August 26, 2005 1

As Três Faces da Vítima – por Lynne Forrest

By in citações

traduzido por Tatiana Leão

http://lynneforrest.com/html/the_faces_of_victim.html

A maioria de nós reage inconscientemente à vida através de uma posição de vítima. Sempre que nos recusamos a assumir responsabilidade por nós mesmos, nós escolhemos ser vítimas. Isso faz com que nos sintamos à mercê, traídos e injustiçados, não importando em qual situação estejamos.

O processo de auto-vitimização consiste em três papéis descritos por Stephen Karpman, um professor de Análise Transacional, no que ele chamou de o “Triângulo do Drama”. Tendo tido contato com esta teoria há mais de trinta anos, ela se tornou uma das mais importantes ferramentas em minha vida pessoal e profissional. Quanto mais meu conhecimento acerca do Triângulo do Drama se expandia, mais crescia a minha admiração por este instrumento poderosamente acurado, ainda que simples. Eu o chamo de “máquina da culpa” pois através dela nós inconscientemente atuamos em nossos ciclos viciosos, causando-nos culpa. Toda interação disfuncional acontece dentro do Triângulo do Drama! Até que nos conscientizemos dessas dinâmicas, não conseguimos transformá-las. Até que as transformemos, não conseguimos seguir em frente em nossa jornada para a reconquista de nosso patrimônio espiritual.

Karpman nomeou os três papéis no Triângulo do Drama Perseguidor, Salvador e Vítima, e os colocou em um triângulo invertido representando as três faces da vítima. Apesar de somente um dos papéis se chamar Vítima, todos três se originam e terminam nele. Portanto, todos são paradas na estrada da auto-vitimização. Cada um de nós é mais familiar com um papel, que chamo de posição inicial.

victim - persecutor - rescuer triangle

Nós aprendemos nossa posição inicial dentro da nossa família. Apesar de cada um de nós ter um papel com o qual mais nos identificamos, nós também atuamos em outros papéis, rodando o triângulo, por vezes em questão de minutos, ou até mesmo segundos, várias vezes por .

É muito difícil enxergar a nós mesmos (e a outros) como vítimas quando estamos em uma posição de tomar cuidado ou culpar os próximos. De qualquer forma, o Salvador e o Perseguidor são os dois extremos opostos do papel. Isto porque todos os papéis simplesmente irão, em um momento ou outro, levar novamente ao papel de vítima. É inevitável.

Você pode perceber que tanto o Perseguidor quanto o Salvador estão nos vértices superiores do triângulo. Sempre que assumimos alguma dessas posições, nós estamos subindo um passo. De qualquer uma das duas posições, nós nos colocamos como melhores, mais fortes, mais inteligentes ou mais equilibrados do que a vítima. Mais cedo ou mais tarde, a vítima, que se encontra em posição inferior, desenvolve uma “dor no pescoço” de tanto ser forçado a olhar para cima, metaforicamente falando. Sentindo-se inferiorizado, surge o ressentimento e alguma forma de retaliação invariavelmente se forma. É neste ponto em que a vítima passa a ocupar o papel de perseguidor. Remanescente de uma jogo-das-cadeiras sem música, todos os jogadores, uma hora ou outra, mudam de posição.

Um exemplo: Papai chega em e encontra Mamãe dando uma grande bronca no Júnior, com ameaças como: “Arrume esse quarto ou…”. Ele imediatamente vem para salvar: “Mamãe, pegue leve com o garoto”. Muitas possibilidades poderiam seguir este cenário. Talvez Mamãe, se sentindo vitimizada pelo papai, se vira contra ele, automaticamente colocando-o no papel de vítima. Eles poderiam dar algumas voltas no triângulo tendo Júnior como coadjuvante. Ou talvez Júnior se junte ao Papai, em uma perseguição: “Vamos ficar contra a Mamãe!”, e então eles criariam o triângulo em outro ângulo. Ou Júnior poderia virar a casaca contra Papai, salvando a mamãe: “Fica na sua, Papai, eu não preciso da sua ajuda!”. E assim vai, com inúmeras possibilidades, mas sempre dando a volta no triângulo. Para muitas famílias, esta é a única forma através da qual conseguem se comunicar.

Todos temos uma posição inicial no Triângulo do Drama. Esta posição inicial não é somente aquela na qual mais freqüentemente nos encontramos, mas também o papel através do qual nós nos definimos; uma parte muito extensa de nossa identidade. Cada posição inicial se origina de um tema familiar recorrente e se move em volta do triângulo de forma particular.

