January 12, 2007 4

Ciclo fechado

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publicado em LIVinRooom 

Fim de ano.

Comemorações a troco de coisa alguma e um calor de rachar a boa vontade entre os homens e mulheres do Rio de Janeiro. E os aproveitam a pausa na correria diária para dar um sossega leão em si mesmos e botar a em ordem.

Para Alan isso significava ligar para todos os pulhas e que conhecia e as lacraias de dois mangos que chamava de amigos e amigas. Na verdade, essa era a forma carinhosa de tratar a todos que fizeram parte de sua vida torta desde o colégio até o fim da faculdade. Poucos, bem poucos mesmo, eram os amigos do dia-a-dia, mas todos moravam no seu coração. Ao menos no fim do ano. Ao menos uma e única vez por ano.

Como sempre, teve de marcar no centro, apesar do protestos daquele povo que morava na Barra da Tijuca e insistia em se chamar de . Os da Zona Norte eram maioria e, a bem da verdade, a Barra não é lugar para esse tipo de comemoração. As Barbies e Kens de plástico daquela região provavelmente reclamariam desde as calçadas de pedra portuguesa até à escolha do cardápio, passando pelo banheiro (sujo, definitivamente sujo) e pelo atendimento (e desde quando bar bom tem atendimento idem?).

Alan chegou cedo, não queria reservar mesa – de premeditado, organizado e planejado, já bastava o calendário – mas se comprometeu em arrumar lugar para todos. Não era todo dia que juntava tantos ditos amigos num lugar só. Normalmente os eventos de Alan eram resolvíveis numa mesa simples ou, quando a lotação passava a marca histórica de seis pessoas, arrumava-se um capô de carro alheio para servir de mesa e/ou assento. Para o fim do ano era diferente: mais de vinte confirmaram e mesão grande assim na Casa Urich só com lábia e adiantamento de conta. Como ele era cliente preferencial desde os vinte e cinco anos, rolou a “reserva” com pouca relutância da gerência.

Os amigos foram chegando aos poucos. A cada abraço, um comentário de um outro que partiu para o exterior ou para uma outra . Um que casou, outro que virou numa curva errada e beijou um poste, outra que engravidou, outro que teve o sexto filho. As novidades dos amigos repassadas a cada ano. A cada fim de ano.

E a sensação que ainda havia algo a ser feito não passava. Aliás essa tinha sido uma constante em sua vida desde os dezessete anos. Àquela época achava que poderia domar o mundo com a mão esquerda enquanto se masturbava com as restantes.

Frase de Alan, não desse autor.

Certa hora, notou que perto do banheiro tinha uma turminha desanimada, umas sete cabeças, duas meninas. Nossa! Que morena é aquela? Bom, continou o processo de embriagamento e abriu uma nova rodada com um úisque duplo. Sem gelo. Tá certo que o queima as pedras portuguesas da Rua São José e o ar parece de verdade com o bafo indelével do centro do Rio, mas uísque tem de ser tomado assim, sem gelo e na valentia.

Novamente, coisa de Alan.

Os chopes sucediam os refrigerantes e as caipirinhas e, determinada hora, a natureza falou mais alto. Alan atravessou a borda da mesa que se estendia por quase todo o comprimento do restaurante e, inevitavelmente, esbarrou trôpego na mesa da morena que não parava de flertá-lo desde o início do fim da tarde. Falou alguma gracinha inócua e inefetiva para fins sexuais e entrou no mictório desesperançado.

Na volta, a mesa vazia. Aliás, todas as mesas vazias. Só um carinha num canto. Mas não tava vazio. Coisa esquisita.

“Puta que pariu! Depois de velho, ?”

O carinha fez sinal para Alan se sentar.

“Cara, já sei. Você é a minha consciência e vai me dar um sermão sobre abuso de álcool, sexo e drogas nas terças-feiras.” “Calaboca e escuta.” “…!” “Olha ali no canto” – apontou para a mesa onde estaria a morena – “e me diga o que você vê.” “Porra tem nada ali.” Levou um cascudo seguido de um pescotapa.

“Olha direito, caralho” “Tá bom, cacete! Doeu isso!” Apertou os olhos míopes e o mundo rodou mais devagar por um momento. Enfim viu.

“Bom. Ali tem uma morena fantástica numa ponta, uma outra lindinha da silva mais mignonzinha, dois coroas, um viado marombado, senhor publicitário na outra ponta e um nerd fotógrafo no canto.” “Não aprendeu porra nenhuma. E eu com esperanças em você.”

Acordou abraçado na privada com uma das meninas a lhe acordar.

“Tive de dizer pro gerente que era sua namorada. Tu tá legal?” “Tô não, Vivien. Deixa eu voltar para a mesa e pagar a conta.”

Estranhamente se sentiu mais sóbrio que nunca ao caminhar entre as mesas. Sinal claro, óbvio e ululante de alcoolismo em estado extremo. Ao sentar, pediu a atenção de todos. Discursou do ano, o fim do salário, o fim da história e do comunismo, o fim dos tempos. Todos riam quando ele trocou de tom e, falando através de si, começou.

“Existem quatro tipos de mulheres que um homem tem de ter: a musa, a puta, a mãe e a amiga.” E continuou falando, ensinando as verdades essenciais, enquanto as nuvens de chuva anunciavam que as comemorações iriam continuar noite adentro.

O povo se calou. Alan não era do tipo de cagar regra.


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4 Responses to “Ciclo fechado”

  1. vivien says:

    PO, a Vivien ai do texto é amiga mesmo. Legal.;0)

  2. Tatiana says:

    não….próximo só no dia 20, acho.
    to revendo com ROM a 2a temporada :)

  3. Juninho.. says:

    Zander meu filho, seu livro é muito bom…

    Mas que caralhos vc me fez na hora de juntar as páginas, o livro que você me deu tem umas 15 paginas 109 e o pior, fiquei curioso para ver como a estória termina….

    Bem, caso vc não lembre eu sou o Juninho lá do Asterix…

    Abraços…
    Valeu pela Leitura!

  4. Eugênia says:

    Rá! pertinho do meu trabalho, com comida boa e garçons da antiga… entendo o Alan.

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