publicado na Tribuna da Imprensa
Virei pro camarada do outro lado da mesa e soltei sem respirar: “Me ajuda em três coisas?” Ele trocou olhares rápidos com o garçom, o pint de Guiness meio vazio e a minha cara de bêbado de fim de semana.
“Como assim?” “São três coisas simples.” “Desenvolva.”
Ao meu lado, a menina deu a perceber que estava curiosa, mas fez como quem não daria bola àquela besteirada ali. Sentiu cheiro de bobagem de botequim. Virou o rosto para a amiga que flertava desesperadoramente com o cara do outro lado da mesa.
Ele insistiu: “Desenvolva.” “Bom, como você sabe, eu tenho projetos curtos e simples a serem resolvidos até lá. Já até escrevi sobre eles e tal.” “Sei sim, o papo de morar só – já é tempo, né? –, o lance da faculdade, juntar dinheiro e…” “…e falar menos. O mais difícil de todos.” “Pois é. E no que eu posso te ajudar, cara? Morar lá em casa, nem pensar.” “Tem mais além dessa lista curta. Mais coisas que se escondem debaixo do tapete dos nossos projetos de vida. Detalhes, coisa pequenas que vão aparecendo aos poucos no processo de envelhecer. Coisas como apreciar um tipo de uva, um prato que é preparado em algum lugar. Essas coisas que realmente valem a pena e que talham o caráter de um homem de forma definitiva.”
Ele virou o restante da cerveja quando o garçom colocou um novo copo nada vazio à sua frente.
“Você está bêbado?” “Ainda não. Só lânguido.” “Meio veado isso, né?” “Sim, mas é a palavra precisa.” “Então você precisa de mim para que eu te ensine meia dúzia de coisas que ajudarão na formação do seu caráter enquanto homem feito?”
Foi a minha vez de beber o meu copo cheio.
“Não, cara. Já faz algumas décadas que eu talho esse meu mau-caráter. O que preciso é de umas dicas para um vicio novo.” “Como assim? Vício novo?” “Sim, vícios. O terceiro componente fundamental da personalidade de uma pessoa.”
Nesse ponto, as meninas passaram a prestar a atenção.
“São três os Componentes Fundamentais da Personalidade de uma Pessoa: nortes, valores e vícios. Os nortes são aqueles objetivos que nós iremos mudando a cada mês, mas que são sempre substituídos. Não é nada complicado como comprar um apartamento, mas algo como ‘como vou arrumar a grana para pagar a mensalidade desse mês?’. Os valores não são medidos por aquilo que você tem como conduta pessoal, mas mais como aquilo que você não faria por um milhão de reais. Obviamente não são para serem brandidos como estandartes, caso contrário, qualquer pessoa de bom senso lerá: ‘Ei! Me compre! Eu quero um milhão de reais! Dez pratas já tá valendo, dotô!’”
Os outros três à mesa já estavam com aquela cara de “senta que lá vem história”. E veio mesmo.
“Os vícios são os seus melhores amigos no desespero. É a última coisa a que você se agarra quando o mundo te tira tudo. A tua coleção de vinis de samba dos anos 1960, o uísque que você aprendeu a beber na chegada dos trinta anos, são seus únicos e derradeiros amigos quando todo o universo te dá as costas. Ele te draga, te consome, suga teus momentos de descanso e teu dinheiro, mas é quem te dá prazer na hora e no momento em que você mais precisa, na hora onde é só isso que resta. E precisamos sempre de vícios novos, para que os antigos não se tornem fortes demais e te arrastem para onde eles querem. É isso.”
Ante o silêncio assombrado da mesa, arrematei: “Cara, preciso comprar um cachimbo bom, um paco de fumo de primeira e um canivete de qualidade. Me ajuda?”
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Adorado Mr. Z., como eu te entendo! E pagar mensalidade o quê, eu já tô infartando com o cálculo que o programa automático fez dizendo que eu preciso SÓ DE OITOCENTOS MIL REAIS para minha independência financeira quando eu me apostentar. E, como tô com trintetals, são mais trintetals hasta lá.
Experimenta Narguilè, é mais esquisito.
Bezzos,
By the way, texto excelente. Clap clap clap.
delícia de pontuações.
Hahahhaahaha
e você vai fumar isso ou vai colecionar???
Srta. Rosa, agradeço a visita e o carinho mais uma vez.
gica trierveiler, muito obrigado pelo elogio.
Morena, fumarei, obviamente. Saudades.
[...] alguns anos eu fiz uma lista de coisas que queria fazer antes dos quarenta anos. Boa parte – a maioria – delas eu consegui fazer. [...]