Por exemplo: apesar de por vezes nos encontrarmos na posição de vítima no triângulo, a posição de Salvador (daqui por diante as posições iniciais terão a primeira letra em maiúsculas, para diferenciá-las do movimento através de um dos papéis) se movimenta para a posição de vítima e perseguidor de uma forma muito diferente de primordiais Perseguidor ou Vítima.

O Salvador se torna vítima vestindo a carapuça de mártir (“Depois de tudo que eu fiz por você…”), enquanto o Perseguidor se vitimiza como forma de justificar vingança (“Se não fosse por você, eu não teria tido que…”). Enquanto o Salvador persegue privando a vítima de seus cuidados e atenção, um Perseguidor salva de forma quase tão dolorosa quanto quando está em modo de ataque. E uma pessoa cuja posição inicial é a de Vítima é perpetuamente digna de pena e incapaz. Até sua forma de salvamento é inferior! (“Você é o único que pode me ajudar, porque é tão talentoso, ou inteligente, ou…!”)

Nossas posições iniciais geralmente se formam na infância. Por exemplo, se um dos pais é superprotetor, fazendo tudo por um filho, essa criança pode crescer se sentindo incapaz de tomar conta de si próprias. Isto as coloca no papel de Vítima por toda a vida. Ou, de forma oposta: ela pode acabar sentindo raiva e se tornando vingativa se outras pessoas não tomarem conta delas, portanto adotando a posição inicial de Perseguidores.

Há muitas variações, e cada caso deve ser considerado individualmente.

Nós não somente atuamos nesses papéis triangularmente distorcidos em nossas relações diárias com outras pessoas, mas também internamente. Nós damos a volta no triângulo em nossa mente tão rápido quanto o fazemos em relação ao mundo exterior. Nós caímos em nossa própria armadilha com um diálogo interno desonesto e disfuncional. Talvez nos enxerguemos como sendo preguiçosos, inadequados ou defeituosos, causando uma espiral de sentimentos de raiva e auto-desvalorização. Internamente, ficamos acovardados por esta voz perseguidora, com de que ela esteja realmente certa. Você pode enxergar a interação perseguidor/vítima neste exemplo? Assim que começamos a nos culpar ou insultar, uma vítima é gerada. E, neste caso, nós mesmos somos esta vítima! Isto pode continuar por minutos, horas ou dias mas, mais cedo ou mais tarde, uma voz em nós virá para nos salvar. Como estamos nos sentindo mal e precisamos de alívio, começamos a criar desculpas: “Bem, eu teria conseguido terminar aquele projeto se não fosse por causa de…”, poderíamos dizer. E assim nos colocaríamos na posição de salvadores.

Por vezes salvamos a nós mesmos (e aos outros) negando o que sabemos: “Se eu olhar para o outro lado e fingir que isto não está acontecendo, isto deixará de acontecer”, como uma tática. Estes dramas internos perpetuam ciclos viciosos de espirais de culpa e auto-comiseração.

De forma semelhante a um gerador produzindo energia, o Triângulo do Drama gera culpa. Seja pela interação interna ou comunicação externa, circular pelo triângulo mantém as mensagens distorcidas em fluxo. O Triângulo do Drama se torna a nossa própria máquina de culpa. A boa notícia é que nós podemos fazer algo a respeito dela. Todos nós temos de aprender como desligá-la para conseguirmos sair do triângulo. É um remédio simples, apesar de difícil.

Antes que saiamos do triângulo temos de reconhecer e desejar abrir mão do drama que ele produz. Temos de, primeiramente, tornar-nos intimamente conhecedores dos preços e barganhas de cada parada no caminho da auto-vitimização. Isso nos possibilitará não somente reconhecer os vários papéis, mas também avaliar realisticamente as conseqüências de estar atuando em qualquer um deles.

Identificar a e a movimentação de cada papel nos ajuda ainda mais a perceber quando estamos sendo envolvidos por outras pessoas em um triângulo. Com esta percepção, nós podemos escolher se queremos ou não dançar a música vergonhosa da vítima. Com isto em mente, vamos examinar cada papel cuidadosamente.

SALVADOR

O papel de Salvador é o princípio da sombra maternal. É a reação tipicamente co-dependente que chamamos de “sufocante”. É uma versão distorcida do aspecto feminino que deseja nutrir e proteger. O Salvador é o capacitante, protetor, mediador; aquele que deseja “consertar” os problemas. Obviamente, antes que o Salvador possa remediar um problema, é necessário que exista um problema.

