publicado na Tribuna da Imprensa
Algumas manhãs simplesmente não deveriam existir.
O sol que emoldura os que passam na rua fere a minha retina e amplifica o que a cidade tem de mais sórdido, decadente e desprezível. O ar, cuja umidade faz doer a faringe a cada inspiração, carrega as lembranças das cervejas mijadas nas esquinas e nas pequenas barracas esquecidas. Esse ar de banheiro a céu aberto é o que chamam de diversão os tolos e os incautos que azucrinam a paz das prostitutas e travestis que tentam ganhar a vida da forma mais antiga e honesta. Esses arautos da indústria do entretenimento é que me ensinaram a odiar os homens.
Irritam-me os vadios que comungam com a displicência que aplicam a si mesmos ao se entregar às indulgências hedonistas das noites e garrafas viradas. Não pensam no futuro e se alijam da realidade em torno de si, fugindo da dor que é enxergar o mundo com lucidez. Covardes! Mas me irritam mais os sóbrios que apontam rijos dígitos os pecados que gostariam de estar cometendo naquele exato momento. Irrita-me a inveja que os move a boca, a língua e ao defunto que se supunha estar enterrado dentro de suas cuecas.
Enervam-me os parvos que são incapazes de entender as verdades mais simples, apesar de todos os esforços de se levar à compreensão. Mesmo que o universo viesse em pessoa e lhes ensinasse o bê-á-bá cósmico, esses néscios continuariam a crer nos seus livros datados, nos seus saberes embolorados, nas suas personagens sem vida ou brilho. Porém, não me enervam tanto como os esclarecidos que têm a pachorra de ousar entender os mistérios das coisas, de destruir o encanto do que é arcano, transformando em retórica e lógica estéril uma poesia milenar. Esses ousam ser capazes de resumir o mundo a meia dúzia de linhas e chafurdam no próprio academicismo.
Enfurecem-me os intolerantes. Não entendem o outro lado, não conseguem se dar o benefício da dúvida e são portadores das certezas da vida. Grasnam que, se lhes ouvissem, as coisas dariam certo, funcionariam melhor e o mundo seria um novo Éden. São os donos da razão e nunca se enganam em coisa alguma. Opinam sobre tudo e são absolutos. Contudo, pior são os que não têm certeza alguma, imersos na dúvida. Para esses, o “tanto faz” é o refúgio definitivo do esforço de criticar.
Transtornam-me os artistas que acham que são gênios. Com esses eu sequer argumento já que são incapazes de ver além do palmo à frente de seu ego. Eles não têm a capacidade de entender o outro e o público é que tem de se dobrar para compreendê-los. Esquecem-se que sem a platéia, sua obra é inócua, estéril, anaeróbica. Mas o que me transtorna mais são aqueles artesãos da opinião subreptícia, os mestres dos clichês e da cultura de consumo que ousam chamar de arte a sua cópia de quinta de uma idéia de terceira. Esses ganham prêmios e salários.
Desespero-me com essa corja humana que me cerca, pois enxergo em cada um deles um pedaço íntimo de mim mesmo, como se fossem um retalho de minhas essências. Cacos reflexivos de uma imagem que sofro em negar a cada manhã que não deveria existir. Imagens que não deveriam ser reproduzidas.
Pois eu já quebrei os espelhos da minha casa ao acordar.
Tags: aleatórios, amar, casa, cerveja, céu, cidade, das coisas, dia, imagens, livro, livros, sol, sono, tesão, tribuna da imprensa
covardes! asquerosos!
É foda, neguinho abusa mesmo.