publicado na Tribuna da Imprensa
Tinha dito para si mesmo que não iria ser tão crítico e morrinha com os atores. Afinal, uns eram seus amigos e ele não antipatizava com ninguém da peça. Do autor à camareira, todos tinham alguma história para contar dele, dos tempos que atuava junto com a companhia. Eram tempos idos, todos sabiam, mas ele sempre retornava a cada peça nova. A cada nova estréia, meio de temporada e encerramento. Por vezes até participava de um ou outro ensaio.
“Poxa cara, você bem que poderia fazer só esse papel. É pequeno, só tem duas falas.” “Não rola. Eu precisaria ensaiar com vocês todos os dias e eu tenho de trabalhar, saca? Mulher e filho e essas histórias.” “Fala com o diretor, vai que ele deixa você só ensaiar nos sábados.” “É lindona? Você não acha sacanagem eu ensaiar só duas vezes por semana e vocês todos os dias? Só por conta dos meus olhos cor de mel?” “…” “Pois é, minha linda, não rola. Mas o nosso chopinho depois tá de pé.” “Ok.”
Dez anos desde que pusera os pés naquele teatro, no Brigitte Blair da Miguel Lemos. Dez anos atrás era um teenager ainda. Imberbe e semi-virgem. Apaixonou-se de pronto. Pela ribalta e por ela. Ela era uma das “descobertas” do diretor que, como de praxe e por ser um clichê assumido, investia sexualmente em cada uma delas. Inteligente, talentosa, bonita. Nunca se entendeu o porquê dela se juntar a uma companhia tão mequetrefe e amadora. Quando ela atuava, os seus olhos eram como duas jaboticabas perfeitas brilhando no palco. “Othello”, “A morte do caixeiro viajante”, “Trair e coçar”, “Disque M para matar”, “A Gata Borralheira e Cinderela contra o Baixo Astral” e outros clássicos da dramaturgia foram salvos da derrocada total apenas por sua presença estonteante.
Havia algo de encantado ali, naquela combinação impossível. Atores fracos, diretor pífio, “autores” desimaginativos, estrela de primeira grandeza sujando a barra da saia com a lama da mediocridade. E, espanto dos espantos, ela era realmente feliz.
Ele, mais forçado pela necessidade que pelo desejo do sonho, largou a tropa no mesmo ano que entrou sem realizar seus dois planos. Encenar “Alcassino e Nicoleta” era o principal. O diretor cismou de adaptar essa peça pra Salvador nos anos quarenta. Quando ouviu isso, sacou que já era a hora de pular fora e aproveitou uma fase de dureza em casa para catar um “emprego de verdade”.
Há uns dois anos, ele a reencontrara e foi fogo em palha seca. É uma história engraçada. Ele foi a uma estréia (como sempre) saiu para chopear com todos (como sempre) riu das investidas vãs do diretor pra cima dela (como sempre) e ofereceu-se para levá-la em casa. Ela aceitou. Riu ao chegar na portaria do seu prédio. Convidou-o para um café em casa. Café da manhã, que esteja bem explicado aqui. Ele aceitou.
No intercurso, disse que sempre sonhara com isso. “Eu sei, bobo.” Disse que ela era a mulher da vida dele. “Eu também sei disso, querido. Tira as meias, vai. Tá ridículo você de cuecas e meias.” Disse, por fim, que queria que aquele momento nunca acabasse. “Eu não, beibi. Quero muitos momentos com você. Se esse não acabar… não haverão outros, né?” Ele sorriu.
Desde então, era rotina. Trabalhava de segunda à sexta, de oito às seis. Quintas, sextas e sábados é teatro e chope. Depois, chope a dois. Dois anos dessa mesma rotina. Ela não parecia triste nem cansada e ele se achando no paraíso. Do céu à terra, do domingo pra segunda-feira, ele resolve perguntar o porquê dela continuar naquela entourage. “Caramba, você teve convite para ir para a Globo, papel na ‘Malhação’. O que você vê naquela turma?” “Você sempre se perguntou isso, né?” “Sim.” “Da mesma forma que você me esperou por oito anos, né?” “É. Mais ou menos isso.” “Eu pago as minhas contas ali. Esse apê é meu também e não pago aluguel. Não tenho filhos. Ainda. Não gasto muito e como pouco. Dá para viver trabalhando com o que gosto. Aquela turma é a minha turma.” “Sei.”
Virou-se pro lado e tentou cochilar um pouco. Iria virado de novo pro trabalho.
Quando acordou, ela já tinha se arrumado e saído. Por vezes fazia isso. Ia caminhar na praia, saudar o Sol, praticar iôga ou apenas comprar pão e leite. Arrastou o corpo dormido e amarfanhado até a mesa da copa e encontrou uma apostila entre o pão morno, o café quente e o leite gelado.
Serviu-se de pão, leite, café e sorrisos entre uma edição velha de “Alcassino e Nicoleta”.
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