Parte do problema do salvamento é que ele vem de uma necessidade inconsciente de sentir-se importante ou estabelecer-se como aquele que resgata. Cuidar dos outros é a única forma que um Salvador conhece de conectar-se aos outros e sentir que tem valor. Salvadores geralmente cresceram em famílias onde eram inferiorizados e humilhados por terem necessidades. Eles aprenderam então a negar estas necessidades, cuidando dos outros ao invés disso. Isso faz com que seja essencial ter quem dependa deles.

Muitas vezes os Salvadores operam na esperança de que, se eles tomarem conta dos outros bem o suficiente eles terão sua vez de serem cuidados. Infelizmente, isso raramente acontece. Em geral, o desapontamento que se resulta causa um empurrão para a depressão. Martirização e depressão marcam a fase de vitimização de um Salvador ao redor do triângulo. É neste ponto que se pode ouvi-los dizer coisas como “É isto que eu ganho, depois de tudo que fiz por você”, “Não importa o quanto eu faça, nunca é suficiente” ou “Se você realmente me amasse, me apoiaria mais”.

O maior medo de um Salvador é que não haja ninguém para eles. Eles compensam essa ansiedade afirmando seu posicionamento de estar sempre lá pelos outros, encorajando dependência. Tornar-se indispensáveis torna-se a forma primordial de evitar o abandono e lhe dá a validação de suas ações.

Salvadores não se dão por conta da dependência castradora que alimentam quando cuidam daqueles que dependem dele. Através destas táticas, eles criam mensagens incapacitantes. Todos os envolvidos acabam por se convencer de que a Vítima é incapaz, inadequada ou defeituosa, assim reforçando a necessidade de cuidado constante. O trabalho do Salvador se torna, então, cuidar da Vítima, “para seu próprio bem”, claro.

Ter uma Vítima de quem cuidar é essencial para que o Salvador mantenha a ilusão de ser superior e independente. Isso significa então que sempre haverá pelo menos uma pessoa no cerne da vida de cada Salvador que é doente, frágil, inapta e que necessita de seus cuidados.

Beatriz cresceu vendo sua mãe como indefesa e impotente. Desde muito nova, ela sentia uma grande responsabilidade de cuidar de sua mãe fragilizada. Seu próprio bem-estar dependia disso! Ou então como ela, uma criança pequena, poderia continuar? Com o passar dos anos, no entanto, ela mal conseguia conter o ódio que sentia de sua mãe por ser tão carente e fraca. Como uma pessoa na posição inicial de Salvadora, ela fez tudo o que pode para ajudar sua mãe, somente para sentir-se cada vez mais anulada (vítima) pois nada que ela fazia funcionava. Inevitavelmente o ressentimento tomava conta dela, levando-a a tratar sua mãe com desprezo (perseguidora). Tudo isto tornou-se seu padrão primordial de interação, não somente com sua mãe, mas em todas as suas relações. Quando eu a conheci, ela estava emocional, fisicamente e espiritualmente exausta de ter sua vida tomando conta de uma pessoa doente e dependente após a outra.

PERSEGUIDOR

Assim como os outros papéis, o Perseguidor se baseia na culpa. É o tipo de raiva encharcado de culpa que resulta de haver crescido sobrecarregado de desprezo. Perseguidores há muito reprimiram suas convicções de auto-desvalorização, cobrindo-os com ódio indignado e uma atitude de desprezo.

Da mesma forma que o Salvador é o princípio da sombra materna, este papel é o princípio da sombra paterna. A função benéfica do pai é proteger e prover sua família. O papel do Perseguidor é a perversão desta energia, que tenta “reformar” através da força. Este papel é tomado por alguém que aprendeu a ter suas necessidades atendidas através de métodos autoritários, controladores e até mesmo punitivos. O Perseguidor se livra do sentimento de culpa colocando poder em outros. Dominação torna-se sua forma prevalente de interação. Isso significa que eles têm de estar sempre certos! Técnicas incluem pregar, culpar, palestrar, interrogar e atacar. Eles acreditam em “ficar quites”, geralmente através de atos passivo-agressivos.

Tanto quanto o Salvador desejar “consertar” alguém, o Perseguidor precisa de alguém para culpar! Perseguidores renegam suas fraquezas da mesma forma que Salvadores renegam suas necessidades. Seu maior medo é a impotência. Negando seu próprio estado de fraqueza, eles têm uma necessidade constante de alguém em quem eles possam projetar suas próprias inadequações. Tanto os Salvadores quanto os Perseguidores precisam, assim, de uma Vítima para sustentar seu lugar no triângulo.

