Ela virou-se para o lado esquerdo da cama e catou no criado mudo isqueiro e maço de cigarros. Preparou o penúltimo deles displicentemente. Caiu da boca duas vezes antes de casar a chama com o fumo para a brasa. Ficou deitada, nua, de bunda para cima enquanto baforejava o hálito para o espaço entre os braços. Era uma esfinge perfeita: indecifrável em pose e face.
“Posso fumar?” Pediu permissão apenas na terceira tragada.
“Pode sim. Não me incomoda o cigarro.”
“Você fuma?”
“Não fumo, mas não me incomoda. Fique à vontade.”
Ele levantou-se com dificuldade do lado esquerdo da cama e moveu as suas toneladas até uma cadeira perto da mesinha da televisão. Ficou passeando o olhar na cena formada pelos pacotes de camisinhas desperdiçadas, as roupas amarrotadas no chão e ela deitada com a pele ainda brilhando por conta do suor da atividade. Resolveu pedir uma água e um uísque para o serviço de quarto.
“Caramba!”
“Que foi, lindão?”
“Vinte pratas por uma água e um uisquinho de quinta!”
“Nossa! Caro mesmo! Por que você não me levou para um hotel mais em conta, gato?”
“…”
“Você sabe que não faz diferença para mim.”
Ela desatou o rosário, dizendo que o amava, que ele era lindo daquele jeito mesmo, que era o homem mais interessante que ela tinha conhecido em toda a sua vida. Ele querendo que ela calasse a boca e o chupasse. Só isso.
“O que acontece, amor? Você está avoado… parece que está pensando na vida, na morte da bezerra.”
“E tô mesmo.”
“Mas qual o porquê disso?”
Ele abriu um sorriso canalha disfarçado de gentileza e começou a ensaiar uma ida pro banheiro. “Vou tomar uma ducha. Quer vir?”
Existem diversos tipos de sorrisos: os amarelos, que vêm por falta de opção; os de satisfação por um trabalho bem feito; os cínicos, que saúdam quem você quer ver morto ou vice-versa; os que nascem depois de um gozo com a pessoa que você ama; os que brotam quando você vê que sobrou salário no fim do mês – e não o contrário – e aqueles pelos quais alguém pagou para você dar.
Ela fez um mix dos piores sorrisos e transformou a cara de enfado num expor de dentes instantâneo. De alguma forma irracional aquilo o enjoou de tal maneira que matou qualquer possibilidade de intimidade real com aquela mulher. Sabia que esse era um tipo extremo de perversão, mas gostava da sensação de descontração que algumas conseguiam lhe proporcionar. Não era esse o caso.
Ele desistiu do banho quando pegou a toalha. Ela não: tomou um banho quente, demorado, barulhento e de portas fechadas.
Ele recebeu o garçom à porta e bebeu o uísque em dois goles. Ela apenas se serviu de água. Não bebeu.
Ele voltou a se sentar na mesma cadeira desconfortável. Ela deitou-se de bruços, agora expondo-se para ele. Do seu canto ele podia contar os pêlos do fim das costas, todos dourados pelo sol; a marca de biquíni; a mancha escura de vacina na nádega esquerda; os cravos mal espremidos. Se ela fosse um terreno, daria para fazer um mapeamento topológico completo sem mexer um músculo sequer.
Ele ficou olhando uns bons dez minutos enquanto brincava com o que deveria estar desperto e pronto.
“Benhê. Posso te chupar?”
Ele abriu um sorriso.
A humanidade tinha esperança, afinal de contas.
publicado em Geh – Arte, Seuxalidade, Corporalidade em 15/07/2006
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