personagens, criaturas. Fato é que não quero ser coisa alguma. Estou sendo. Sou transitório, imperene, diáfano e efêmero.

Quem eu sou? Um mistério em um livro aberto. Uma farsa. E cobro em euros.

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