Perseguidores tendem a compensar seus sentimentos de pouca valia dando-se ares de grandiosidade. Grandiosidade inevitavelmente é gerada pela culpa. Ela provê compensação e disfarce para um grande sentimento de inferioridade. Superioridade é como passar direto por “menos que” para tornar-se “mais que”.

Lembro-me de um cliente, um médico que personificava a mentalidade do perseguidor. Ele realmente pensava que machucar os outros era justificado como uma compensação de sua própria dor. Uma vez, em uma sessão, ele me contou que havia encontrado um paciente durante seu curso de golfe, que teve “a cara-de-pau” de pedir por tratamento na mesma hora em que o encontrou.

“Você consegue acreditar que ele me pediu para tratar seu problema justamente no dia da minha folga?”, ele reclamou.

“Isso parece bem ousado”, eu respondi, “como você lidou com isso?”

“Ah, eu o levei mesmo ao meu consultório, claro… e ele levou uma boa injeção de esteróides” ele se disse, “mas eu tenho certeza de que ele nunca mais me pedirá algo assim.”

“O que você quer dizer?”, disse eu, sem entender muito bem.

“Que ele nunca mais vai se esquecer daquela injeção!”

Para este medico, sua ação foi totalmente justificada. Seu paciente havia infringido uma regra pessoal e portanto merecia a dor que lhe foi infligida. Este é um bom exemplo de como é a lógica do Perseguidor. Meu cliente nunca parou para pensar que ele poderia ter simplesmente dito que não; que ele não precisava ter se sentido vitimizado por, ou se sentir na obrigação de salvar seu paciente. Em sua mente, ele havia sido injustiçado e portanto tinha o direito, até mesmo a obrigação, de “ficar quite”.

É muito difícil para alguém nesta posição assumir a responsabilidade pela forma como machucam outras pessoas. Em sua mente, as pessoas merecem isso! Estes indivíduos guerreiros tendem a enxergar a si próprios como tendo de brigar com o mundo para sobreviver! Seu grito de guerra pode muito bem ser “Eu fui injustiçado e alguém tem de pagar!”. Sua luta constante é para reconquistar aquilo que eles acreditam que foi tirado deles.

VÍTIMA

O papel de Vítima é freqüentemente atuado por pessoas que foram criadas por um dedicado Salvador. É a sombra da perfeita criança, aquela parte de nós que é inocente, vulnerável e carente. Este eu-criança realmente necessita de apoio e cuidado ocasionalmente, mas quando um indivíduo se convence de que eles nunca conseguirão tomar conta de si próprios, eles rapidamente podem se colocar no papel de Vítima. Comprando a idéia de que eles são intrinsecamente incapazes, Vítimas adotam a atitude de “Eu não consigo”. Isto se torna o seu maior medo, forçando-os a estarem sempre em busca de alguém que seja “mais capaz” de cuidar deles.

Vítimas negam tanto sua capacidade de resolver problemas quanto seu potencial para gerar poder. Ao invés disso, eles tendem a enxergar a si próprios como frágeis demais para encarar a vida. Sentindo-se impotentes, à mercê, maltratados, intrinsecamente maus e errados, eles se vêem como um “problema insolucionável”.

Isso não os impede, entretanto, de se sentirem altamente ressentidos de sua dependência. Vítimas acabam por sentir-se saturados de estarem em posição inferior e tentam encontrar modos de “ficar quites”. O movimento para a posição de perseguidor geralmente implica em sabotar os esforços para que sejam salvos, assim como outros comportamento passivo-agressivos. Eles são exímios jogadores do “Sim, mas…”. Sempre que uma sugestão auxiliadora lhes é oferecida, a Vítima pode responder “Sim, mas isso não vai funcionar porque…”. Eles podem também se proteger no papel do perseguidor como forma de culpar e manipular os outros a tomar conta dele.

A Vítima toma sua dose diária de culpa. Convencido de sua intrínseca incompetência, ela viva em uma culpa perpétua, inclusive podendo levar ao auto-flagelação. Vítimas perpétuas andam por aí de forma semelhante ao personagem do desenho Snoopy, Chiqueirinho, sempre cercado em sua nuvem de poeira; no entanto, a Vítima está cercada em uma nuvem de culpa que ela mesma cria e alimenta. Esta nuvem acaba por se tornar sua total identidade.

