November 5, 2005 0

Como ser inconspícuo em três lições

By in textos

Grande sempre fora o mais discreto e o mais festeiro da turma. Aprontava e envolvia-se em tantas ou mais confusões que os outros mas mantinha um low profile que invejava a todos. Sempre que as mães, namoradas, amigas ou mesmo conhecidos os criticavam por um vexame ou um comportamento inadequado, tomavam-no como exemplo: “Nunca que o Grande vomitaria no sofá da sua tia.” “O Grande não fica apalpando as amigas da namorada. Aliás ele apresenta a namorada, não uma ‘essa é uma amiga’.” “Aquele seu amigo (o Grande né?) tem opinião. É, definitivamente, uma pessoa de caráter.”

Na verdade, Grande media muito bem as palavras que usava e os gestos que praticava. Não que racionalizasse cada gesto, era mais como uma programação em backlog que ele “rodava” na sua cabeça. Era quase que inconsciente o processo de se colocar nos eventos sociais. Ele mesmo dizia apenas que tinha “compostura”. Apenas isso.

Mas para quem era mais próximo, Grande não era essa flor toda. Só que, além de Burro e Gordo, apenas um punhado de pessoas poderiam ser chamadas de próximas. Então ele conseguia circular bem entre as mais diversas esferas. Era uma vernissage de um de designers ali, uma recepção no Palácio da Guanabara ali, uma inauguração de uma obra acolá ou um coquetel de abertura de evento em algum museu no Centro do . Acima de tudo, Grande era um . Sabia estar nos locais certos, com as pessoas exatas, ser visto sem ser destacado, ser comentado sem ser criticado. Era um social monster e tinha, como poucos, a manha da coisa.

Retirado o Manto de Invisibilidade, não era diferente dos demais mortais. Pisava na bola, fazia escolhas erradas, dava vexame como qualquer outro. Mas esses “pecados”, mesmo os mais escatológicos, ele conseguia transformar em um tipo de piada, como se fosse uma anedota de uma outra pessoa, um causo de um terceiro. Não poderia ser o Grande que se esmerdalhara durante uma reunião com o presidente da Coca-Cola. Nunca poderia ser o Grande que vomitara em cima daquela modelo de lábios grossos – “lábios superiores! Superiores, Gordo!” – durante a festa daquele deputado famosíssimo. Jamais o Grande!

De todas as vilanias possíveis, só uma o Grande nunca praticara.

Por isso a turma toda se calou quando Gordo exclamou na mesa: “PORRA, GRANDE! TU TÁ APAIXONADO!” “Caralho, Gordo, cala a boca!” “NÃO, PORRA! TU TÁ APAIXONADO!” “TO PORRA NENHUMA!” “TÁ SIM TÁ BRILHANU US ZOINHO, AÍ! Hahahahahahaha…” Em plena cantina da Don’Ana, cercado de artistas que saíram do SESC e pseudo-famosos que ficavam moscando os diretores e globais que paravam ali para comer o penne al pesto e lendária torta alemã.

O riso do Gordo morrera aos poucos na medida que viu que a graça da situação só era percebida por ele e por Burro que já tinha corrido para o banheiro para não mijar nas calças. Parecia que as pessoas da mesa não entendiam a graça que poderia haver numa pessoa apaixonada. Ora, sabe-se bem que todos os apaixonados são risíveis, são patéticos. Só quem está apaixonado ou tem um outro tipo de antolho mental é que não percebe isso, não é mesmo? Pois bem, Gordo ficara um pouco constrangido e, em defesa, manda todos à merda, paga a conta dos três e arrasta Burro e Grande dali. Susi e Fabi, que tinham sido arrastadas sob a promessa da presença de dois coreógrafos franceses que terminaram a temporada de , levantaram-se em solidariedade. Queriam trocar umas figurinhas e, quem sabe, arrumar alguma diversão para o fim de noite, já que o papo com os dançarinos franceses não se desenvolveu de forma satisfatória.

Saíram os cinco por fim, pararam no Istambul para papear. “Contaí dessa paixão, Grande.” “Não tem muito para contar, Fabi.” “Conta esse pouco. Apresenta a menina.” “Não posso Burro, não rola. Ela é inapresentável.” Os rapazes calaram-se. Já sabiam do que se tratava.

Seis uísques depois, Grande já estava pronto para vomitar a sua história.

“Pois é. Já faz quatro meses que acabamos o namoro e eu achava que iria cair na esbórnia com a mulherada. Achei errado. Andava muxibento, sorumbático, macambúzio mesmo. Nada de farras com os ingleses, nem com os mexicanos. Acabei apelando para uma profissional do ramo…” Suzi e Fabi se entreolharam complacentes, se sentido superiores e aviltadas ao mesmo tempo. “… liguei para uma que me foi recomendada por um amigo, que é um connoisseur desse tipo de regalia e fui encontrá-la naquele hotel perto da Sães Peña, o VIP. Chegando, me peguei de quatro. A menina era LINDA. Simpática. Elegante. Inteligente. Tava na vida para poder pagar a faculdade de Medicina, já que era formada em e enfermagem. Na cama, um espetáculo. Pendurei-me no lustre e tudo. Estou quebrado até hoje.” “Mas até aí não há novidades. Temos dezenas de casos semelhantes. Profissionais que fazem jus a cada centavo gasto, traduzindo-os em quebra de ATP em ADP e em gozo no final do processo. Legítimas fodas bem dadas.” “Porra Burro, é claro que nisso não tem novidade. O problema é que nos entremeios ficávamos olhando-nos um nos olhos dos outros.” “Encarou a fera no olho. Não pode.” “É, Gordo, não pode. Mas encarei como encarava antes qualquer outra. E ela me veio com a velha conversa: ‘você é diferente. Você é tão meigo, tão carinhoso.’ E eu: ‘Você gostaria de sair comigo? Fora de um programa?’ ‘Claro!’ E a merda, a grandessíssima merda é que acreditei lá dentro em tudo que ela disse. Eu quis acreditar e ainda espero uma ligação dela. To apaixonado por uma puta sem nome.”

Os cinco ficaram sem falar um bocado até o garçom trazer a conta.


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