Não era afeito a comemorações anuais. Detestava o próprio aniversário, mas não revelava os motivos para isso. Alguns amigos mais chegados se lembravam de um ou outro caso que ele não comemorara por conta de um acidente, de uma doença em casa ou por um desamor. Mas o que importava é que o dia dos seus anos não era motivo de festas fazia várias décadas. Normalmente chamava os amigos para um boteco, bebia até ficar pronto para ser internado e ia carregado para a emergência de algum hospital.
Era essa a sua “tradição” e os amigos a respeitavam.
Então era assim, chegava em meados do mês do início do ano e ele começava a se coçar pensando em o que aconteceria. No que a Roda da Fortuna estaria reservando para essa data, desta vez, neste ano. Pensava: “Ano passado foi bom. Veio a restituição atrasada e deu para pagar as dívidas. Comprei um DVD com o troco. Ainda rolou um bom dinheiro das aplicações e teve aquele bônus inesperado. No anterior foi ruim mas não foi horrível. O caçula quebrou a perna nas vésperas e tivemos de ficar no hospital revezando. Ao menos comemos bolo no hospital e foi engraçado vê-lo se lambuzar na cama. Passamos uma boa semana juntos. No anterior sim, foi horroroso. Desemprego, divórcio, ermitão social.”
Súbito, uma idéia! Preparou um textinho para anexar a um email e disparou na sua lista de contatos. Depois pegou os endereços de verdade de todos que confirmaram a ida e enviou um convite pessoal e intransferível. Chamou a todos: os amigos, os conhecidos, os colegas, os contatos de trabalho, os inimigos, os desafetos, aqueles e aquelas que amou e todos os que o odiavam. Conseguiu alugar um salão no clube e fechou com um buffet a organização das comidas e bebidas. Aliás, muitas bebidas. Um horror de bebidas.
Ao chegar, os convidados eram conduzidos a locais marcados em amplas mesas elegantemente decoradas. Alguns acharam divertido já que ele era famoso por preferir botequins a restaurantes, puteiros a boates. Normalmente ele mesmo desdenharia de festas tão bem organizadas ou tão requintadas.
Mas lá estavam garçons, maitres, convidados, disk-jóqueis e todo o tipo de fauna que é esperada numa festa deste porte. Menos o personagem principal.
Em off, numa voz metálica, abafada pelas caixas de som, ouviu-se à meia noite:
“Estamos aqui para comemorar o término do meu quadragésimo quinto ano. E para isso convido a todos a expor o que há de pior em cada um. Pois o bem próprio já é público e notório. Deixemos fora desse bar todas as convenções sociais e as boas qualidades e maneiras.
Já as temos de carregar em todas as nossas relações no dia-a-dia. Nesse evento onde comemoro a morte do ano que se finda, enterremos também todas as nossas máscaras, todas as nossas apatias, as nossas pequenenezes, falsidades, dissimulações. Dispamo-nos de nossos preconceitos, medos e ansiedades. Aguardemos a liberdade que o álcool nos proporciona para deixarmos toda e qualquer inibição ir-se com os espíritos que libertamos de suas garrafas. Deixemos Baco falar por nossas bocas e que inspirações dionísicas nos guiem noite adentro. Que a bile seja o nosso juiz, júri e executor nessa madrugada!”
Discretamente o staff retirou-se e as portas foram lacradas. De início, algumas pessoas surtaram, ficaram nervosas, exigiram sair. Até alguém notar que no convite impresso estava lá escrito: “Entrada: 21h00. Término: 6h00. Inexoravelmente.” Uns ameaçaram processo, outros de morte. Já os mais conformados abriram as champanhes.
Foi o bacanal do século. Pena que ninguém tirou foto ou fez gravação em fita. Não houve quem não ficasse nú em algum momento da folia.
Ele, de uma sala discreta, com vista privilegiada da orgia, concluiu: “Acho que vai ser um ano bom, no final das contas.”
A gente recebe aquilo que dá.
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