January 13, 2005 0

à noite são pardos, definitivamente pardos, os gatos

By in textos

Mais uma vez troco o dia pela noite. Não o porquê ou o quê faria uma pessoa, nessa época do ano especialmente, trocar o silencio, a paz e o frescor de uma noite de verão pelo dia, quente, barulhento, dispersivo. Ah! Sim! Um tal de ritmo biológico que faz o ser humano ser uma criatura diurna, a despeito dos seis mil anos de civilização ou dos mais de cem anos de iluminação pública elétrica.

Mas o fato é que sinto uma atração irracional pela noite. Desde que me entendo por gente (ou seja, coloquei um salário no bolso e me senti mais independente, poderoso e sexy, respectivamente) prefiro trabalhar à noite que pela manhã.

Tive um professor de Matemática que, sabiamente, dizia que as manhãs foram feitas para os padeiros assarem os pães, os fazendeiros cuidaderem das roças e do gado e para os intelectuais dormirem. Eu colocaria na lista dos dorminhocos, os boêmios, os ociosos e os que lamentam a não-invenção do ar-condicionado portátil.

Sempre achei que o conjunto de fatores temperatura e quietude eram que me estimulavam a “virar” as noites, precisando ou não. Mas, ao raiar da puberdade, um pouco antes de me tornar gente (ainda vivendo de mesadas) descobri que as espinhas ficavam disfarçadas ante à luz mais escassa e que a libido feminina funcionava de uma maneira ligeiramente diferente, quando distante do formatório de semi-deuses apolíneos que é a praia.

Primeira digressão: apesar de nascido nos subúrbios do , desde os oito anos moro em copa e, àquela época, os seres humanos do masculino (praticantes ou não) usavam camisas à noite por uma questão de pudor inercial das gerações anteriores. Ao chegar à idade adulta, esse resquício civilizatório europeu-caucasiano foi caindo em desuso frente à exibição dos torsos masculinos (convictos ou não), definitivamente assumindo as influências indígenas ou africanas. Infelizmente esse hábito não se tornou comum para as meninas- do sexo feminino (independente da convicção ou prática) apesar delas tentarem subverter essa ordem latente reduzindo as camisas para tops e frentes-únicas afins.

Voltando, vestido à noite, disfarçava a minha magreza cadavérica e a minha tez hiper-alva, tentando tornar-me atraente aos exemplares do sexo oposto. Fui sempre infrutífero nessas empreitadas, mas, como um bom brasileiro da propaganda, nunca desisiti.
Passava as tardes de férias (saudades das férias de três meses…) na praia, debaixo de um guarda-sol tamanho maracanã, com protetor solar 50, camiseta, óculos (de grau) negros, chapéu de turista, cadeira dobrável, um livro debaixo do braço (O Evangelho Segundo Jesus Cristo, do Saramago – pose de intelectual, né? Para dormir pela manhã), bermuda e Rider® nos pés. Acampava perto da quadra de futevôlei alugada pelo pessoal do prédio. As meninas ficavam na minha barraca e riam das minhas besteiras, da minha vulgata destilada, mas sexo, que era o motivador de tamanho esforço, necas de pitibiriba.

Se as manhãs eram proibitivas por conta do , as tardes infrutíferas (mais por conta da habilidade do caçador que da presença de caça), à noite a coisa mudava de figura. Para outros, com certeza. As meninas da praia dormiam cedo para não perder o sol da manhã. Barzinhos, shows, cinema, nunca. Teatro? Nem pensar! Uma vez estava passando Europa, do Lars von Trier, no saudoso Roxy (o único, o interiço e gigante cinema de Copacabana). Consegui convencer as meninas e alguns dos concorrentes a me acompanhar no evento. Nem preciso dizer que tive de passar boa parte do explicando o que estava a ocorrer. Nunca mais.

Mas o ser humano sempre procura um substituto para o sexo, quando esse não é realizado eficazmente, ou seja, com outra coisa que não seja a sua mão hábil.

E eu descobri o .

Pois é. Noites a fio, criando aventuras para guerreiros, magos, sacerdotes, ladinos e afins por anos ininterruptamente. De novo, a incapacidade de resistir ao chamado do manto negro, frio e soturno. Mesmo quando as aventuras não se estendiam, arrumávamos algo a fazer nos bares ou mesmo na dos . Com o advento do VHS, o cinema em às 2h30min virou um programa divertido. Com o Laser Disk então!

Quando estava para me casar, a norma vigente passou a ser as festas que acabavam quando o sol raiava, ou algo perto disso. Senti uma pitada de inveja, mas como estava já num outro ritmo (pai de família, trabalhador serviçal, tecnólogo de segunda) apenas acompanhei a mudança da juventude ainda bronzeada. A noite, para mim, passou a servir para aquilo que não conseguia fazer durante o dia: dormir. Mas isso durou pouco.

Na rotina de pai, a noite passou a ser entrecortada por um vistante querido, que insistia em não respeitar as convenções milenares de descanso e atividade. Digressão segunda: em verdade, quem sofreu mais com isso foi a mãe, eu descaradamente perguntava a ela se precisava de ajuda ou se queria que eu desse de mamar ou algo parecido. A mãe, dotada de uma sabedoria que acompanha o firmware de todas as criaturas que têm a capacidade de parir, sabia que: em eu colocando a mão no bebê, desastre eram certos. Ou o cocô voaria em direção à cama, ou o leite queimaria a criança, ou (o horror!) deixaria a miúda cair ao chão. Resultado: eu acordava, resmungava algo, a mãe me respondia que não precisava e eu voltava a dormir.

Com a minha filhota mais crescida e acostumada a dormir nos horários ditos corretos, a noite me ficou reservada para outros vícios torpes (o RPG estava confinado aos domingos, os bares às sextas ou quintas, cinema aos sábados, VHS todos os dias). Comprei o meu (único) modem de 33.600 e, ligado ao meu velho PowerMac 7200/90, desbravava a internet nos idos de 98.

A noite acabou se tornando o momento em encontro o grande nada que é o choque entre o que eu quero vir a fazer e o que acabo produzindo de fato. Não que todas as noites sejam improdutivas, disperdiçadas. Algumas até rendem uns textos mal redigidos ou umas saudades nostálgicas de quando eu queria apenas desfrutar de um silêncio e um frescor raros na .


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