- pós beach boys
Eram três amigos: o Grande, o Gordo e o Burro. Grande era chamado assim porque brincava com todos sobre sua estatura. Era pequeno, bem pequeno. Todo miúdo mesmo. “Eu gosto de armas grandes porque meu pau é curto!” Dizia, ao escolher uma Zweihandder como arma preferida do seu personagem de RPG da semana ou uma M249 no CounterStrike. Fazia isso de brincadeira, é claro. Daquelas brincadeiras que só três amigos entenderiam. A maior parte do papo deles era essa troca de sacanagens sadias que os entretetinham por horas e horas a fio na mesa de bar.
Gordo era o mais calado e o mais sacana dos três. Seus comentários lacônicos eram devastadores. Quase monossilábico, se expressava melhor bebendo, comendo ou rasgando fichas de personagens de RPG. Homofóbico, direitista e anti-estético, era a lady do trio. De certo chorava em propaganda de sabonete com crianças e era o mais empolgado quando saiu da primeira sessão que assitiu do “Sociedade dos Poetas Mortos”. Escondeu lágrimas e soluços no “A Lista de Schindler”. Gordo era assim.
Burro era o falastrão. De prima, diziam que era um gênio. Trabalhava desde os doze anos com programação. Sabia falar de todo e qualquer assunto que pintava em qualquer grupo social. Dizia que não discutia, sofismava. Não debatia, praticava a maiêutica. Enciclopédico, citava duzentos autores sem se repetir. Normalmente ele inventava as citações e os autores na hora. Estranhos se impressionavam com a verborragia e recolhiam as suas armas no embate verbal. “Cara, não sabia que você já tinha usado um mac em 82.” “O mac foi inventado em 84. Eu menti.”
Burro vivia apaixonado. Não aprendia. Mas sempre estava ali, na guerra. Não perdia uma saída com as amigas baranguetes para ver se sobrava uma rapa. Um beijinho na boca de uma menina caída de bêbada que fosse. Mas sempre apaixonado por sua musa, Vênus. Cabelos negros, pele bem branca, olhos negros. Boca vermelha. Fazia merda sobre merda por conta disso, enchia os cornos, pagava paixão em público, cometia poesias. Até pro teatro entrou!
Gordo era um platônico. Apaixonado pela primeira namorada, ainda quando era mais magro, nunca a esquecera. As outras mulheres podiam sentar no seu colo que ele não reagia. Não se sabia se era por medo, timidez ou por inabilidade. Não interessava. Os outros tinham já o seu veredito. “Veado!” Diziam da boca para fora mas sabiam que, no íntimo, Gordo ainda sangrava aquele amor mal-acabado. E nunca iria passar a dor.
Pequero era mais safo com as meninas. Só cantava as lindas, maravilhosas, perfeitas e inatingíveis. Portanto o seu fracasso era mais coroado de méritos, ainda sendo derrotado em cada batalha do bom combate. Juntava-se com Gordo para sacanear Burro nas tentativas de ficar com as mais desarrumadas, desconjuntadas e disformes, mas sabia que Burro tava certo. Ao menos nisso. E sonhava com uma paixão verdadeira, um grande amor.
Cada um foi pro seu canto, ainda que se vissem com regularidade. Gordo foi morar em São Paulo, Burro se formou em Ciência da Computação e Grande virou arquiteto e engenheiro civil. Regularmente viajavam para Sama para zoar Gordo e beber todo o álcool possível daquela cidade.
O tempo foi passando e as viagens começaram a rarear. Gordo casara. “Paulista é muito esquisito mesmo, né Grande?” “Pela primeira vez na vida, concordo contigo.” Cada um foi traçando rumo, trabalhando, estudando, namorando (!) e, eventualmente, saindo para beber.
Nas raras viagens de Gordo de Sampa pro Rio, eles davam um jeito de se encontrar em um boteco novo, previamente aprovado pela seleção de cervejas, petiscos e freqüência feminina, ou apelavam para o bom e velho Sindicato do Chope, na Farme de Amoedo.
