O mais novo chegou no Belmonte às três da tarde. Ficara jogando peteca na praia desde às onze da manhã e estava com fome e sede. Já era uma espécie de rotina: acordar às cinco, comprar pão, manteiga, presunto e queijo; tomar café da manhã com a esposa e o neto encostado pela Aeronáutica às sete. Às oito, banho tomado e academia: correr uma hora e malhação e hidroginástica. Às dez de volta em casa para um lanche rápido e colocar a sunga para a praia. Morava na Atlântica, perto da Bolívar, num prédio antigo, um dos primeiros de Copacabana.
E era isso: praia e depois chope no Belmonte. Costumava chopear no Cabral 1500, mas esse bar novo tinha pastéis de camarão sensacionais e empadas memoráveis e resolvera trocar local do almoço desde a sua inauguração. Não se arrependera.
Estava lá, nessa quarta-feira, lendo o jornal que o garçom havia pegado e notou que tinha uma outra cabeça branca observando-o. Havia sentado na mesma mesa sem pedir licença ou se apresentar. Não precisava.
“O senhor é uma vergonha! Não honra as próprias calças!” Olhou para o mais velho que estava vermelho em fúria contra ele. “Nunca vi homem que dignasse o próprio nome fazer tal coisa! O senhor desonra seu nome, tua família, teu posto e tua farda!” “Não uso farda há mais de duas décadas.” “Não interessa! O senhor tem um nome a…” “Um nome a zerar!” E riu sozinho.
Fazia uns cinqüenta anos que os dois se conheciam. Desde o primeiro momento antipatizaram um com o outro. O mais novo, recém ingresso à AMAN; o mais velho, no penúltimo ano. Competiam em tudo. Notas, esportes, oratória. E empatavam nas graduações. Só que o mais novo tinha uma vantagem que nunca seria superada. Era muito mais bonito e tinha o dom da sedução, o sex appeal inato que dava larga vantagem numa área onde o velho nunca conseguiria competir.
Antipatia que se tornou guerra pessoal. Um era comunista histórico. Amigo de Prestes e de Teotônio. Outro, simpatizante do Integralismo, seguidor de Plínio Salgado, adesista de primeira hora no golpe/revolução de 1964. O primeiro perseguido e torturado, depois exilado. Outro, diretor da Light e aposentado aos cinqüenta e cinco. Sempre se encontraram em todas as quinas de suas próprias histórias. Estavam lá em cada momento decisivo, em cada dor, perda ou escolha. Uma vendetta branca tão marcada em suas personalidades que já não fazia mais diferença os motivos, as ideologias, os partidos, as causas ou conseqüências. Já estavam velhos demais para a beleza de um ou outro fazer diferença. Os filhos já haviam vindo e ido, deixando alegrias e desgostos que usavam para ofender um ao outro. Filhos, netos, política, economia, futebol e, principalmente, mulheres. Qualquer coisa que desse uma oportunidade para o outro espezinhar era motivo suficiente. Desta vez era o turno do mais velho, no seu motivo preferido.
“É deprimente que o senhor ainda se arraste por rabos de saia que têm menos da metade da tua idade! Sei que é adepto desses remédios que garantem a virilidade momentânea! Vê-se que já sofre os efeitos colaterais! Não se enxerga mais!” “Inveja! A mais doce das infâmias que poderia lançar sobre mim. Não consegues te acertar com tua prótese, então ficas difamando os que…” “Calúnia! Não existe implante algum em mim!” “…os que ainda despertam algum interesse nas mulheres ainda em plena atividade e prática sexual. Mas te garanto, meu caro, que não sei do que falas. Sabes bem que desde a morte do meu primeiro filho, me assossego em casa, não tenho mais dessas aventuras.”
O velho sentou-se à mesa, pediu um chope curto e comeu um dos pastéis. O novo pediu mais um chope para si e um “refil” nos pastéis. Ficaram ali, em silêncio, se estudando como se fossem dois samurais esperando a reação um do outro para sacar a lâmina de sua bainha e cortar a moral do outro.
