publicado na Tribuna da Imprensa
Lei primeira: Nunca se envolva com o objeto do seu interesse. O distanciamento emocional é fundamental para a sobrevivência do canalha.
Sempre achou que o tempo ideal de uma relação era de três meses. Nem mais nem menos. Desta forma poderia ter uma história inteira – flerte, foda e fim – e virar a página rapidamente sem ter nenhuma seqüela para ambas as partes. Obviamente nunca consultava o outro “time” para ver se este discordava dessa metodologia em que era submetida sem o seu consentimento prévio. Como bom canalha, assumia na cara dura o seu comportamento misógino a guisa de “sinceridade”. Só que nem toda sinceridade é honesta e nem toda honestidade é sincera. Pena que poucos sabem disso.
Eis que o dito fez-se apaixonar por diversas meninas da Tijuca a Bangu, visto que era bem-apessoado, bem-nascido e tinha uma conversa interessante, apesar de se deixar levar pelo som da própria voz. De fato, adorava ouvir-se discorrer por centenas de assuntos que não tinha interesse ou conhecimento, apenas para ver o resultado desse encantamento umbilical se transpor nas meninas incautas e imaturas. Acima de tudo, amava esse poder de fazer descer as calcinhas das meninas.
Era um tipo de narciso bem estranho.
Lei segunda: Nunca, em hipótese alguma, se apaixone pelo objeto do teu interesse. A ausência de paixão é o que garante a sobrevida do canalha.
“Três meses.” Ele dizia. “Três meses e tchau. É assim que funciona comigo e pode funcionar com todos vocês. Em semanas vai chover mulher na cama de cada um. A ponto de ter de colocar uma catraca para os amigos contabilizarem no final da semana.” Os amigos olhavam embevecidos e invejosos. Não acreditavam em metade das aventuras que o canalha à mesa contava, o que, estranha e ilogicamente, fazia a lenda aumentar. “Nem tudo pode ser inventado, gente. Já vi o cara carregando duas para casa.” “Eu lembro do dia que ele catou a loirinha da praia que ninguém com menos de dois metros pegava” “E a menina-blogueira-fox-trot? Eu tava lá, minha gente! Era só gemido e chão batendo no quarto do lado!” “E a escritora da Barra da Tijuca? Essa eu também vi.” “E não se esqueçam do anão! Um anão, gente! Um anão!”
Porém, mais que as histórias das conquistas, ele se deleitava em discorrer sobre as derrotas, sobre as deusas monumentais que nunca sucumbiram aos seus – poucos – encantos , sobre os términos. Podia-se dizer que era um apaixonado em fins de relacionamentos. E se orgulhava de cada biltrice que praticara em dezenas de anos de prática ininterrupta de canalhice crônica.
Lei terceira: Todo canalha irá, inevitavelmente, se apaixonar pelo objeto do seu interesse. Deste ponto em diante, o canalha está morto.
Calhou de cruzar o caminho do nosso personagem preferido, moça prendada que cheirava a jasmim. Ela, da tez macia, do olhar brejeiro, do rebolar cadente, do olhar triste, sucumbiu como mais uma. Apenas mais um número de telefone na sua agenda de celular. Ao levantar-se derradeiramente da cama, deixou ali o velho promíscuo e rabugento e não reconheceu o estranho brilho nos olhos de cafajeste. Ele, ao fitar-se no espelho enquanto calçava as meias, sentiu o peso da vida e a doçura irem porta afora.
Foi-se o último canalha verdadeiro.
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“Só que nem toda sinceridade é honesta e nem toda honestidade é sincera. Pena que poucos sabem disso.”
Eu diria que ninguém. Um auto-engano recorrente esse.
Amore, já tinha te falado isso. Genial, fantástico, fabuloso. O problema é o cheiro de jasmin, o sujeito que sabe o que dizer na hora H, o isso ou o aquilo. Estamos sempre correndo riscos, não é mesmo? Mas só os canalhas sabem administra-los, eu não sei. =(
Bezzos querido!
Gostei muito, Zander.
Beijão e sucesso!
Eu achei que era autobiográfico. Mas aí eu li “visto que era bem-apessoado, bem-nascido e tinha uma conversa interessante” e notei que não era… =P
Inspirador e nostálgico, pois a muito se dormiu o canalha em mim. Mas entenda: dormiu-se, não esvaneceu tão pouco sucumbiu à doçura rebombolear cadente da rapariga.
Digamos que uma trégua perigosa foi baixada.
Abraços rapaz do alto
Era um tipo de narciso bem comum, na verdade.
Imagino que na continuação da história a moça com cheiro de jasmim esnoba o ex-cafajeste, ele se apaixona ainda mais, faz de tudo para conquistá-la, e não sendo correspondido, recupera a verve “cafajestal” e volta a descer calcinhas, só que agora… o prazer contém certa amargura!
Um clássico!
Tá linda a calcinh…quero dizer, a casa nova! rs e bjs
Crônica bacana!
Se bem que é desses tipos que eu não gosto hehehehe
Ow, passei um meme para ti, mas não precisa aderir, se não for do seu desejo
Bjos!