March 25, 2008 7

Do livro dos desvirtuosos: o canalha

By in textos, tribuna

publicado na Tribuna da Imprensa

Lei primeira: Nunca se envolva com o objeto do seu interesse. O distanciamento emocional é fundamental para a sobrevivência do canalha.

Sempre achou que o tempo ideal de uma relação era de três meses. Nem mais nem menos. Desta forma poderia ter uma história inteira – flerte, foda e fim – e virar a página rapidamente sem ter nenhuma seqüela para ambas as partes. Obviamente nunca consultava o outro “time” para ver se este discordava dessa metodologia em que era submetida sem o seu consentimento prévio. Como bom canalha, assumia na cara dura o seu comportamento misógino a guisa de “sinceridade”. Só que nem toda sinceridade é honesta e nem toda honestidade é sincera. Pena que poucos sabem disso.

Eis que o dito fez-se apaixonar por diversas meninas da Tijuca a Bangu, visto que era bem-apessoado, bem-nascido e tinha uma conversa interessante, apesar de se deixar levar pelo som da própria voz. De fato, adorava ouvir-se discorrer por centenas de assuntos que não tinha interesse ou conhecimento, apenas para ver o resultado desse encantamento umbilical se transpor nas meninas incautas e imaturas. Acima de tudo, amava esse poder de fazer descer as calcinhas das meninas.

Era um tipo de narciso bem estranho.

Lei segunda: Nunca, em hipótese alguma, se apaixone pelo objeto do teu interesse. A ausência de paixão é o que garante a sobrevida do canalha.

“Três meses.” Ele dizia. “Três meses e tchau. É assim que funciona comigo e pode funcionar com todos vocês. Em semanas vai chover mulher na cama de cada um. A ponto de ter de colocar uma catraca para os contabilizarem no final da .” Os amigos olhavam embevecidos e invejosos. Não acreditavam em metade das aventuras que o canalha à mesa contava, o que, estranha e ilogicamente, fazia a lenda aumentar. “Nem tudo pode ser inventado, gente. Já vi o cara carregando duas para .” “Eu lembro do que ele catou a loirinha da praia que ninguém com menos de dois metros pegava” “E a menina-blogueira-fox-trot? Eu tava lá, minha gente! Era só gemido e chão batendo no quarto do lado!” “E a escritora da Barra da Tijuca? Essa eu também vi.” “E não se esqueçam do anão! Um anão, gente! Um anão!”

Porém, mais que as histórias das , ele se deleitava em discorrer sobre as derrotas, sobre as deusas monumentais que nunca sucumbiram aos seus – poucos – encantos , sobre os términos. Podia-se dizer que era um apaixonado em fins de relacionamentos. E se orgulhava de cada biltrice que praticara em dezenas de anos de prática ininterrupta de canalhice .

Lei terceira: Todo canalha irá, inevitavelmente, se apaixonar pelo objeto do seu interesse. Deste ponto em diante, o canalha está morto.

Calhou de cruzar o caminho do nosso personagem preferido, moça prendada que cheirava a jasmim. Ela, da tez macia, do olhar brejeiro, do rebolar cadente, do olhar triste, sucumbiu como mais uma. Apenas mais um número de telefone na sua agenda de celular. Ao levantar-se derradeiramente da cama, deixou ali o velho promíscuo e rabugento e não reconheceu o estranho brilho nos olhos de cafajeste. Ele, ao fitar-se no espelho enquanto calçava as , sentiu o peso da vida e a doçura irem porta afora.

Foi-se o último canalha verdadeiro.


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7 Responses to “Do livro dos desvirtuosos: o canalha”

  1. Barba says:

    “Só que nem toda sinceridade é honesta e nem toda honestidade é sincera. Pena que poucos sabem disso.”

    Eu diria que ninguém. Um auto-engano recorrente esse.

  2. srta. rosa says:

    Amore, já tinha te falado isso. Genial, fantástico, fabuloso. O problema é o cheiro de jasmin, o sujeito que sabe o que dizer na hora H, o isso ou o aquilo. Estamos sempre correndo riscos, não é mesmo? Mas só os canalhas sabem administra-los, eu não sei. =(

    Bezzos querido!

  3. Gostei muito, Zander.
    Beijão e sucesso!

  4. Júlio says:

    Eu achei que era autobiográfico. Mas aí eu li “visto que era bem-apessoado, bem-nascido e tinha uma conversa interessante” e notei que não era… =P

  5. Inspirador e nostálgico, pois a muito se dormiu o canalha em mim. Mas entenda: dormiu-se, não esvaneceu tão pouco sucumbiu à doçura rebombolear cadente da rapariga.

    Digamos que uma trégua perigosa foi baixada.

    Abraços rapaz do alto

  6. biti says:

    Era um tipo de narciso bem comum, na verdade.

    Imagino que na continuação da história a moça com cheiro de jasmim esnoba o ex-cafajeste, ele se apaixona ainda mais, faz de tudo para conquistá-la, e não sendo correspondido, recupera a verve “cafajestal” e volta a descer calcinhas, só que agora… o prazer contém certa amargura!
    Um clássico!

    Tá linda a calcinh…quero dizer, a casa nova! rs e bjs

  7. giseli says:

    Crônica bacana! :) Se bem que é desses tipos que eu não gosto hehehehe
    Ow, passei um meme para ti, mas não precisa aderir, se não for do seu desejo ;)
    Bjos!

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