November 25, 2005 1

Estado de Sítio

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Sempre tiveram um plano de contingência. No caso de alguma tropa ameaçar invadir o Rio de Janeiro, ocupariam o apartamento da Tonelero com Reública do Peru até tudo se acalmar e voltar à normalidade. O apartamento era discreto e ocupava um ponto estratégico em plena Copacabana. Era razoavelmente longe das favelas e das ruas mais movimentadas, apesar da entrada ser na própria Tonelero. A janela da sala tinha uma vista que permitia ver a “urbe” desde o Meridien até o Othon Palace. Do terraço do prédio era possível perceber a aproximação de tropas, caso chegassem, da praia ou mesmo pelo Morro de São João. Para relaxar nas noites quentes, dava para curtir o céu estrelado e a visão da praia quebrando eternamente.

Obviamente a localização fora estudada meses a fio antes dos conflitos se tornarem irreversíveis.

Ela tinha um dom para perceber quando havia uma tensão no ar, mesmo no nível internacional. Se houvesse uma loteria para guerras, ela já estaria milionária. Portanto, antes mesmo das forças invasoras se organizarem, ela já tinha tudo planejado. Tinha montado um estoque de arroz, carne seca, macarrão, sal, leite em pó, livros, CDs, DVDs e açúcar que lhes renderia três meses de sobrevivência. Justamente na em que os primeiros invasores declaram sua intenção de tomar o Sudeste Brasileiro.

Apesar das diferenças óbvias, eles funcionavam bem como dupla: ela, excelente em estratégia e análise de informações; ele, mestre de táticas e de sobrevivência em ambientes difíceis; ela, treinada pela inteligência da subversão das faculdades de ciências sociais; ele, o melhor que o CPOR e o IME poderia dar a um rapaz saudável e inteligente. Fossem outros os tempos, se odiariam. Nessa era de exceção, tornaram-se , colaboradores, simpatizantes, amantes e uma unidade de combate imbatível em área urbana. Nada os derrotaria enquanto estivessem juntos.

Nada mesmo.

Quando as primeiras forças desembarcaram efetivamente em Campos – provavelmente atraídas pelo petróleo local – eles já estavam instalados no seu bunker privado e dispostos a resistir. Não entrariam em combate franco ou aberto a princípio, sabiam que isso era inócuo se não houvesse uma coordenação por trás. Assim passaram algumas semanas esperando e analisando a movimentação das forças enquanto discutiam as melhores teses e táticas de resistência, ainda que estranhassem o silêncio que vinha das Laranjeiras. Nada se ouvia da Nova ou mesmo dos subúrbios, de onde se tomava a temperatura política do Rio de Janeiro.

Surpreendido pela velocidade e voracidade do inimigo que tomou Campos e todo o Norte Fluminense em menos de uma semana, o Governador declarou Estado de Sítio, fugiu para São Paulo e começou a organizar uma força de resistência. Em pouco tempo o combate se concentraria nas zonas Cariocas. O interior do Estado já estava perdido.

Para eles isso não era surpresa, aliás até contavam com isso. Sabiam que o inimigo tinha a vantagem da surpresa e da mobilidade. Quem não se rendia era assimilado à força. Muitos capitulavam ante a mera visão da força que se agigantava em suas terras.

Para enfrentar essas ameaças, sabiam que teriam apenas um ao outro. Nunca quiseram . “Não vai dar certo, tá tudo se fechando em cima da gente, você não vê?” Dizia ela para as amigas que cobravam o rebento. “Filho nesse mundo? Só se for para morrer com tiro ou para pegar em arma para matar.” Dizia ele para quem mais perguntasse.

Ela pensou em comprar um rifle ou uma pistola quando as tropas tomaram São Conrado e declararam a Zona Oeste território livre. Foi mais ou menos na mesma época que a Zona Norte caiu sob o controle das Milícias de Resistência e o combate franco se instaurou na Grajaú-Jacarepaguá. O Governador e sua foram “resgatados” do Palácio das Laranjeiras e agora estavam no centro do Governo Temporário de Governo em São Paulo, capital. Tropas da República foram deslocadas para defender o petróleo fluminense enquanto o antigo Distrito Federal ruía ante combates em avenidas asfaltadas ou em escaramuças noturnas. Aos poucos, ele a convenceu de que não era uma boa idéia. Nenhum dos dois atirava bem e, na pior das hipóteses, seriam mortos antes mesmo de pegar a arma. Melhor se esconder e se fazer de inofensivo, de apático mesmo.

E até que sobreviviam bem no meio da Zona de Guerra. Por um lado, se as atividades da “urbe” continuavam “normalizadas”, eles tinham de ser cada vez mais discretos quando tinham de repor matimentos ou tentavam ficar informados sobre as batalhas em andamento. Por sorte procuravam andar nos horários que passavam por cidadãos comuns, de segunda classe.

Nunca ficavam sós. Sabiam que, se um caísse, o outro não teria condições de sobreviver sozinho nessa terra de ninguém. Tiveram a prova cabal disso quando ele teve de “caçar” alguns remédios na farmácia na Xavier da Silveira e quase se viu em encontro aberto dos invasores com os resistentes.

Era um grupo pequeno, uns quatro pelo que notou, engravatados e sérios. Com uma aura de cacetice que drenava o glamour, o charme e a graça por onde passavam. Pareciam yuppies atávicos, herdeiros de centenas de anos de mau gosto e de cultura rasa. Não tinham estilo, criatividade, idéias ou mesmo carisma. Eram da Legião das Gravatas e portavam os seus MBAs, MBOs, PMIs e SPCs como quem banisse espíritos ruins. Nada se escutava de dentro de seus carros de luxo, com portas e tamanho desnecessários. Eram legítimos representantes de um oblívio moral.

Do outro lado, seis jovens que bebiam despreocupadamente. Mal notaram o inimigo se aproximando.No carro em que estavam encostados – uma pickup a diesel – ouvia-se uma espécie de batuque atonal, algo que remetia a um estado de hipnose frenética em que qualquer consciência ou senso crítico se perdia ante o ulular de vogais em versos surreais.

Ficou ali parado, indeciso, entre o void mental e o crasso medular. Olhava para um grupo, assustado com a possibilidade de nulidade de seu eu. Para outro, com da individualidade falsa, do coletivo pasteurizante.

Correu para já com os medicamentos e procurou, entre os resquícios de uma vida de consumo que tiveram eons antes, um par de fones de ouvido que se ligavam a um CD player. Selecionou um disco de suas músicas preferidas, catou um terno meio demodê e par de óculos escuros – espelhados, a bem da verdade – e declarou-se pronto para se mimetizar ante os invasores.

, acho que agora sobrevivo ao Centro da Cidade.”


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One Response to “Estado de Sítio”

  1. rodrigot says:

    Cara, morei na Tonelero com Republica do Peru, num predio com porta pra Tonelero mas com janela da sala (e do quarto) virada pra Republica do Peru durante 6 anos, com algum esforço dava pra ver a pontinha do Meridien, mas acho q vc nunca soube disso…

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