Linda era a segunda filha em sua família. Praticamente desde seu nascimento, ela teve problemas. Linda foi uma criança que estava sempre em confusões de algum tipo. Ela “se virou” academicamente, era insubordinada e estava sempre doente. Não foi nenhuma surpresa para ninguém quando ela se envolveu com drogas quando adolescente. Sua mãe, Stella era uma completa Salvadora. Pensando que estava ajudando, Stella libertou Linda todas as vezes em que ela se meteu em problemas. Aliviando as conseqüências naturais dos atos da filha, Stella privou-a das oportunidades de aprender com os suas escolhas ruins. Como resultado, Linda começou a ver-se como incapaz, tornando-se dependente de outras pessoas para consertar sua vida. As boas intenções de sua mãe deixaram uma mensagem incapacitante para Linda, que provocou um posicionamento vitalício no papel de Vítima, deixando Linda sempre carente e em busca de um potencial salvador.

PROJEÇÃO E SOMBRA DA VITIMIZAÇÃO

Conforme os indivíduos expandem sua percepção e mudam, eles geralmente mudam suas posições iniciais. Conscientizando-se de uma posição primordial, eles podem se comprometer a mudar, mas ao invés disso simplesmente mudar seu papel no triângulo. Apesar de estarem operando de uma perspectiva diferente, eles estão, ainda assim, no triângulo. Isto acontece freqüentemente e pode até mesmo ser uma parte essencial do aprendizado do impacto de se viver no triângulo.

Posicionando os três papéis em uma linha reta com a Vítima no meio é uma forma de demonstrar que o Perseguidor e o Salvador são simplesmente dois extremos de vitimização:

Persecutor ——- VICTIM ——- Rescuer

Todos os três papéis são apenas a expressão perversa de energias positivas que cada um de nós potencialmente carrega, mas renega. A face que principalmente espelhamos determina como estas energias são renegadas.

A parte de nós que é Salvadora contém o dom da mediação e da resolução de problemas. Ela pode ser interpretada como um aspecto feminino. Por outro lado, o Perseguidor é a parte de nós que sabe como usar o poder e a assertividade. Ele pode ser considerado um atributo masculino. Quando estas qualidades essenciais não são totalmente conhecidas ou vivenciadas, elas são reprimidas no inconsciente, onde elas então são finalmente expostas na expressão perversa que vemos no Triângulo do Drama. Em outras palavras, porque estes aspectos são negados, eles entram em ação de forma inconsciente e irresponsável.

Quando suprimimos nossa capacidade de resolver problemas e nosso poder de ação assertiva, nos postamos como Vítimas. Quando nos vemos como os mediadores e responsáveis essenciais, mas negamos a nossa necessidade de cuidarmos de nós mesmos criando os limites apropriados, acabamos por ocupar a posição de Salvadores. Perseguidores, por outro lado, esconderam suas qualidades nutrientes e generosas, e portanto tendem a resolver seus problemas através do ódio, abuso e controlo. Em essência, a da vitimização é uma constante e inconsciente volta à superfície de aspectos da personalidade não confrontados que produzem um drama eterno em nossas vidas.

Nós vivemos em uma sociedade baseada na Vítima. Nos EUA, gostamos de pensar em nós mesmos como Salvadores. Por muitos anos vimos a Rússia como o Perseguidor de países do terceiro mundo, as Vítimas. Acredita-se que, há muitos anos, o presidente da Rússia, Gorbachev, disse ao presidente Bush: “Eu estou prestes a fazer a pior coisa que se pode imaginar, eu vou tirar de vocês o seu inimigo!” Aqui está um homem que entendia, de forma inata, a necessidade do nosso país de ter um bode expiatório, nos dando a chance de dizer, “São estes comunistas maus novamente!”. Se não fosse isso, nós Americanos seríamos forçados a assumir a responsabilidade de nossas tendências perpetradoras. Claro, a Rússia também perpetra, como pudemos acompanhar pelas ações da sua KGB, mas a nossa CIA não tem tendências semelhantes? Nossa própria história foi construída em perseguição. Após alguns anos após ter chegado à América, nossos fundadores começaram a sistematicamente subjugar os nativos que haviam vivido no local há séculos! Parece uma tarefa pesada demais para este país ter a consciência de que deve enfrentar as conseqüências pelo modo como persegue. Ao invés disso, nos determinamos a crer na idéia de que nós somos os “salvadores do mundo”. É sempre difícil para os Perseguidores perceberem que o são. É muito mais fácil justificar a perseguição do que admitir o seu comportamento perseguidor.

O ciclo segue assim; “Eu estava somente tentando ajudar (Salvador), e então eles se voltaram contra mim (vítima) e eu tive de me defender (perseguidor)”. Perseguição quase sempre é justificada como uma defesa necessária. É o papel mais negado. Afinal, quem quer admitir que usa de forma vil as outras pessoas?

