Egberto nunca curtiu esse lance de caraoquê. Sempre achou que era coisa de gente chata que bebe, não sabe cantar e se empolgava em pagar mico. Depois que assistiu ao “500 dias com ela” até se empolgou um tico para ver se encontrava a “sua” Zoey Deschanel na vida, mas desencanou. Zoey só tem uma – dizia, acomodado – e é muita areia para mim.
Certa feita, já alcoolizado, foi chamado para um boteco suspeito na Liberdade. Ingênuo, foi e caiu na arapuca. Sentou-se no lugar mais inacessível da mesa dos amigos e rezou aos deuses e espíritos alcoólicos que não o chamassem para o palco. Foi em vão. Chegou trôpego no palco e escolheu uma música ao acaso. Estava tão alterado que não via o público, ouvia o que acontecia ao seu redor e sequer tinha noção onde estava. Quando voltou a si, estava sentado de volta à mesa com olhares estupefatos voltados para sua expressão lacônica.
O amigo comentou. Nunca soube que você cantava Elis tão bem. Parecia até ela.
Aquilo ficou zanzando na sua cabeça até a semana seguinte. Ele não se lembrava de ter escolhido “Disparada” dela (do Jair Rodrigues, na verdade) e tampouco gostava daquela mocréia cocainômana suicida. Pelo contrário, era avesso à MPB de uma forma geral. Na verdade, era avesso à música num conceito mais amplo e irrestrito.
Não gostava de musicais, rádios, trilhas sonoras, o escambau. Bando de vagabundos que não tinha nada melhor para fazer, nada mais produtivo, pensava.
Movido pela curiosidade, voltou lá. Vou na terça porque é mais vazio e não corro risco de pagar mico. Se ferrou de novo. Se não estava lotado como no fim de semana, tinha uma turma barulhenta comemorando o aniversário de um deles. Sentou ao balcão e pediu um guaraná. Quando deu por si, estava descendo do palco sob aplausos e bises. Se tocou que estava com purpurina nos braços e no rosto. Nunca vi alguém interpretar a Clara Nunes tão bem, cara. Tu devia ir num show de calouros desses aí.
Clara Nunes? Que diabos…
Não se lembrava copiosamente de nada. Teve uma idéia. Deu mais uma semana e chamou o Marcão para voltar lá, ele é culpado disso tudo só podia ser, e colocou uma câmera fotográfica dessas que também filma vídeos na mão do sacana. Se eu subir no palco, você filma tudo. Fechado! Posso colocar no YouTube? Pode até enfiar no rabo depois que eu vir.
De novo, teto preto e palco. Marcão, boquiaberto, deu a câmera já desligada para ele. Se tu fosse preto não seria mais parecido com o Mussum. Cantou As Mariposa e emendou com Tragédia no Fundo do Mar. Virou para trás como num reflexo e só deu tempo de ver o grande, fabuloso e poderoso Antônio Carlos ir sumindo até sobrar apenas o seu sorriso. Ouviu no pé do ouvido. Cacildis, tu é muito manézis. Tocou a “fita” e não acreditou no que via.
Era um astro.
Tags: amigos, dia, foto, mpb, music, música, puc, semana, sono, vídeo