publicado na Tribuna da Imprensa

Todo homem trai.

Se não está traindo de fato, trai em vontade, desejo e projeção. Não conheço homem que nunca cobiçou mulher alheia ou a mais gostosa do mundo da semana da revista do mês. E nem é culpa deles. Há teses sobre a poligamia natural dos grandes primatas, sobre o custo de geração de gametas para o homem e a mulher, da compensação logística de distribuição de genes e tal, mas o que importa mesmo é que somos compelidos à traição.

E falo não apenas da traição do homem versus mulher, marido versus esposa, mas da traição de conceitos, de crenças, de princípios e idéias. (Digressiono um pouco aqui. É engraçado saber que, em inglês, a traição de um casal é chamada de cheating – trapaça – enquanto o termo traição – treason – é usada para crimes de estado. Nós, ibéricos, é que consideramos a quebra do contrato nupcial, um crime de estado.)

Lembro agora de Giordano Bruno – ex-padre, queimado na fogueira da inquisição – que foi fiel aos seus princípios hereges até o fim: a terra girava em torno do Sol, o nosso sistema era um dentre milhares, os padres deveriam se casar, sexo não era pecado, mas algo divino, etc. Poucos hoje sabem quem foi esse italiano libertino. Mas de outro, todos se lembram. Galileu Galilei ainda é lembrado por suas observações astronômicas porque soube trair seus ideais na hora certa. Traiu para poder publicar seus estudos com a anuência do papa e deixar um legado que seria lembrado até hoje.

De certo a figura do mártir que não abre mão de sua fé ou de seus princípios é impressionante e comovente, mas aposto qualquer valor que a tolerância e a “flexibilidade teológica” foram mais importantes para converter a Irlanda Celta e os nativos no Brasil que o ferro e fogo lançados nos gregos, palestinos e itálicos cristianizados nos primeiros séculos da era cristã.

Novamente saí do assunto, mas retorno agora. O homem trai porque tem de estar mudando o tempo todo. Não é de sua natureza ser uma rocha, um objeto inamovível à toa. O homem é flexível moral e eticamente e é assim que tem de ser, pois, cada outro homem que ele encontra na vida é um universo alienígena que tem de ser traduzido, entendido e decodificado para que ambos possam se relacionar. Por vezes tem de assumir que as verdades do outro não são as suas e ou ele trai o seu pré-conceito de mundo ou passa a rotular o próximo. Ou ambas as coisas.

Homem trai porque precisa sobreviver e os intolerantes tendem a ser exterminados por sua própria cria.

Outra coisa que me vem em mente é a falácia que do “jovem tolerante” ou “jovem flexível”. Exceto na parte física – saudades dos meus joelhos e costas – nunca vi um jovem flexível, tolerante ou compreensivo. Muito pelo contrário, normalmente são os primeiros a criarem rótulos, a se tribalizarem ou se engajarem feericamente em alguma causa ou objetivo – nem que seja comer todas as mulheres do bairro, ganhar milhões de reais antes dos trinta anos ou beber toda a cerveja existente na Lapa, quiçá, do mundo – por mais absurdo e utópico que seja.

Especialmente os adolescentes.