O Salvador, por outro lado, não tem problemas de se identificar com o papel daquele q ajuda. Geralmente ele sente orgulho de sua posição enquanto pessoas que cuidam e consertam. Eles são socialmente aclamados e recompensados pelos seus “atos altruístas” de salvamento. Ele acredita na generosidade de seis cuidados, vendo a si mesmos como sempre prontos a ajudar. O que ele nega são as conseqüências desastrosas de seus atos incapacitantes. Mas os que este “benfeitor” têm mais dificuldade de ver é como eles próprios acabam se tornando vítimas. É muito difícil para um Salvador ouvir que são vítimas mesmo quando eles são pegos na mosca reclamando sobre como são destratados!

DOR TRIANGULAR

Viver no Triângulo do Drama cria infelicidade de muitas maneiras. A forma comum mais freqüente é que nenhum dos participantes do triângulo desejam (ou sabem como) assumir responsabilidade por si próprios. O preço a se pagar por isso em todos os três papéis, é uma dor emocional, mental e mesmo física tremenda.

Escapar da responsabilidade e/ou tentar proteger a si mesmo ou outros não funciona, e ainda assim é o principal objetivo de todos aqueles que caem no triângulo. A verdade é que a maior dor é a angústia que se cria quando se tenta evitá-la. Quando tentamos salvaguardar os outros da verdade, nós descontamos suas habilidades. Isso é incapacitante e leva à reações negativas como um todo. Todos os envolvidos acabam magoados e infelizes. Ninguém sai ganhando.

Enquanto nós envolvermos aos outros e a nós mesmos no Triângulo, nós nos relegamos a viver como robôs, no automático. Ao invés de levarmos vidas vibrantes de espontaneidade e escolhas, nós nos conformamos em simplesmente sobreviver. Experimentar uma vida completa requer a habilidade de interagirmos com liberdade. Isso é impossível enquanto estivermos envolvidos no Triângulo do Drama.

SENTIMENTOS RENEGADOS

Freqüentemente encontramos nossa entrada para o triângulo pela porta dos sentimentos renegados. Sempre que negamos os sentimentos dos outros ou os nossos próprios inevitavelmente nos colocamos em algum dos papéis do triângulo. Nós salvamos os outros sempre que tentamos fazer com que não se sintam mal (“Eu não posso contar ao Jim o que penso porque isso irá machucá-lo”). E assim reprimimos nossas opiniões, sentimentos e pensamentos como segredos, o que inevitavelmente cria distância.

Pais que cresceram sem permissão de conhecer ou expressar sentimentos geralmente negam às suas crianças o mesmo direito. Reprimidas, essas emoções negadas se tornam um bolsões de culpa secretos, alienando-nos dos outros e nos sentenciando à uma vida no triângulo. Os sentimentos podem ser intangíveis, mas ainda assim são reais.

Sempre que negamos acesso à nossa experimentação dos sentimentos nos colocamos na perspectiva da vítima. Não podemos assumir responsabilidade por sentimentos dos quais não tomamos conhecimento, e portanto caímos no triângulo.

CULPA E CRENÇAS ESSENCIAIS

A interação triangular é a forma principal pela qual culpa é gerada. Cada papel se move em volta do triangula de uma forma peculiar. Isso ocorre porque cada posição inicial possui seu próprio conjunto de crenças essenciais, que tendem a colocá-las em um determinado papel. São estas atitudes inconscientes que criam sentimentos de desvalorização, inadequação e deficiência. O triângulo é a forma pela qual reforçamos e perpetuamos essas crenças produzidas pela culpa.

Salvadores, por exemplo, acreditam que suas necessidades são desimportantes e irrelevantes e portanto não merecem atenção. A única forma através da qual conseguem legitimamente se conectar com outras pessoas (de forma a ter satisfeitas sua necessidade de pertencer e sentirem-se importantes) é tomando conta dos outros. Salvadores se enchem de culpa quando não conseguem tomar conta das pessoas. Seu mito principal é: “Se eu cuidar dos outros bem o suficiente, por tempo o suficiente, algum dia será a minha vez”. Infelizmente, no triângulo, Salvadores cuidam de Vítimas perpétuas que não fazem idéia de como estar presentes para os outros. Isso reforça a crença daqueles que cuidam (“minhas necessidades não contem”) que, por sua vez, produz mais culpa por ter necessidades reais.

