March 6, 2005 2

De prêmios Nobel e sonhos em azul

By in textos

para Andrea Capella

Numa noite de insônia, como tantas outras, ele resolveu dar uma volta na praia. Não morava muito longe, uma quadra e meia da praia que, mesmo às 4h da manhã, estava bem freqüentada pela população marginal de uma cidade turística. E, entre putas, pivetes, traficantes, pedintes, população de rua, turistas em busca de barato e bêbados, ele teve uma idéia genial. Aquilo que iria .

Seriam Vinte Histórias Universais. Daquelas que todos escutam e repetem, verdadeiros Memes Literários, como Branca de Neve, Sete Samurais e O Herói Que Sai De E Volta Maior Que O Mundo.

Apesar disso já ter sido feito várias e várias vezes, o grande diferencial seria a magnitude da obra. Em cada país, ele escolheria um escritor famoso e um ilustrador cujos estilos combinassem e ambos recriariam a história. Então não seriam vinte histórias mas trezentas versões de cada história, recontadas de forma original e ilustradas de maneiras nunca dantes vistas. Haveria espaço para o pesquisador, para o neo-beatnik, para o gótico, para o neo-urbanista, enfim, cada um uma meta-obra em si.

Mas isso não era bastante. Em cada país ele encontraria parceiros que, junto com a Unicef, ajudariam a bancar a produção dos que seriam vendidos a uma unidade monetária de cada país, a título de ajuda de custo. As tiragens seriam sempre na casa dos milhões e, em pouco tempo, seria o maior projeto literário do mundo inteiro, desde Gutemberg. Depois, edições encadernadas em aço, uma para cada país participante, guardariam um exemplar de cada obra em cada idoma, preservando a arte e as histórias por si só, seriam distribuidas, juntando-se aos tesouros nacionais. Vinte histórias contadas por todos os povos de várias maneiras possíveis, seria uma obra digna de lembrança por gerações a fio.

Depois viriam os louros, a primeira obra global haveria de ser um sucesso, de certo! quem não gosta de Branca de Neve, dos Irmãos Grimm? Seriam 150 línguas diferentes, já que era um embrião de projeto. Alguns países não botariam fé mas, até no Irã seria publicado. E lá iria ele, receber prêmios e mais prêmios até passar mais tempo nos aviões e aeroportos que em casa, trabalhando.

Mas haveria uma equipe que selecionaria os textos e as artes, espalhada por todo o mundo. E ele coordenaria os prazos de produção e de entrega e os faturamentos. Mas isso não era o que ele quereria para si então ele delegaria a parte burocrática para a própria ONU e seria um embaixador dos contos e rodaria o mundo (185 países) na segunda edição, O Rouxinol do Imperador.

Alguém lhe alertaria que não haveriam tantas histórias assim, então ele pediriria de antemão uma pesquisa sobre as histórias infantis mais difundidas no mundo e ele descobriria que não eram vinte, mas cem, na sexta edição, A Morte de Arthur. Ainda assim, preferiria ficar nas vinte iniciais e desistiria de rodar o mundo todo, apenas indo nos países que recém ingressariam no projeto. Entraria em países em zonas de conflito, mas teria a certeza que estava caminhando com passos que não eram seus, mas da humanidade encarnada, sonhando a vida de alguém.

Nessas , se esqueceria das pessoas que estiveram com ele durante toda a sua vida, da família e da filha que lhe inspirara esse projeto global e, dessa de se lembrar dos que amava, ele sentaria numa cadeira de um aeroporto, viraria para a criança que estaria sentada a seu lado e contaria a única história que ele queria todos conhecessem.

Havia um cavalo azul que pastava nos sonhos das crianças e, quando uma acordava, ele corria e pulava para o sonho de outra para pastar mais sonhos de sorvetes, pés sujos no chão, sorrisos desgovernados, dentes moles e camisas meladas de chocolate.

Mas ele descobriria que estava apenas tentando contar os seus sonhos. E eles não interessavam às crianças que agora leiriam e veriam as maiores histórias da humanidade. Afinal de contas, o que era ele, senão instrumento. Títere de uma força maior que é o legado da humanidade naquilo que ela tem de melhor.

Daí, da praia, ele resolveu comer um cachorro quente, tomar uma coca-cola e voltou para casa, tinha de acordar cedo no seguinte e muito a fazer daí por diante.


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2 Responses to “De prêmios Nobel e sonhos em azul”

  1. STAR says:

    Sonhos… Vc ainda os tem? Que bom!

  2. Andrea says:

    obrigada…muito obrigada…tem uma frase

    uma que eu adoro, parece até que vc sabia …”all of us get lost in the darkness, dreamers learn to steer by the stars”..é eu gostava de rush…

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