publicado na Tribuna da Imprensa
“Cara, desencana que do jeito que tá não vai dar certo.” “Mas você não entende? Ela não me ama, eu não me amo, ninguém me ama, ninguém me quer…” “… ninguém te chama de Baudelaire. Eu sei, babaca. Já ouvi essa ladainha centenas de vezes. E tu continua comendo metade do mundo.” “Só a metade desinteressante.” “COMO ASSIM? Você não ficou com a…” “Fiquei, mas ela não quer me ver nem pintado de ouro.” “E com a…” “Também. Mas ela voltou para o babaca que batia na filha dela.” “Mas e aquela menina que parecia que você iria se enrabichar.” “Não rolou.” “Desenvolve.” “Não rolou e pronto. Não subia.” “Putz.” “Pois é. Todas as mulheres interessantes, bonitas e disponíveis se desmancham na primeira noite. Ou manhã. Ou nem isso.” “Não é você que é muito exigente?” “Porra! Até parece que você não me conhece. Não namorei aquela psicopata? Quer que eu faça o rol das mulheres da minha vida?” “Tu é desses caras que anota tudo, né?” “Sou quase uma mulher, cara. Lembro de tudo de cada uma delas. Todos os detalhes. Só o rosto e o nome é que por vezes me escapam.” “Só? E isso é só?” “É sim se você considerar que lembro do cheiro, do jeito que beijavam, do gosto das partes, do que gostavam e principalmente do jeito que gozavam… quando gozavam, né?”
Entraram no boteco já animados após uns minutos de papo desnecessário no caminho de Copacabana até Botafogo. O amigo era um womenizer, um “comedor” em bom português arcaico, mas não do tipo canalhão desses que acham que têm de comer o mundo inteiro para provar pro pai, pros amigos e para as outras mulheres que têm algo entre as pernas. Era do tipo que acreditava que a próxima seria a última, seria a paixão perdida, a manifestação da primeira paixão. Só que a realidade era bem diferente, né? Do jeito que costuma ser quando sai do papel e vai para todos os outros sentidos. Pior, o outro time costuma ser tão enrolado quanto o amigo. Pior ainda, ele tinha como dar conselhos para o amigo. Era do tipo casadoiro e namorara pouco na vida. Três casamentos, é verdade, algumas farras nos intervalos, mas nada comparado ao curriculum do amigo. De certa forma um invejava o outro. Quase que gozavam com pau alheio. Mutuamente alheio.
Fazia seis meses que o amigo estava parado com a namoradinha mas parecia que não estavam mais se entendendo direito. Tinha mudado para a casa dela, reformado tudo e tal e tinha planos para filhos e casamento num futuro bem próximo. Se conheceram de um jeito esdrúxulo e cada vez que ele explicava, piorava. Preferia deixar as coisas do jeito que estavam e apenas aceitava que o amigo tinha finalmente um relacionamento estável. Ou não.
“Cara, parece que as mulheres vivem eternamente a síndrome de Grouxo Marx.” “Como assim, cara?” “’Eu não entro num clube que me aceita como sócio.’ Saca?” “Acho que sim.” “Pois é. Quando eu estava carente, elas fugiam de mim como diabo foge da cruz.” “Não exagera.” “Verdade, cara! E agora que estou meio que namorando…” “Meio? Tu tá morando com a mulher!” “…elas ficam me assediando. Me ligam, chamam para sair e tal. Pô! Parece que querem ouvir um ‘não rola, linda, mas tô com alguém’, sabe.” “Acho que sei. Uma amiga diz que todo mundo é homossexual.” “Hein?” “É engraçada a teoria. É algo assim: a mulher reconhece o cheiro de outra mulher no cara, então se atira para ele. Mesma coisa com os homens. Eles sentem o cheiro de macho na fêmea e isso a valoriza no mercado.” “Hahahahah! Puta merda! É verdade! É isso! É tudo veado mesmo!” “Hahaha!”
Fecharam a conta mas o assunto não acabava.
“Como tá o casamento?” “Na mesma. Morno, morno. E acho que é essa a receita dos meus relacionamentos. Não me apaixono, não me envolvo. Aceito a parceria e a companhia.” “Não te entendo.” “Nem eu mesmo me entendo. Às vezes até acho que rolaria de ficar casado em apês separados. Ou camas diferentes. Ou quartos, sei lá.” “Não entendo mesmo.” “Nem é para entender.” “Cara, eu sufoco as pessoas, sabe? Preciso de atenção, de cafuné, de sexo e de olhares cúmplices trocados no meio da noite.” “Quem não quer isso, cara?” “Mas a merda, a grande merda, é que cansa. Vira tolerância o que deveria ser uma puta experiência.” “O projeto de tua vida vira um expediente burocrático. Bate o cartão pela manhã e dá uma fodinha antes de dormir. Sei disso.” “Mais ou menos isso.”
Estacionou o carro para deixar o amigo em casa, na Almirante Gonçalves, em Copacabana. Saltou e ajudou-a abrir a portaria. Bêbado sempre tem uma dificuldade foda para abrir portas e achar chaves. Ao voltar viu que ele esquecera um livro de bolso do Pessoa dentro do carro.
“Taí um bom motivo para marcarmos outro chope.”
Abriu o livro e viu que tinha um cartão marcando o Tabacaria, do Álvaro de Campos. Sublinhado, lia-se:
“Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?/Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!/E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!/Gênio? Neste momento/Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,/E a história não marcará, quem sabe?, nem um,/Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras./Não, não creio em mim./Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!/Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?”
Súbito, o choro do amigo na escada de casa fazia sentido.
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uau
Tabacaria é ótimo, mas o meu favorito é “poema em linha reta”. Perfeito.
O “Poema” é o favorito de todo mundo.
Vc já ouviu a versão musicada pelo Paulo Barnabé?
( http://images.zander.multiply.com/song/1/106/full/U2FsdGVkX18PHv,Cu2NgEEeNTIihwKog5Axtsyf4j781Y.Rh69zRDA==/05%20Poema%20Em%20Linha%20Reta.mp3)
é sensacional!!!
Poema em Linha Reta
Fernando Pessoa – Álvaro de Campos
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.