Culpa e vergonha são forças poderosas para a perpetuação do Triângulo. Culpa é freqüentemente usada pelas Vítimas em um esforço para forçar seus Salvadores a cuidar delas (“Se você não cuidar de mim, quem cuidará?”). A crença que gera culpa nas Vítimas é a de que eles não conseguirão tomar conta de suas vidas, e isso as deixa sentindo-se incapazes e necessitadas.

Perseguidores, acreditando que o mundo é perigoso, usam a culpa como ferramenta principal para manter os outros em seu lugar. Seu objetivo principal é sentirem-se seguros, inferiorizando os outros. “Pegarei eles antes que me peguem!” é seu principal compromisso. Como conseguir isto melhor do que julgando, moralizando ou denegrindo suas vítimas?

DESONESTIDADE

É claro, quando aprendemos a negar a nossa realidade emocional, a honestidade torna-se impossível. Falara verdade requer que a conheçamos. Quando reagimos de acordo com nossos sentimentos renegados e programação inconsciente, não conseguimos de forma alguma conhecer nossa própria verdade. Isso significa desonestidade e segredos. Esta é outra importante peculiaridade de todos aqueles que estão envolvidos no triângulo. Somente conhecendo a verdade, podemos começar a nos comunicar honestamente. E somente assim será possível sair do triângulo.

INTIMIDADE FALHA

Apesar de todos nós desejarmos intensamente nos conectar com os outros, muitas pessoas, lá no fundo, têm terror da intimidade. Deixar alguém realmente nos conhecer pode ser uma experiência assustadora. Intimidade requer vulnerabilidade e abertura honesta. Acreditando que somos profundamente não-merecedores do amor, deficientes, ou inferiores torna muito difícil nos revelar. Nós queremos ser incondicionalmente aceitos, mas quando não conseguimos nos aceitar a nós mesmos, é impossível acreditar que alguém realmente possa se envolver conosco. Pensar que precisamos esconder nossa falta de valor faz com que seja imperativo manter distância. Enquanto tivermos de manter nossos segredos e negar nossa verdade, a intimidade é inatingível. A vitimização é uma forma de assegurar alienação, não somente dos outros, mas de nós mesmos.

SAINDO DO TRIÂNGULO

Para sair do Triângulo, precisamos primeiramente decidir assumir a responsabilidade por nós mesmos. Assim começamos a nos permitir conhecer e expressar nossos reais sentimentos, mesmo quando fazê-lo é desconfortável ou desagradável. Quando exploramos nossas posições iniciais e suas crenças essenciais, nos tornamos mais hábeis em reconhecer quando alguém está tentando nos empurrar para o triângulo, e nos recusar a permitir esse empurrão.

Aprender a conviver com sentimentos de culpa sem agir levado por eles é um grande passo para resistir ao jogo da Vítima. Sentir culpa não necessariamente implica em perdermos nossa integridade. Culpa é uma reação aprendida. Há vezes em que a culpa indica que quebramos as regras de uma família disfuncional. Crenças sobre nós e sobre o mundo que impedem o nosso crescimento pessoal, influenciando-nos desde cedo, acabam por se tornar regras rígidas que precisam ser violadas. Ditos familiares como “Não fale sobre isso”, “Não divida seus sentimentos” ou “É egoísta preocupar-se consigo próprio” têm de ser superadas se quisermos crescer. Podemos esperar e até mesmo celebrar a culpa que é gerada quando desafiamos estas leis tácitas.

Ser honesto consigo próprio e outros é a principal maneira de sair do triângulo. Falar a sua verdade é a chave de assumir responsabilidades. E então, precisamos desejar tomar as devidas providências que esta verdade necessita.

Para um Salvador ser honesto, por exemplo, ele têm de confessar seu esforço em manter outros dependentes dele. Isso significa saber que ser um salvador preenche sua necessidade de sentir-se válido. Desta forma, Salvadores aprendem a reconhecer e obedecer às suas próprias necessidades.

Pode parecer extremamente ameaçador para alguém preso na posição de Perseguidor ser totalmente honestos consigo próprios. Para eles, fazê-lo se assemelha a culpar a si próprios, o que somente intensifica sua auto-condenação. Perseguidores precisam de uma situação ou pessoa a quem culpar para que possam manter-se raivosos. A raiva os alimenta como um combustível para sua psique que os faz seguir em frente. Esta pode ser a única forma com a qual conseguem lidar com depressão . Perseguidores precisam de explosões de ódio como alguma pessoas precisam de um rush de cafeína. Isso é o que os faz começar o dia.

