pós The Beatles
A música ainda ressoava nos tímpanos quando ele resoveu ligar para a moça. Os The Beatles sempre foram o seu oráculo pessoal quando se tratava de flertar ou não com a colega da faculdade, mandar ou não flores para amiga por quem sentia um tesão especial ou ligar para a ex-foda-fixa que tinha descartado no mês passado.
Bastava ouvir os acordes de “I want you (She’s So Heavy)” que entumecia-se todo ao se lembrar de Marcela. Entumecia-se mesmo. Não tinha nada de paixão ou amor ou de carinho ali. Era um tesão animal, descontrolado. Mas só quando ouvia os mesmos acordes finais da guitarra, baixos, cadentes, marciais e o John falando “she’s so heavy. heavy.”
Ele se lembrava no mesmo momento de calcinhas no chão, de cheiro de perfume caro, de camisinhas apressadas e encaixar coxas à sua cintura. Sentia a umidade permissiva na hora que ouvia as linhas de baixo do Paul e a canção tinha a duração correta para o coito inteiro. Do “oi, tudo bem” ao “deu deu, acabei”. Sete minutos e quarenta e sete segundos. O suficiente para o rapaz ver a menina virar os olhos cheios de desprezo e dizer “nunca mais, viu? nunca mais”.
Aí passava-se mais uma semana, um mês, quarenta e cinco dias, no máximo. Ele colocava Abbey Road no tocador de emipetrês e pronto. Mais uma vez, mais uma vez.
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