publicado na Tribuna da Imprensa.
Vira e mexe, Helena dormia suada sobre o meu braço direito. E eu reclamava.
“Não faz isso. Eu tenho bursite, você sabe.”
E ela trocava de lado por cima de mim. Às vezes, quando nua, trocava, parava, não trocava, ficava. Sorria lasciva. Às vezes ela apenas dava as costas e voltava a dormir, e era um convite para eu enconchá-la. E eu sabia que ela estava sorrindo do lado direito da cama.
Quando isso ocorria, eu gostava de ouvir a respiração de Helena. Cantava desafinado alguma música de Jeff Buckley. Ou dos Beatles. Ou dos Bee Gees. Ou do Chico, a qual eu não desafinava tanto, mas ele, sim. E ela não gostava e me mandava calar a boca ou contar uma história de dormir. E eu contava histórias picantes de fadas, gigantes, gnomos e de jogos on-line em que tínhamos de derrotar todos esses seres fantásticos para ganhar pontos e nos tornar guerreiros ou magos mais eficientes nesses brinquedos de internet. Obviamente ela não passava da sexta frase do que eu dizia — não importasse quão emocionante fosse a minha aventura digital — e ferrava no sono.
Helena também dormia sobre minha barriga. E eu reclamava.
“Não faz isso. Me dói o diafragma, e eu não consigo respirar direito.”
Helena saía da minha barriga contrariada. Ou descia animada buscando algo que podia estar de prontidão, que deveria estar de fato, mas ultimamente não. Ou era a mente que viajava nos problemas de ontem, ou a vontade que sumia nos problemas de amanhã por desculpa ou motivo. Não fazia diferença.
Helena não desistia de mim. A não ser nos dias que desistia de si. E, nesses dias, Helena cerrava o cenho e não dava nem beijo nem palavra. Nem nada. E se deitava no meu ombro e era expulsa quando era o ombro direito. Mas quando não, falava obscenidades no meu ouvido. Colocava um disco do Pearl Jam — que eu particularmente odiava — e me dizia que, com raiva, eu ficava mais sensual. E eu era mais sensual só para ela, naquela hora, com aquele disco que eu amava odiar.
Nos últimos tempos, Helena me apertava o nariz quando nos beijávamos no pós-coito. E eu reclamava.
“Beija do lado esquerdo. Eu só respiro por uma narina. Você sabe…”
E ela olhava para mim, triste. Triste de “só queria ver você feliz, você sabe disso”, e eu triste de querer ser feliz ali ao lado dela mas não conseguindo achar a felicidade que era para estar ali, nos lençóis e nas coisas bobas que os amantes têm de falar entre si. E eu triste de dizer que a queria muito, mas muito. Mas o corpo cala e não tem palavra que diga “eu te amo” quando os olhos só dizem “eu te quero bem”. E eu queria ouvir Vinícius cantado por Tom e Toquinho e queria que Helena fosse o peso que carrego no ombro direito, a falta de ar no nariz tapado ou do diafragma apertado. Queria que Helena me pesasse sempre os ombros, as pernas. Que me fosse cada dor física que me deixava quando deixávamos a alcova.
Só não queria que ela se tornasse o vazio insistente do lado esquerdo da minha cama que existe desde que me entendo por gente. Um vazio que não se vai. Esse vazio que é só meu e que me define desde que aprendi a desamar.
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Meu deus, que coisa mais linda… e triste… e sincera.
Nossa, Zander, uau! Eu não conhecia esse seu talento. Excelente texto.
já notou que os casais são todos iguais? e a tristeza, a dor… mas expressar isso de forma tão bonita é pra poucos. adorei.
eu tenho um vazio que fica dentro de mim, às vezes ele fica maior, às vezes menor, não do lado esquerdo da minha cama, mas em mim. E eu fiquei pensando: bem de mulher isso, ter um vazio dentro de si, e do homem, ter um vazio ao lado. OU não. Ambos insistentes.
Mas eu queria dizer que é para aprender a desamar e amar e desamar e amar novamente, quantas vezes forem.
seu texto está lindo.
Luana.
Lindo lindo lindo.
É daqueles textos que verbalizam medos e melancolias que moram dentro da gente.
Adorei
Beijo grande,
Erica