Assim como com os outros papéis, para o Perseguidor, assumir as conseqüências de suas escolhas é a única forma de sair do Triângulo. É necessário que haja um grande impacto pessoal para que eles passem a desejar fazer a sua parte. Infelizmente, por conta de sua enorme relutância em fazê-lo, pode ser necessário que isto aconteça na forma de uma grande crise.

Ironicamente, a porta de saída do triângulo para todos os envolvidos é a posição de perseguidor. Isto porque quando decidimos sair do triângulo, geralmente somos vistos como perseguidores por aqueles que ainda estão nele. Assim que decidimos assumir nossa responsabilidade e dizer a nossa verdade, aqueles ainda no triângulo ficam propensos a nos acusar de vitimizá-los. “Como você pode se recusar a cuidar de mim!”, uma vítima pode gritar. Ou “O que você quer dizer com ‘não preciso da sua ajuda’?” diz um resgatador quando a vítima decide cuidar de si própria. Em outras palavras, para escapar da vitimização, precisamos perseverar ao sermos vistos como “pessoas más”. Isto não é verdade, mas precisamos estar preparados para lidar com o desconforto de sermos encarados desta forma.

Quando você está preparado para sua responsabilidade, você começa a organizar os seus reais motivos e sentimentos em relação à sua situação presente. Você deseja experimentar os seus próprios sentimentos desconfortáveis, e deixar com que os outros façam o mesmo sem sentir necessidade de resgatá-los. Se as pessoas que você ama e admira também estiverem dispostas a participar nesse processo de auto-realização, a quebra do triângulo é acelerada. Se você estiver pronto para a quebra e eles não, talvez você precise estabelecer limites rígidos, ou até mesmo cortar relações. Novamente, isto o põe em risco de ser visto como um perseguidor.

Como pessoas cuja posição inicial é a de Vítima são identificadas como o problema de suas famílias, é natural para eles procurar ajuda profissional. Muitas vezes, apesar disso, estão inconscientemente procurando por outro Salvador (que, por acaso, abundam no meio profissional de ajuda psicológica). Estas pessoas precisam desafiar a crença arraigada de que eles não irão conseguir seguir sozinhos. Se elas quiserem sair do triângulo, precisam começar a tomar conta de si próprias, ao invés de procurar por um salvador fora delas. Ao invés de encararem a si próprias como incapazes, elas precisam tomar conhecimento da sua capacidade de resolução de problemas e também de seu potencial de liderança.

Concluindo, nós precisamos primeiramente nos conscientizar da forma como atuamos no Triângulo do Drama. Onde quer que haja disfunção, o Triângulo do Drama estará lá. Tornando-nos conscientes de nossa posição inicial é o primeiro passo para nos livrarmos de nossos padrões de comportamento destrutivos. Quando damos início ao processo de nos liberarmos de nossa inércia assumindo nossa responsabilidade e dizendo a verdade, transformamos nossa vida. Em outras palavras, nós atingimos o nosso Ser Superior, e assim seguimos no caminho das possibilidades que estão latentes em cada um de nós.


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One Response to “As Três Faces da Vítima – por Lynne Forrest”

  1. Alpha dog says:

    (A) vítima
    (B) mediador ou salvador
    (C) Perseguidor

    Simples assim : (C) persegue (A) pata testar sua paciência de forma abrupta , (B) assume a posição de mediador , (A) ignora (C).
    Logo após, (A) cria um novo assunto com (B) e enfraquece (C) que é o perseguidor .

    Segunda estratégia.
    Se (B) o salvador for para o lado de (C) o perseguidor ,mantenha a calma e comunique-se logo após o recado, se houver respeito, caso contrário , bata em retirada , diga me fiz entender? Não diga: “entendi” atitude passiva nesses momentos só pioram a situação da vítima.
    pergunte se o perseguidor esta desocupado ?
    em seguida você vítima diga que esta e
    saia calmamente do local dando as costas sem ligar para ofensas clássicas (crianças saem das discussões)

    Busque a verdade. Seja curioso e analítico .
    Não fortaleça o perseguidor falando demais , a vítima pode até ser criticada por se defender de algo que nem cometeu , não perca a calma e imponha respeito, se preocupe consigo mesmo e não com as críticas , nem sempre são construtivas , por exemplo quem gosta de ser criticado na hora do almoço ???

    Concordo em partes com o texto mas não como foi citada a melhor condição para sair da posição de vítima ter que assumir uma postura de perseguidor, seja estratégico.
    O autor coloca o perseguidor como superior por que é mais fácil apontar o dedo do que reconhecer os próprios erros mas não é superior.

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