Existe algo intrinsecamente bom em viver. Não sei dizer se é uma questão de sobrevivência, ou de prazer primeiro que carrega o indivíduo por seu breve periódo aqui. Sei que não é o sexo – que há gente que desprefira o carnal pecado – ou o dinheiro, a comida, o ar, a água.
Pois olhem os miseráveis, os desprovidos de tudo: de comida, de fé, de esperança, de prazer, de saber, de angústia ou amor. A miséria e o desprovimento completos não são impeditivos a eles. Algo os amarra e os faz esquivar ante a sombra do fim.
Dá-se um animal selvagem e faminto em ataque furioso e inexorável contra essa legião de rascunhos de civilização e não vê que se armam para lutar por sua pele ou pela perpetuação de uma história pífia, inexistente, irregistrada? Que força é essa que os prende a uma história que não os quer? Não seria melhor deixar-se entregar e encerrar algo que não faz sentido? O mesmo não se aplica às almas sem corpo que habitam as baias das empresas mundo afora? ou aos viciados em seu próprio nome e imagem que inexistem para si mesmo enquanto não são mencionados por outros?
Não entendo, apenas admiro essa capacidade da minha gente em sair das savanas e ganhar as estrelas, de se tornar semi-deuses de si próprios.
E choro por quem perde esse fio de prata que o conduz para o amanhã, quem deixa de sentir esse bem indelével, que desiste de si, o suicida.