“Putaquepariu, caralho. Vocês só vão em bar de veado!” “Porra, o chope lá é bom, e tem história.” “O chope de lá é uma merda, a serpentina tem menos de quinze metros, que é o mínimo aceitável para o líquido sair a quatro graus centígrados que dá tempo para chegar na mesa a dez. Temperatura perfeita para o consumo.” “Ah! Não fode, Burro!” “Burro tá certo. O chope de lá é ruim e só tem veado. Vamos no Bar do Beto.” “Baixo Gávea, então.” “Chope ruim.” “É chope ruim.” “Com gosto de ferrugem.”
Acabavam indo para o Hipódromo mesmo.
Já fazia uns bons ano e meio que não se encontravam. Muito trabalho e email trocado era só de putaria mesmo. RPG não rolava mais. Nem com Burro insistindo para jogar “a nova versão do World of Darkness” ou “no relançamento do do Dungeons and Dragons”. Burro criara um blog pros três, mas pouco postavam por conta de trabalho de cada um mesmo.
Numa tarde, Gordo liga pro Grande: “Tô chegando hoje. Avisa ao viado do Burro que estou na área.” “E a esposa?” “Ex-!” “É ex-posa? HAAHAHAH Tomou pé no cú, cara?” “…” “Er… bom. Te espero no aeroporto. Me liga quando chegar. Tô trabalhando do lado do Santos Dummont.”
Chegou. Foi pego e fez hora no escritório. Gordo tinha um semblante mais fechado, mais triste que de costume. Falou palavra desde que se alojou na frente de um computador que estava vazio. Grande ligou para Burro que confirmou a reserva no Devassa da Barra. “Mas tem de chegar antes das nove senão perdemos o lugar. A serpentina lá tem vinte e cinco metros e a cerveja stout…” “Tá! Tá! Sete e meia passo aí. Gordo se separou. Tá aqui, macambúzio e sorumbático.” “Pô. Não é melhor marcar na Centaurus?” “Porra Burro!” “Sei lá. Vai que ele quer levar seis pra cabine e ficar vendo as meninas correrem peladas dentro do quarto.” “Vamos beber antes. Depois vemos o que rola.”
Chegaram às oito e meia. Mesa boa, dava para ver todo o salão. “Desce três negras. Vocês vão ver! Parece uma Guiness: cermosa, consistente. Uma delícia! Garçom, não deixa o copo secar! Principalmente do meu amigo aqui, esse mais fortinho! Fala alguma coisa, Gordo! Olha lá aquela morena. Ela deve entender do traçado!” “Cala a boca Burro! Porra, não tá vendo que o cara tá maus. Fala Gordo. Como foi a história?” Os dois se calaram e olharam pro Gordo que não tirava a cara inexpressível de quem joga pôquer com a vida. Secou o primeiro chope numa virada. Abriu o menu. Apontou pro garçom uma cachaça. “Traz uma garrafa.” Garçom trouxe e Gordo começou o trabalho.
Fim de noite, Gordo bêbado, Burro bêbado e Grande puto da vida porque tinha de levar os dois para casa.
Eles saindo do Devassa, já quase entrando no carro, param para Gordo vomitar. Burro toma um ar e vê, dentro do bar, dois rostos conhecidos. “Caralho, Grande!” “Eu vi. Vambora.” “Não. É ela!” “Vambora. Isso não vai te fazer bem. Eu tenho um mau pressentimento.” “Tenho de ir lá! Gordo! É ela!” Gordo levanta-se, limpa a baba e recupera-se de pronto. “Luna!” “Putaquepariu. Isso vai dar merda! Pronto. Já deu.”
Grande ficou olhando Gordo e Burro cambalearem para dentro do bar e sentarem-se na mesa das duas. Luna e Vênus. As duas interromperam o beijo e, meio assustadas e meio divertidas olharam as figuras patéticas se acomodarem. Burro, tentando ser galante apesar do álcool e da história; Gordo, apenas mantendo o cenho cerrado, como se criasse uma barragem entre si e ela.
Grande ficou do lado de fora, procurando o telefone no amigo delegado, já prevendo alguma confusão com os seguranças. Espantado, viu as duas se levantarem rindo e os dois pedirem algo ao garçom. Elas saíram do bar e foram até ele. Vênus deu-lhe um beijo na boca. Luna sussurrou-lhe: “Quem teme, não goza.”
Ambas pegaram um taxi que se fundiu à noite.
Grande sentou-se à mesa e juntou-se às libações.
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Isso ficou *muito* bom!