August 2, 2007 3

Essa generosa mesquinharia diária

By in textos, tribuna

publicado na Tribuna da Imprensa

Sei que Deus e o Diabo moram ali nos pequenos detalhes. Também sei que cada moeda economizada, cada grão do papo, cada contam. Mas me impressiona a forma que se perde a visão do todo quando o detalhe, cada ínfimo detalhe, é criticado.

Quer um exemplo? Os estão com uma modinha interessante de tirar diversas em macro ou com cortes esquisitos de paisagens urbanas e colocar nos seus álbuns digitais. Não acho feio, absolutamente, ou errado ou esquisito, mas não consigo deixar de pensar no resto que foi sonegado da imagem recortada. Um close numa flor, expondo os estames, me nega a visão do jardim ou da selva onde ele está plantada. Outro nos fios de um poste de luz esconde a poluição das centenas de volts que voam por nossas cabeças. Um terceiro registra um olhar triste e bonito, mas esconde as mãos ou o jeito que os pés da criatura estavam cruzados. E isso fala tanto da pessoa, cenário ou planta quanto o detalhe.

Eu adoraria que essa moda de -detalhe fosse o último suspiro do cartesianismo na nossa cultura. Mas não é, infelizmente.

No , as pequenas variações microcósmicas das vendas dos diversos produtos de entretenimento que vendemos são mapeadas e escrutinadas em seus detalhes mais íntimos. E ainda assim ficamos cegos com o comportamento de diversos produtos. Falta a visão do todo. Por sorte a equipe inteira tem isso em mente e consegue imaginar o gigante pelo dedo.

Normalmente isso seria encarado apenas como parte da nossa diária. Pra ser completamente sincero, isso é a totalidade da nossa . Mas o desespero no detalhe, a fúria pelo descontrole do mínimo, me assusta sobremaneira.

Eu fico pensando nas avós que ainda fazem crochê ou tricô. Eu fui criado numa onde as pessoas passavam parte do tempo embriagando a mente com raios catódicos e ocupando as mãos com agulha e linha. Eu até invejava as da minha que tinham aquela capacidade de se desdobrar em diversas atividades. Ainda tenho, aliás. Mas o caso é que cada nó, cada detalhe, era feito com a consciência do todo. Se fosse virar uma pantufa, as linhas estariam à mão, as agulhas certas também. E quando o erro mínimo era presente, elas olhavam para a obra, soltavam um sonoro palavrão e recomeçavam o trabalho sem mais estresse.

Não pretendo fazer um comparativo de marketing entre o tricô e os mercados digitais – o que seria até uma boa idéia para um desses feitos para empresários, com grandes e muitos, muitos gráficos que vão do nada ao lugar algum – mas na obsessão pelo detalhe, pelo mínimo.

Eu tive um professor de desenho que tinha um comportamento singular. Quando um aluno vinha estressado com algum pepino de algum projeto, ele dava o norte do que ele deveria fazer: trabalhar mais nas texturas, treinar mais as aguadas, exercitar o traço com o lápis ou caneta ou hidrocor. Quando o incauto e imaturo aluno tentava arrancar um algo mais dele, vinha o inevitável: “Caguei pro detalhe! Vai e faz!” No caso, era um “estímulo” para o moleque se virar e ralar um pouco mais, mas a intenção me marcou profundamente.

Dei essa volta prolixa para tentar ilustrar um ponto bem mais simples. O quanto de detalhe atrapalha a nossa felicidade que, por si, é efêmera. Que nó, ou “corte de percepção” estamos dando para nós mesmos para evitarmos uma realização?

Com essas dúvidas, eu me recolho e tento sonhar uma resposta.


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3 Responses to “Essa generosa mesquinharia diária”

  1. Gaborin says:

    Claro que não vou ficar com ele pq ele tem a barriguinha protuberante, por mais legaus que ele seja.
    Tb não vou passear de mão dada com aquela ali, mesmo porque com aquele cabelo ruim, queima filme passear no shopping, por mais inteligente que ela possa ser.
    Assim como não vou ser amigo de tal ou qual porque ele não tem um lap-top, por mais risadas que ele possa me proporcionar….
    Detalhes, mas que fazem a diferença para muitos e que também podem machucar o coração, que também é só um detalhe….

  2. rachel says:

    … é, concordo. mas também é por um ou por outro detalhe que a gente se enamora. depois pode até vir a amar o todo.
    .
    mas pra mim, o detalhe é fundamental.

  3. Morena says:

    e se o todo é todo detalhe?

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