O novo faz o primeiro movimento: “Do que falas, afinal?” “Dessa mulher que o senhor tem freqüentado às quartas-feiras.” “Não é isso que pensas.” “Como não? Sei muito bem como o senhor se coloca frente às mulheres, enganando-as, seduzindo-as.” “Há muito te expliquei que não somos nós que as seduzimos, muito pelo contrário: elas que nos convidam e dão o seu aceite. Se brincam de serem cortejadas, é porque lhes é conveniente. A sedução vem delas para nós, não o contrário.” “Mas meninas, que mal sabem o que é a vida?” “Tu sabes que, hoje ou em mil novecentos e sessenta, as meninas deixam de ser meninas aos vinte. São mulheres em plena flor da idade. Não há meninice nisso. Tu, que casastes com uma de quinze, deverias ter mais noção disso que eu.” “Não menciona o nome dela assim! A boca do senhor não é limpa o suficiente para mencionar Gaia.” “Gaia. Eu pensava que era Géia o seu nome. Já é o tempo me tomando as lembranças.” “O tempo toma tudo, sei disso.” “Não tenho dúvidas. Mas sempre te surpassei, não? Sempre estive um passo à sua frente.” “Nem sempre.” “Justo. Tem coisas que tirastes de mim que não há como devolver.” “Fi-lo pela pátria.” “Ou por vingança, ou por ódio, ou por perversão, sei lá. Não me interessa mais. É passado e é história. Teve a tua cota de vingança e de sangue e eu também. Somos agora dois velhos a nos cutucar enquanto o mundo nos esquece.”
O golpe fora certeiro. O novo sempre fora muito melhor na oratória, mas dessa vez vinha carregada de alguma coisa mais forte. Ele estava com a guarda aberta. Via-se nos olhos que não estava estudando o que falava. Era um homem de setenta e poucos anos, lúcido, saudável que admitia para o seu nêmesis que tudo aquilo que basearam a sua relação de ódio e vingança havia caído por terra, perdido a importância. Era apenas uma birra de dois velhos bêbados. E que isso era um laço mais forte que muita amizade sincera aberta e verdadeira.
Os dois viram os rostos para a menina que se aproximava e que pedia licença para sentar à mesa. Menina não. Uma linda mulher.
Ela se senta entre os dois, à cabeceira da mesa. Ajeita a saia rodada branca e coloca o chapéu, a bolsa e os óculos escuros numa cadeira vazia. Olha lentamente para o mais velho e com desleixo para o novo. “Parece que vocês chegaram num campo comum, não é mesmo? Se acertaram?” “Não existe acerto entre mim e o velho. Mas acho que estamos colocando os pesos corretos na nossa guerra.” “É verdade. Então é a senhorita a mulher que o novo visita às quartas?” “Sim” Disse Luna, com o olhar incapacitado. Sabia que era poderosa e maravilhosa, que era a segunda da lista, mas sabia que, de perto, os dois eram maiores e mais poderosos que todos os outros. À exceção de Hélio, ou Hélius, nunca se lembrava. Ela ficava diminuída perto dos dois.
O velho dirige um olhar meio envergonhado, meio compreendendo o mais novo. Pede mais um chope e uma caipirinha de tangerina para Luna que não conseguia manter o porte altivo e imponente. Sentava-se como uma menininha entre dois gigantes.
“Quando partes?” “Não sei mais se parto ou se fico. Tudo é muito confuso para mim agora.” “Sabes que tem alguns de nós com quem não deves brincar. Creio que já falastes com todos? Ou não? Existem aqueles que são mais velhos e mais distantes e que não tens acesso. Não deves procurá-los. Tua jornada não se expande mais.” “O novo fala a verdade. A senhorita tem de saber o seu lugar. Ande à luz do Sol, se quiseres, mas tem de ter o limite das coisas.” Ela escutava, discordando mas incapaz de se defender. Sabia que o seu tempo ali havia terminado.
E partiria para São Paulo ainda hoje.
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