February 24, 2009 3

Do meu moleskine falso

By in textos

Eu tenho uma letra horrorosa, quando escrevo com pressa. Para falar a verdade, tenho uma letra horrorosa quando não uso uma “” o que, para mim, remonta à tenra idade de oito anos, quando ganhei a minha Olivetti Portátil de natal.

olivetti-portatil

Não era um presente usual, eu sei, mas minha mãe não tinha achado o “avião que dava mil piruetas” para vender (o que era bem provável, já que ele só existia na minha imaginação) mas tinha se virado em seis para comprar o “robô que dava cambalhotas”, o “carro que bate-e-volta” e a indefectível bicicleta de rodinhas.

Fato é que não posso me queixar de presentes quando criança. Não mesmo. Já quando adolescente, a história era outra e fica para outra história.

Mas eu falava da minha letra horrorosa – tão feia que nem eu mesmo consigo lê-la quando tento rever minhas anotações – e da minha mania de comprar cadernos e blocos e canetas e lápis. Acho que a minha letra é a minha primeira frustração.

Todos em tinham uma letra desenhada. Minha tia até hoje tem uma caligrafia personalíssima e inteligível à distância. Minha mãe tem um traço firme e nervoso, mais parecido com caminhos de formiga. Ainda assim, legível até no escuro. Do meu tio mais velho só lembro dos números, das contas. Precisas, calaras. Dos tios mais novos, não lembro nada.

Fiz caligrafia por um tempo, mas desistia como bom preguiçoso do signo do porco. Dava trabalho e eu escrevia melhor e mais rápido na Olivetti. Pena que era muito pesada para levar à . Pena que não dava para escrever com ela nas provas e nas redações.

Um pouco mais tarde, ganhei meu primeiro computador – um – seguido logo, logo, do segundo – um Hotbit/MSX – que veio a ser o centro da minha primeira “estação de trabalho”: computador, monitor (uma TV), impressora matricial de oitenta colunas e um disk drive de 5 ¼ polegadas. Com a chegada da impressora, a caligrafia há muito abandonada foi de vez para as cucuias. Com o micro, as minhas outras frustrações ficavam mais patentes.

O bichinho “tocava” , se eu o programasse, e eu sabia ler um pouco de notação musical. Então lá ia o pequeno Zander programar no computador as partituras que ele não conseguia – nem tentava muito – tocar no violão. “Afinal de contas, eu queria um baixo!” – era a minha desculpa – “E nem para ganhar presente direito!” – eu completava com a malcriação típica dos quinze anos. Amava (se é que punk pode ser chamado de ) e não tocava patavinas. O mesmo se aplicava para as meninas: amava-as e necas de pitibiriba de descolar  umazinha que fosse.

Obviamente tudo era desculpa para uma falta de empenho meu. Se eu quisesse comprar um contrabaixo, que eu economizasse nos gibis e livros, né? Ou que eu deixasse de comprar tanto vinil, ou que eu vendesse o meu super-hiper-som modular da Philips e fizesse mais umas aulas de violão para eu mostrar que me empenhava em alguma coisa de verdade, que não me viesse fácil. Reclamar da vida sempre fora mais fácil que fazer o meu desejo virar a verdade.

Acho que ouvi uma vez alguém dizer que amadurecer é colecionar frustrações.

Falo disso tudo porque, vira e mexe, me acho uma farsa. Uma farsa no trabalho, com os amigos, com a família, com os . Não tenho metade da inteligência que presumo ou apresento, um terço do talento que me atribuem, um décimo da capacidade que vendo, um centésimo da compreensão e da tolerância para os meus entes queridos e um milésimo da capacidade de amar que qualquer ser humano merece.

É como me sinto nas noites insones de calor do . Como uma farsa de mim mesmo, esboço de alguém que eu nunca poderei ser plenamente apenas porque escrever as de forma legível dá mais trabalho que inventar o texto do meio dos meus garranchos.


Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

3 Responses to “Do meu moleskine falso”

  1. Entendo você p-e-r-f-e-i-t-a-m-e-n-t-e. Mas se quiser, te dou o telefone da minha analista, que já resolveu boa parte do meu problema :)

  2. Junior says:

    ops, vc fez de novo…

  3. fabiana says:

    Menos, Zander! Todos nós, em algum momento, somos uma farsa, você não poderia ser uma exceção à regra…
    E sobre o resto… bem, ainda bem que você usa bastante o computador. Eu me lembro dos garranchos (hehehe)! :-D

Leave a Reply

You must be logged in to post a comment.

友情链接:

南京装修网

南京装修日记

南京装修风水

南京装修验收

南京装修问题

南京装修家具

友情链接:

AION RMT-アイオン RMT

メイプルストーリー RMT

dragonnest rmt

ARGO RMT

エイカ AIKA RMT

ドラゴンネスト-DragonNest-RMT

AILA rmt アイラ rmt

ネクソンポイント RMT

Dragonica ドラゴニカ -RMT

アラド戦記 RMT

Atlantica-アトランティカ

CabalOnline RMT

Aion-アイオン RMT

日本最大手のRMT斡旋サイト