February 1, 2007 3

Memórias do desterrro

By in textos, tribuna

publicado na Tribuna da Imprensa.

Cada cidade tem o seu código, a sua cara e a sua . Isso parece óbvio à primeira vista, mas a prática é bem mais complexa. Essa é uma essência difícil de captar e pior de se explicar. Não é apenas a arquitetura, a topologia, o nome das ruas e praças que dão a personalidade às cidades, mas também a sua gente expressando as diversas partes da alma coletiva que são como rugas de expressão do rosto de cada lugar. Impossível pensar naquela cidade do interior de Minas Gerais sem se fiar na turma que se reunia à praça na hora do pôr do para tomar uma cachaça vagabunda, destilada no alambique detrás do boteco. Ou dos e junkies largados na rua que compôem a cena com as madames, os militares da reserva e os travestis de Copacabana. Mesmo os turistas dão a sua cor, cheiro e som àquela tira de areia, e concreto do .

Falo disso por meu próprio exemplo, obviamente. Em determinado momento de minha vida, troquei as ruas que têm o meu cheiro e minhas por um lugar onde cada esquina é uma novidade e cujos nomes e ordem não foram ainda mapeadas na minha mente. Dobrar a em direção à Augusta não tem o mesmo impacto em mim que adentrar pela Prado Júnior vindo da , por exemplo. Não ainda, ao menos.

A sensação em si é boa, mas um tanto quanto desconcertante. É esquisito dobrar uma esquina e não saber a direção de casa ou achar que uma padaria que estaria em determinado canto está do outro lado da avenida, apenas esperando ser descoberta.
É meio que um pique-esconde da cidade na mente com as ruas reais.

Lembro de quando achei uma livraria por um acaso. Não era uma das famosas, como a Cultura, mas um sebo pequeno, com quadrinhos na vitrine. Lá tinha um exemplar do Os Olhos do Gato, do Jean “Moebius” Giraud que valia a pena, mas nunca mais a encontrei. Refiz o caminho novamente e simplesmente não encontrava-a. Parecia que tinha mudado de lugar.

Obviamente, eu é que sou um desorientado e mal consigo ir na lanchonete da esquina da minha casa sem errar o caminho umas duas vezes. Mas é divertido saber que as cidades não se encaixam assim de primeira. Que tenho de construir um mapa mental do mundo que me cerca para fazer parte da cara da cidade que me acolhe hoje.

Outra coisa é falar a língua dos locais. Sei que dominar as gírias ou o cantar próprio de cada povo – no caso de , de cada bairro – é importante, mas ter em mente os códigos semi-ocultos que são moídos em gerações de interrelacionamento a fio é fundamental. Saber chegar numa mesa de bar e puxar os assuntos certos, a marca precisa de ou os salgadinhos tradicionais. Ou então saber entender que aquele olhar é de flerte ou de apenas reconhecimento de tribo. Aquelas coisas simples que praticamos inconscientemente na nossa casa ou na nossa vizinhança.

Pode parecer simples, mas um falar a língua – as diversas línguas – de São Paulo é bem complicado.


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3 Responses to “Memórias do desterrro”

  1. jaq says:

    Quanta saudade do Rio de janeiro, né. Estou aqui e ultimamente ando tão desapercebida. Quem sabe hoje rola um outro olhar.

    Ouvindo: Lemonheads- It’s a shame about Ray

    Saudações!!!

  2. Vivien says:

    Descobrir a cidade e traduzir a cidade é sempre difícil, tortuoso.
    O dia que eu fui no mercadao – e vc comentou que tinha ido la tb – me senti a propria turistosa, dizendo aaaaaaaahhhhhhhsss deslumbrados.
    Demorei anos pra me sentir em casa aqui, em campinas, mas agora , ainda que se tenha muito pra aprender, acho que ja falo a lingua da casa.;0)

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