Eu gostava de me imaginar velho, quando novo. Nunca tive sonhos de uma juventude imorredoura. A velhice me dava um alento de realização que sempre achei muito mais interessante que a energia difusa e desfocada da adolescência. Sou atípico, fato, mas acho que não sou único. Me precede Nelson Rodrigues e tantos outros antes dele.
O que me encantava – encanta – na visão projetada da velhice é a sensação da realização sem a penúria e o esforço do erigir. Era saber que teria uma história que me precederia antes de eu entrar numa sala. Já imaginava as pessoas cochichando: “Olhe lá! Aquele é o Zander Catta Preta! O autor de vinte livros, fala doze línguas e doutor em filosofia. E um gato, no alto dos seus cento e doze anos!”
Mas me enerva ter de gramar por tanto tempo e por tanto nada e por tantas vezes. Sinto-me um jumento mascando a grama da vida a cada dia, sem entender que deitar e rolar na relva úmida de orvalho dá mais prazer que a barriga cheia de celulose e clorofila que sou obrigado a deglutir diariamente. Se a bosta que sai desse processo tivesse serventia, ainda que esse excremento adubasse algo a mais que mais grama, eu ficaria feliz de ser parte do processo de grama-bosta-grama-bosta-grama.
Nesse caso, eu zurraria ao mundo que a grama é boa. “A grama é boa!” E comeria tufos seguidamente e ofereceria mais quantidades aos outros companheiros dizendo que “a grama é boa!” e que “bela bosta” teríamos produzido ao fim de cada dia. Ao cair da noite, me recolheria ao estábulo onde, ainda cansado de tanto gramar, dormiria um sono exausto, suado e sem sonhos.
Mas – o horror! o horror! – por vezes a própria merda que é o que é consumido e com beiços lambidos. Mas aí já não é minha culpa, apenas a desculpa de medíocre ambulante que teima em ser “diferente” da massa que zurra em uníssono comigo. Me porto como quem grasna descontroladamente no meio do quintal verde, cheíssimo da mesmíssima grama. Ali, eu finjo caçar vermes e abano asas inúteis que não me voam e estico o pescoço para grasnar: “A grama é uma merda! A grama é merda!” e bato no próprio peito como se houvesse orgulho em continuar no processo com a revolta juvenil renovada no peito. Mas até isso cansa e volto a abaixar as minhas orelhas, desemplumando-me.
Dado o percurso até aqui, não me surpreendo que, num futuro bem próximo, eu seja olhado com desdém por alguém que se porta como ganso que aponta na coluna da vida os derrotados, os mal-ajambrados, os losers, como se ele próprio se arrolasse entre os winners. Daí, na mesa do boteco semi na moda, ele falaria ao ver o velho passar na Ladeira da Memória: “Olhe aí! O Zander quase tropeçou em você. Bêbado, mal-ajambrado e frustrado, até que está bem para os seus setenta e dois anos.” “Ele tem quarenta, rapaz. Quarenta.” “Que vida de merda, né?”
Ainda assim espero desalentado o júbilo que o anonimato me reserva.
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Acho que foi a melhor coisa sua que eu li. Muito foda. Mesmo. E o pior, não tem resposta. Não tem.
Ai Zander; o texto tá bom, mas precisa dar uma sacudida dessas numa segunda-feira chuvosa na Guanabara? E para de implicar com meu portuñol. Eu gostcho.
Rabugento.
Bezzos,
Poxa Zander…
Algo que voce engoliu não te fez bem,
essa grama estava estragada…
De qualquer forma, vou ler mais seus textos! gostei.
Paty