publicado em LIVinRooom
publicado na Tribuna da Imprensa
De tempos em tempos, os astros se posicionavam de forma esdrúxula. “Se posicionar” é uma expressão imprecisa. Na verdade, eles faziam o seu percurso diário normal: acordavam, tomavam café da manhã, lavavam o rosto, tiravam as remelas e aparavam as barbas longas e tediosas, davam a descarga no jantar de ontem e escolhiam as roupas que iriam usar naquele dia. Exceto Hélio, que tinha uma coleção de camisas brancas, jeans pretos e sapatos envernizados que parecia nunca acabar.
Bom, eu dizia que se posicionar era uma expressão um tanto quanto exagerada. Na verdade, de tempos em tempos, eles combinavam espezinhar a vida de alguém: um mortal aleatório recebia uma graça inesperada, outro podia pisar nos excrementos de um cão ou ainda acabar completamente com a noite de um pobre mancebo. Isso antes do Viagra.
Em efemérides mais raras, todos os astros se reuniam num mesmo recinto para planejar o que fariam no verão. Todos os sete. Obviamente, isso necessitava uma logística complexa. Luna tinha de comprar o vôo mais em conta, vinda de São Paulo; Hermes tinha que arrumar uma rara folga financeira, dado o seu trabalho de fotógrafo freelancer; Márcio era presença incerta, dados os amores e as inconstâncias dos empregos, viagens e tal; Vênus era fleumática e se irritava só de olharem para ela mas, se chamada, ia. Já os dois velhos…
Conseguiram marcar a data e o local, dentre as diversas agendas. Casa Ulrich, no centro do Rio. Arrumaram uma mesa bem no fundo, debaixo do ar condicionado gélido.
Foram chegando, um a um, sem alarde, ocupando os seus lugares na mesa reservada. Os velhos já estavam assentados quando os outros adentraram. Luna foi a última deles, vindo direto do aeroporto Santos Dummont, ainda carregando a maleta sobre rodas. Acomodou-se à cabeceira do lado de Hélio. Ela não segurou a expressão de surpresa ao ver todos à mesa depois de tanto tempo.
Os chopes eram servidos por garçons que contrariavam a sua programação empregatícia de ignorar mesas grandes, e levavam fartas quantidades de tudo que era pedido, enquanto cada um dos presentes contava as suas desventuras. Normalmente Hélio e os velhos ficavam quietos só censurando quando um ou outro elevava a voz.
Dessa vez não teve muita disputa. Não haveria pomo de ouro, territórios, ou mesmo reinos a serem partidos. Não prenderiam ninguém em pedras para ter o seu fígado devorado por abutres ou mesmo afundariam ilhas-continentes. Apenas pegariam um pobre coitado para espiar o tédio de sua vida eterna.
Escolherem um desinfeliz aleatório que tinha lançado uns olhares famintos para Vênus. Coitado. Estava prestes a encontrar o amor de sua vida, aquela que seria a tríade pessoal encarnada. Seria a sua musa, a mãe de seus filhos e a Ishtar caseira. Aliás, já o era. O problema é que ele ainda não sabia disso.
Os sete sabiam que tirar uma pessoa do seu curso traçado é trazer o inferno à terra e encarnar o fluxo da caixa de pandora numa pobre criatura. Os velhos plantaram discretamente a semente da dúvida no coração do coitado. Daí ele começaria o seu calvário de vinte anos, à semelhança de Ulisses, o perdido.
Os sete saíram dali do mesmo jeito que chegaram. Inconspícuos e sorridentes.
Tags: aleatórios, amor, amores, casa, dia, filhos, oração, são paulo, sono, trabalho, tribuna da imprensa, verão, viagens
G-e-n-i-a-l. Me lembrou Deuses Americanos do Neil Gaiman.
Esses textos são recentes? São ÓTIMOS! Você anda com a macaca, hein? No melhor dos sentidos.
É, eu tenho escutado Legião.
Não sei se isso é bom ou ruim, mas tem me feito algum bem…
beijos beijos!
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